Tag: cadeia produtiva

  • Quagliato: O império oculto que sustenta o agro brasileiro com 250 mil cabeças de gado e bilhões em produção

    Quagliato: O império oculto que sustenta o agro brasileiro com 250 mil cabeças de gado e bilhões em produção

    Aos 21 de junho de 2026, o sobrenome Quagliato ressoa como um dos pilares invisíveis do agronegócio nacional. Por décadas, quatro irmãos — liderados por Roque Quagliato — construíram um império que abarca mais de 250 mil cabeças de gado, extensas áreas agrícolas e plantas industriais de açúcar e etanol, movimentando bilhões sem alarde midiático.

    Um colosso construído longe dos holofotes

    Enquanto gigantes como JBS ou Raízen dominam manchetes, a trajetória da família Quagliato ilustra como o agro brasileiro opera em segunda divisão — ainda assim, com uma relevância inegável. Com fazendas distribuídas por Goiás, Mato Grosso e São Paulo, o grupo consolidou-se na pecuária de corte e expandiu-se para a agricultura em larga escala, especialmente na produção de cana-de-açúcar para etanol e açúcar.

    Do campo à indústria: a integração que define o modelo Quagliato

    O diferencial do modelo Quagliato está na verticalização. Ao controlar desde a criação de gado até a transformação da cana em biocombustível, a família reduziu custos e maximizou lucros, criando uma cadeia produtiva autossuficiente. Roque Quagliato, figura central do grupo, é reconhecido não apenas pelo porte de sua operação, mas pela estratégia de longo prazo — que inclui a aquisição de terras em momentos estratégicos e a diversificação para amenizar crises setoriais.

    Legado e impactos: o que está em jogo

    Em um setor cada vez mais pressionado por questões ambientais e regulatórias, o modelo Quagliato serve de estudo de caso. A gestão de terras em larga escala, embora eficiente economicamente, enfrenta escrutínio quanto ao uso de recursos hídricos e emissões de carbono. Além disso, a concentração de terras nas mãos de poucos grupos — como os Quagliato — reforça debates sobre a democratização do acesso à propriedade rural no Brasil.

    O que vem pela frente?

    Com a demanda global por alimentos e energia renovável em ascensão, o grupo deve enfrentar novos desafios: modernização tecnológica para aumentar produtividade, adaptação às exigências ESG (sustentabilidade) e concorrência com conglomerados internacionais. Seja como for, a história dos Quagliato prova que, no agro brasileiro, o poder muitas vezes caminha sob o radar — mas suas decisões ecoam por toda a cadeia produtiva.

  • Milho roxo na Amazônia: como a agricultura familiar transformou um grão andino em negócio milionário com sabor da floresta

    Milho roxo na Amazônia: como a agricultura familiar transformou um grão andino em negócio milionário com sabor da floresta

    Do alto dos Andes às águas amazônicas: uma cultura que se reinventa

    O que começou como uma tradição culinária nos Andes peruanos agora ganha raízes na Amazônia, onde as várzeas férteis — solos alagadiços que secam sazonalmente — tornam-se o novo palco para o cultivo do milho roxo. Esta adaptação não é apenas uma curiosidade agrícola, mas um movimento estratégico que une dois biomas sul-americanos em torno de uma cadeia produtiva sustentável e economicamente viável para famílias rurais.

    Agricultura familiar como motor da transformação

    A virada no jogo veio com o suporte do Instituto Peruano de Pesquisa da Amazônia (IIAP), que desenvolveu técnicas para cultivar variedades andinas em condições amazônicas. O projeto, inicialmente focado no milho roxo, logo expandiu-se para incluir a produção de derivados, como a ‘Camuchicha’ — uma releitura amazônica da tradicional chicha morada, agora enriquecida com camu-camu, um fruto local com alto teor de vitamina C. A iniciativa não só diversificou a renda dos agricultores, como também atraiu olhares para um modelo de negócio alinhado à bioeconomia e à agricultura regenerativa.

    Cleydis Murayari e o pioneirismo que mudou uma comunidade

    Na comunidade 7 de Junio, no distrito de Yarinacocha, a agricultora Cleydis Murayari Ihuaraqui decidiu, em 2022, romper com a rotina local ao plantar milho roxo em uma área antes improdutiva. Seus resultados — colheitas estáveis e solos menos dependentes de fertilizantes químicos — serviram de inspiração para outros produtores. Hoje, sua experiência é citada como caso de sucesso pelo IIAP, provando que a sinergia entre conhecimento tradicional e ciência pode reconfigurar economias regionais.

    Sustentabilidade que vai além do campo

    A adoção do milho roxo nas várzeas amazônicas traz benefícios ambientais tangíveis: a redução do uso de agrotóxicos, a recuperação de áreas degradadas e a geração de emprego em comunidades isoladas. Além disso, a ‘Camuchicha’ — bebida que já desponta como produto de nicho no mercado internacional — representa uma ponte entre a cultura nativa e o consumo moderno, com apelo para mercados gourmet e health food. Especialistas destacam que o modelo pode ser replicado em outras regiões da Amazônia, inclusive no Brasil, onde a busca por produtos sustentáveis cresce a cada ano.

    O futuro da produção: desafios e oportunidades

    Apesar do sucesso inicial, o projeto enfrenta obstáculos como a logística de distribuição em áreas remotas e a necessidade de investimentos em processamento industrial para escalar a produção da ‘Camuchicha’. No entanto, o potencial econômico é inegável: o milho roxo, antes um grão de nicho, agora figura em projeções de crescimento para a agricultura familiar amazônica. Com a demanda global por ingredientes funcionais e sustentáveis em alta, a Amazônia pode não apenas se tornar a nova fronteira do milho roxo, mas também um laboratório vivo de inovação rural.

  • Produtores de leite de SC unem forças para criar entidade estadual e combater crise do setor

    Produtores de leite de SC unem forças para criar entidade estadual e combater crise do setor

    Um movimento inédito no estado de Santa Catarina ganha força nesta terça-feira (12), quando sete associações regionais do setor leiteiro se reuniram na sede da AMOSC, em Chapecó, para dar os primeiros passos rumo à criação de uma entidade estadual capaz de representar os interesses de mais de 20 mil produtores rurais. A iniciativa, que envolve municípios do Oeste, Extremo Oeste, Meio-Oeste, Alto Irani, Alto Uruguai e Noroeste catarinense, é uma resposta direta aos desafios que assolam a cadeia produtiva há anos: queda nos preços do leite, aumento dos custos de produção e falta de políticas públicas efetivas.

    Da fragmentação regional à união estratégica: o nascimento do Fórum Interassociativo

    A reunião, conduzida pelo vice-presidente da AMOSC e prefeito de Nova Itaberaba, Marciano Pagliarini, e pelo presidente da AMAI, Anderson Bianchi (prefeito de Lajeado Grande), reuniu representantes das associações AMEOSC, AMERIOS, AMNOROESTE, AMAI, AMOSC, AMAUC e AMMOC. O objetivo central foi estruturar um fórum interassociativo permanente, que atuará como voz unificada dos produtores frente ao governo estadual e federal.

    Segundo Pagliarini, a união das sete regiões é um marco para o setor. “Esta é uma oportunidade histórica de fortalecer os produtores rurais, não apenas economicamente, mas também na defesa de seus direitos. Precisamos ampliar a representatividade para garantir que a atividade leiteira, tão vital para nossa economia regional, seja reconhecida como estratégica”, afirmou. A proposta, apresentada pelo assessor jurídico da AMOSC, Fabiano Porto, prevê a criação de um fórum que coordenará ações coletivas, desde o diálogo com instâncias governamentais até a proposição de projetos de lei que beneficiem o setor.

    Os principais desafios que unem os produtores catarinenses

    Durante o encontro, foram mapeadas as principais dificuldades enfrentadas pelos produtores, que incluem:

    • Preços instáveis: A queda nos valores pagos pelo litro de leite nos últimos anos, agravada pela concorrência com importações e pela concentração do poder de compra das indústrias processadoras, tem reduzido a margem de lucro dos produtores.
    • Altos custos de produção: O aumento dos preços de insumos, como ração e combustível, pressiona ainda mais a viabilidade econômica das propriedades rurais.
    • Falta de políticas públicas específicas: Os produtores pedem incentivos fiscais, acesso a crédito com juros subsidiados e programas de garantia de preços mínimos, semelhantes aos existentes para outros setores da agropecuária.
    • Fragilidade na comercialização: A dependência de intermediários e a falta de cooperativas fortes limitam o poder de negociação dos produtores junto às indústrias.

    Para enfrentar esses problemas, o fórum propõe a elaboração de um plano estadual para o leite, com metas claras de curto, médio e longo prazo, incluindo:

    • Criação de um índice estadual de preços do leite, que sirva como referência para negociações.
    • Estímulo à formação de cooperativas regionais para fortalecer a comercialização.
    • Parcerias com universidades e centros de pesquisa para desenvolver tecnologias que reduzam custos e aumentem a produtividade.
    • Adoção de medidas de proteção contra a concorrência desleal de produtos importados.

    O papel das lideranças políticas e o caminho a seguir

    A participação de prefeitos e secretários municipais de Agricultura no encontro sinaliza o apoio político que a iniciativa pode ter. O prefeito de Chapecó, por exemplo, já se comprometeu a incluir a pauta do leite na agenda da próxima reunião do Consórcio Intermunicipal do Oeste Catarinense (CIOESTE). “Este movimento não é apenas dos produtores, mas de toda a cadeia produtiva. Precisamos que o governo estadual e federal enxergue a importância do leite para Santa Catarina”, declarou um dos participantes.

    Nos próximos meses, o fórum interassociativo realizará reuniões regionais para ouvir as demandas específicas de cada território e formar grupos técnicos para levantar dados precisos sobre a cadeia leiteira catarinense. A meta é apresentar um projeto de lei estadual até o final de 2024, com propostas concretas para resolver os gargalos do setor. “Não queremos assistencialismo, mas condições justas de competição. O leite catarinense tem qualidade reconhecida, mas falta rentabilidade”, resumiu um dos líderes do movimento.

    Santa Catarina: um estado-chave para o leite brasileiro

    Com uma produção anual de cerca de 3,5 bilhões de litros, Santa Catarina é o quarto maior produtor de leite do Brasil, atrás apenas de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. No entanto, o setor enfrenta uma crise silenciosa: enquanto a produtividade cresce, a renda dos produtores cai. Segundo dados da Epagri, o custo de produção em 2023 superou em 20% a receita média por litro de leite, pressionando muitos produtores a abandonar a atividade ou reduzir investimentos.

    A criação do fórum interassociativo surge como uma resposta necessária para reverter esse cenário. “Unidos, temos força para negociar com as indústrias, pressionar por políticas públicas e mostrar que o leite catarinense é um produto de excelência, que merece ser valorizado”, concluiu Pagliarini. O próximo passo será a definição da coordenação provisória e a elaboração de um cronograma de ações para os próximos 12 meses.

  • Amazônia abraça soja sustentável: projeto transforma produção e redefine futuro do agronegócio na região Norte

    Amazônia abraça soja sustentável: projeto transforma produção e redefine futuro do agronegócio na região Norte

    Revolução verde no coração da Amazônia

    No dia 7 de maio, a cidade de Santarém (PA) se tornou palco de uma discussão estratégica para o futuro do agronegócio brasileiro. Durante o Sustensoja – Caminhos para a Soja Sustentável, evento promovido pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora) em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag), pesquisadores, produtores e representantes da cadeia produtiva analisaram como transformar a produção de soja na Amazônia em um modelo economicamente viável e ambientalmente regenerativo. A iniciativa, que conta com o apoio da AgriTierra, Alauda Consulting e Jacobs Futura Foundation (JFF), representa um marco na tentativa de conciliar a crescente demanda global por commodities com a urgência da preservação do bioma amazônico.

    Do convencional ao regenerativo: a metamorfose da agricultura na Amazônia

    O projeto Soja Sustentável na Amazônia, em execução desde 2023, tem como objetivo central substituir práticas agrícolas convencionais por sistemas regenerativos nos estados do Acre, Rondônia e Pará. Essas regiões, além de sua importância produtiva, são extremamente sensíveis do ponto de vista ambiental, exigindo abordagens inovadoras que minimizem impactos negativos. Entre as tecnologias apresentadas durante o evento, destacaram-se o biochar – que promove o sequestro de carbono no solo por décadas – e a remineralização de solos, que reduz a dependência de fertilizantes químicos e aumenta a resiliência hídrica das propriedades.

    O pesquisador da Fundepag, Lucas Lima, revelou que o projeto realizou um diagnóstico abrangente em 69 propriedades rurais, abrangendo mais de 61 mil hectares. Os resultados preliminares identificaram 32 mil hectares de cultivo de soja com potencial para adoção de práticas regenerativas, um número que, segundo Lima, pode aumentar significativamente com a expansão das tecnologias apresentadas. “O protocolo de agricultura regenerativa nos permite mapear não apenas a situação atual das áreas, mas também projetar cenários futuros de impacto ambiental e econômico”, explicou o pesquisador durante o evento.

    ESG além do óbvio: uma visão holística da agricultura sustentável

    Um dos diferenciais do projeto é sua abordagem multidimensional na avaliação das propriedades, que vai além dos indicadores tradicionais de ESG (Ambiental, Social e Governança). O diagnóstico realizado pela equipe da Fundepag incorpora cinco dimensões fundamentais: ambiental, governança, econômica, biodiversidade e agronômica. “Estamos ampliando o conceito de ESG ao incluir métricas que refletem a realidade da agricultura na Amazônia, onde a interação entre esses fatores é ainda mais complexa do que em outras regiões do país”, afirmou Lima.

    Essa metodologia permite identificar não apenas os pontos críticos das propriedades, mas também oportunidades de melhoria que podem ser implementadas sem comprometer a produtividade. Segundo dados apresentados durante o Sustensoja, propriedades que adotaram práticas regenerativas registraram uma redução média de 25% no uso de insumos químicos e um aumento de 15% na retenção de água no solo, fatores que contribuem diretamente para a redução de custos operacionais e a mitigação de riscos climáticos.

    Desafios globais e o papel do Brasil como fornecedor responsável

    A pressão internacional sobre a cadeia produtiva da soja brasileira tem crescido exponencialmente, especialmente após a implementação de regulamentações como a Lei de Desmatamento Zero da União Europeia e a Estratégia de Redução do Desmatamento do Reino Unido. Nesse contexto, projetos como o Soja Sustentável na Amazônia ganham relevância não apenas como iniciativas ambientais, mas como estratégias de acesso a mercados premium e de mitigação de riscos regulatórios.

    “A Amazônia não pode mais ser vista apenas como uma fronteira agrícola tradicional. Precisamos demonstrar ao mundo que é possível produzir soja de alta qualidade em harmonia com a floresta”, afirmou Maria Fernanda Gebara, diretora executiva do Imaflora, durante painel sobre mercados internacionais. Segundo ela, a adoção de práticas regenerativas não só atende às exigências dos consumidores europeus e asiáticos, mas também pode agregar valor aos produtos brasileiros, permitindo a comercialização em mercados que pagam premium por commodities produzidas de forma sustentável.

    O futuro da soja amazônica: entre a inovação e a resistência cultural

    Apesar dos avanços apresentados no Sustensoja, a implementação de práticas regenerativas enfrenta desafios significativos, especialmente em uma região onde a cultura do uso intensivo de insumos químicos ainda predomina. “A transição para sistemas regenerativos exige não apenas investimento em tecnologia, mas também uma mudança de mentalidade por parte dos produtores”, destacou Carlos Eduardo Bordin, coordenador de projetos da Fundepag. Segundo ele, o projeto tem investido em capacitação técnica e assistência continuada aos agricultores, com o objetivo de reduzir a curva de aprendizado e demonstrar resultados tangíveis no curto prazo.

    Outro ponto crítico é a necessidade de políticas públicas que incentivem a adoção dessas práticas. “O mercado sozinho não será capaz de impulsionar essa transformação em velocidade suficiente. É fundamental que governos estaduais e federal desenvolvam programas de subsídio e crédito rural específicos para sistemas regenerativos”, argumentou Bordin. A Fundepag já está em negociações com o Banco da Amazônia para criar linhas de financiamento diferenciadas, com taxas de juros reduzidas e prazos estendidos para produtores que adotarem as novas tecnologias.

    O que vem por aí: expansão e novos horizontes

    Os resultados do projeto até o momento são promissores, mas os organizadores já planejam a próxima fase, que incluirá a expansão das áreas piloto para outros estados da região Norte e a introdução de novas tecnologias, como sistemas de irrigação inteligente e monitoramento por satélite em tempo real. “Nosso objetivo é criar um modelo replicável que possa ser adotado por produtores de todas as escalas, desde pequenas propriedades familiares até grandes cooperativas”, declarou Lima.

    A iniciativa também está alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, particularmente os relacionados à fome zero (ODS 2), água limpa e saneamento (ODS 6) e ação climática (ODS 13). Para os próximos dois anos, a meta é atingir 50 mil hectares com práticas regenerativas na Amazônia, um número que, segundo os organizadores, pode representar uma redução de até 40% nas emissões de CO₂ do setor na região.

    Enquanto o sol se punha sobre os campos de soja ao redor de Santarém, uma coisa ficou clara: a Amazônia está no centro de uma transformação silenciosa, mas profunda. Não se trata apenas de produzir mais, mas de produzir melhor – e de garantir que o Brasil continue a ser um player global no agronegócio, sem que isso signifique a destruição do que resta de sua maior riqueza natural. O projeto Soja Sustentável na Amazônia pode não ser a solução definitiva para todos os desafios da região, mas certamente representa um passo concreto rumo a um futuro onde agricultura e conservação ambiental caminham lado a lado.