O elo mais frágil da boiada na seca
Com a estiagem derrubando a qualidade dos pastos e encarecendo a alimentação suplementar, o pecuarista de cria enfrenta um dos maiores desafios do ano: manter a produtividade do rebanho em um cenário onde a fêmea de primeira cria — a primípara — nem sempre recebe a atenção necessária. Enquanto muitos tratam o rebanho como um bloco único, os produtores que apostam em um manejo rigoroso desse grupo específico estão descobrindo uma estratégia capaz de proteger não apenas a safra atual, mas também o ano seguinte.
A biologia contra o produtor: por que as primíparas são as mais afetadas?
Pesquisas da Embrapa Gado de Corte revelam que a primípara carrega um duplo fardo na seca: além de ser a fêmea com maior demanda metabólica — por estar em crescimento, gestando um bezerro e ainda produzindo leite —, ela é a primeira a sofrer com a escassez de nutrientes. Segundo o zootecnista Dr. Marcos Barbosa, coordenador do programa de melhoramento genético da Embrapa, “erros no manejo desse grupo durante a estiagem não impactam apenas a prenhez imediata; eles comprometem a capacidade reprodutiva da fêmea para os próximos ciclos, ampliando prejuízos que se estendem por anos”.
Blindagem financeira: como o manejo diferenciado salva o caixa
O diferencial está em investir nas primíparas antes mesmo de os efeitos da seca se tornarem críticos. A técnica, já adotada por grandes criatórios, inclui suplementação estratégica com minerais de alta biodisponibilidade, ajustes na dieta para evitar perdas de peso excessivas e, sobretudo, priorização na inseminação artificial em tempo fixo (IATF). “O produtor que negligencia esse grupo na seca está, na prática, adiando um prejuízo inevitável. As primíparas são a ‘carta na manga’ para garantir taxas de prenhez acima de 70% mesmo em anos de estiagem severa”, explica o engenheiro agrônomo João Silva, consultor de rebanhos de corte.
O custo de ignorar a primípara: um exemplo real
Dados da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) mostram que fazendas que adotam o manejo diferenciado de primíparas registram, na média, 20% a mais de prenhez na IATF durante a seca, em comparação àquelas que tratam todo o rebanho de forma homogênea. Em um cenário de preços de boi gordo em queda — como o observado em julho de 2026 —, cada prenhez adicional representa uma economia de até R$ 1.500 por fêmea, considerando custos evitados com reposição de matrizes e menor impacto na lucratividade do ano seguinte. “É um investimento que se paga na hora e protege o fluxo de caixa”, destaca Silva.
O futuro do rebanho: preservar o potencial genético
Além do ganho imediato, o manejo diferenciado das primíparas garante a manutenção do melhoramento genético da propriedade. Como esses animais são as matrizes do futuro, erros na seca podem significar a perda de anos de seleção para características como precocidade sexual, habilidade materna e eficiência alimentar. “A seca é um filtro natural, e quem não cuida das primíparas está jogando fora o trabalho de décadas”, alerta Barbosa. A estratégia, portanto, não é apenas uma questão de sobrevivência no curto prazo, mas de sustentabilidade do negócio pecuário.
