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  • Crédito rural: bancos elevam garantias em 300% e freiam financiamentos no agro

    Crédito rural: bancos elevam garantias em 300% e freiam financiamentos no agro

    No dia 1° de junho de 2026, os bancos brasileiros selaram um novo capítulo de retração no crédito rural, impulsionado por um cenário que há tempos não assombrava os produtores com tanta força: a combinação explosiva de inadimplência recorde, recuperações judiciais em alta e margens de lucro cada vez mais estreitas. Segundo dados da Serasa Experian, o número de pedidos de recuperação judicial por empresas do agro atingiu patamares históricos em 2025 e início de 2026, forçando instituições financeiras a recalibrar suas políticas de concessão de empréstimos.

    Garantias triplicadas: o novo filtro do crédito rural

    Uma reportagem da Bloomberg revelou que, em resposta ao aumento das perdas com dívidas não honradas, os bancos passaram a exigir garantias até três vezes maiores para liberar novos financiamentos — um movimento que, na prática, reduz o volume de recursos disponíveis para o setor. Produtores com histórico de inadimplência ou ativos de menor liquidez já enfrentam dificuldades para obter crédito, enquanto aqueles que dependem de recursos frescos para colheitas ou investimentos em tecnologia se veem obrigados a oferecer terras, maquinário ou estoques como colateral.

    O círculo vicioso: juros, câmbio e preços em queda

    A pressão sobre os produtores não é nova, mas se agravou nos últimos 18 meses. Após anos de bonança com os preços das commodities — especialmente soja, milho e carne — em patamares elevados durante e após a pandemia, o setor agora enfrenta uma guinada brusca: a valorização do real frente ao dólar derrubou a competitividade das exportações, enquanto os custos de produção (como fertilizantes e diesel) seguem altos. Somado a isso, a política monetária contracionista do Banco Central, com taxas de juros em dois dígitos, elevou o custo financeiro das dívidas, sufocando caixa de empresas já endividadas.

    MS inova, mas o agro se divide: etanol de milho e cana mostra resiliência

    Em meio ao aperto generalizado, o Mato Grosso do Sul se destaca com a inauguração da primeira usina integrada de etanol de cana e milho no país, com investimento superior a R$ 1 bilhão. O projeto, anunciado em junho de 2026, é um exemplo de diversificação que pode mitigar riscos, mas depende de financiamentos — agora mais escassos. A iniciativa, contudo, contrasta com a realidade de pequenos e médios produtores, que representam a maior parte das recuperações judiciais e enfrentam dificuldades para renegociar dívidas junto a bancos e cooperativas.

    O que vem pela frente: renegociação ou colapso?

    Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que, sem uma política de renegociação agressiva ou um plano de sustentação para o setor, o cenário pode piorar. O agronegócio, que responde por cerca de 25% do PIB brasileiro, corre o risco de ver sua capacidade de geração de emprego e renda comprometida — com reflexos em toda a economia. Bancos, por sua vez, buscam equilibrar a preservação de seus ativos com a manutenção de linhas de crédito essenciais para a safra 2026/2027, que já tem estoques de soja e milho pressionados pela queda na rentabilidade. A solução, no entanto, exigirá mais do que garantias: será necessário um pacto entre governo, setor privado e produtores para evitar uma crise sistêmica.

  • CNJ acelera bloqueio judicial: contas de devedores podem ser penhoradas em até 2 horas

    CNJ acelera bloqueio judicial: contas de devedores podem ser penhoradas em até 2 horas

    O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deu início a um projeto-piloto que promete revolucionar a forma como o Judiciário recupera dívidas no Brasil. Desde a semana passada, o novo Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário (Sisbajud) entrou em operação, reduzindo drasticamente o tempo para bloquear contas de devedores e ampliando o alcance das penhoras.

    Bloqueios em tempo real: do dia para horas

    Antes, as instituições financeiras levavam de um a dois dias úteis para cumprir ordens judiciais de bloqueio. Agora, com o novo sistema, o processo é concluído em até duas horas após a decisão judicial. Os tribunais enviam as ordens duas vezes por dia — às 13h e às 20h — para os cinco bancos que já aderiram ao projeto: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Nubank e XP Investimentos.

    Monitoramento por um ano: a dívida não some mais

    Outra mudança significativa é a duração dos bloqueios. Anteriormente, a Justiça só podia penhorar o saldo disponível na conta no momento da ordem. Agora, o bloqueio permanece ativo por até 12 meses, permitindo que novos depósitos do devedor sejam automaticamente retidos até quitar a dívida. A medida também impede que valores sejam transferidos para contas de terceiros após a expedição da ordem judicial, graças à automação da comunicação entre tribunais e bancos.

    O que muda na prática para devedores e credores

    Para os credores, o novo sistema representa uma vitória: dívidas serão recuperadas com muito mais agilidade. Já para os devedores, a atenção precisa ser redobrada. Especialistas alertam que, embora a legislação ainda proteja salários, aposentadorias, pensões e parte das poupanças, o risco de penhora indevida de verbas protegidas exige reação imediata caso ocorra.

    Em ações de cobrança, o bloqueio geralmente é determinado por liminar. Com a automação, o processo se tornou quase instantâneo, o que pode pegar muitos devedores de surpresa. “O devedor precisa monitorar suas contas diariamente e, se identificar um bloqueio indevido, deve entrar com um agravo de instrumento ou ação para contestar”, explica a advogada especializada em direito bancário, Maria Fernanda Vieira.

    Fase de testes e expansão gradual

    O novo Sisbajud está em fase de testes por 18 meses e, caso os resultados sejam positivos, o CNJ pretende estender a medida a todo o sistema financeiro. A medida faz parte de um esforço maior para modernizar a Justiça e reduzir a morosidade em processos de recuperação de crédito, que atualmente ultrapassa 4 anos em média.

    Riscos e controvérsias

    Apesar da eficiência, a ampliação dos poderes de bloqueio levanta discussões sobre equilíbrio entre efetividade da Justiça e direitos do devedor. Críticos argumentam que a medida pode levar a abusos, especialmente em casos de dívidas de pequeno valor ou em situações onde o bloqueio prejudique a subsistência do devedor. O CNJ, no entanto, reforça que o sistema foi desenhado para ser transparente e monitorável, com mecanismos de revisão automática em casos de erros.