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  • Cepea e StoneX revolucionam mercado de lácteos com inéditos índices de hedge e derivativos

    Cepea e StoneX revolucionam mercado de lácteos com inéditos índices de hedge e derivativos

    A cadeia produtiva do leite no Brasil acaba de receber um reforço histórico na gestão de riscos e precificação. O Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, em parceria com a StoneX, lançou três novos Indicadores de Preços para o setor lácteo — uma ferramenta inédita no mercado nacional que promete transformar a dinâmica de negociação e proteção de margens.

    O que muda para o mercado de lácteos brasileiro?

    Os novos indicadores — Leite UHT Sudeste (R$/litro), Queijo Muçarela Sudeste (R$/kg) e Leite em Pó Industrial 25 kg (R$/kg) — passam a atuar como referências oficiais para liquidação de contratos over-the-counter (OTC), desenvolvidos pela StoneX. Até então, o setor carecia de métricas padronizadas para operações de hedge, o que limitava a capacidade de produtores e indústrias de se protegerem contra a volatilidade de preços.

    A iniciativa foi oficialmente apresentada na última quarta-feira (13), durante evento na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília. Segundo especialistas, a medida representa um divisor de águas para um setor que movimenta mais de R$ 110 bilhões anualmente e enfrenta desafios como a sazonalidade da produção e a concorrência internacional.

    Hedge inédito no Brasil: como funciona essa proteção?

    A StoneX, em colaboração com o Cepea, lançou uma solução pioneira de hedge para o mercado de lácteos. Ao contrário de operações tradicionais, que dependem de contratos futuros em bolsas de valores, essa ferramenta permite que produtores, indústrias e cooperativas fixem preços de compra ou venda com base nos novos índices, reduzindo incertezas em um setor altamente vulnerável a flutuações.

    Segundo Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea, “a ausência de índices oficiais e de instrumentos de hedge era um gargalo histórico para o setor. Agora, com esses indicadores e a ferramenta de gestão de riscos, o mercado ganha transparência e segurança para planejar investimentos e operações comerciais”.

    Impacto econômico e sustentabilidade do setor

    A implementação desses instrumentos não apenas dinamiza o mercado futuro de derivativos para lácteos, mas também contribui para a sustentabilidade do setor. Produtores de pequeno e médio porte, que antes sofriam com a falta de previsibilidade, poderão acessar operações de crédito com taxas mais atrativas, uma vez que os bancos passam a considerar esses índices como garantia de risco.

    Além disso, a padronização dos preços facilita a integração entre diferentes elos da cadeia — desde os laticínios até as redes varejistas — reduzindo margens de incerteza e permitindo uma distribuição mais justa de valor ao longo da cadeia produtiva.

    O cenário internacional e os desafios do setor

    O Brasil é o quarto maior produtor mundial de leite, atrás apenas da Índia, Estados Unidos e China. No entanto, a dependência de importações de lácteos em pó e queijos — especialmente da Argentina e Uruguai — expõe o setor a riscos cambiais e de abastecimento. Com os novos instrumentos, o país poderá fortalecer sua posição no mercado internacional, atraindo mais investimentos e aumentando a competitividade.

    Para Antônio da Luz, economista-chefe da CNA, “essa é uma das iniciativas mais relevantes dos últimos anos para o agronegócio brasileiro. A gestão de riscos é fundamental para que o produtor possa tomar decisões estratégicas sem ser surpreendido por variações bruscas de preço”.

  • CNA aciona Ministério da Agricultura por crise de vacinas que ameaça rebanhos brasileiros

    CNA aciona Ministério da Agricultura por crise de vacinas que ameaça rebanhos brasileiros

    Contexto da crise sanitária no campo

    A cadeia produtiva da pecuária brasileira enfrenta uma das maiores ameaças sanitárias dos últimos anos: a escassez de vacinas essenciais para a imunização de rebanhos. Na quarta-feira (6), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) formalizou um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) solicitando medidas emergenciais para minimizar os impactos da falta de imunizantes que protegem contra doenças como clostridioses, influenza equina, encefalomielite, herpesvírus, tétano e leptospirose. Segundo o documento, a indisponibilidade desses produtos já resulta em registros de mortalidade animal em vários estados, expondo o setor a riscos sem precedentes.

    Origem da escassez: saída de fabricante e gargalos produtivos

    O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan) identificou que a redução na oferta de vacinas está diretamente ligada à saída do mercado brasileiro, prevista para 2025, de uma das principais empresas farmacêuticas do segmento. A decisão da multinacional, embora não tenha sido detalhada publicamente, reflete um movimento global de realocação de recursos por parte de grandes conglomerados do setor. “A expectativa é que a produção seja ampliada a partir de maio, mas o abastecimento ainda não foi normalizado”, afirmou João Martins, presidente da CNA, em entrevista exclusiva ao ClickNews.

    A crise não se resume a um único fornecedor, porém. Especialistas do setor destacam que a dependência excessiva de insumos importados e a burocracia para registro de novos produtos no Brasil agravam o cenário. “O processo de homologação de vacinas no país pode levar até dois anos, enquanto nos Estados Unidos ou na União Europeia esse prazo é significativamente menor”, explica um analista do mercado agropecuário que preferiu não ser identificado.

    Impactos regionais e setoriais

    A falta de vacinas tem afetado todas as regiões do país, com relatos de propriedades rurais em Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais registrando surtos de doenças antes controladas. Em Mato Grosso, por exemplo, a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) reportou um aumento de 15% na mortalidade de bovinos nos últimos três meses devido à ausência de imunizantes contra clostridioses. “Animais que antes eram vacinados anualmente agora estão desprotegidos, e isso representa um prejuízo não só econômico, mas também uma ameaça à sanidade nacional”, declarou o presidente da Acrimat, Oswaldo Ribeiro.

    Na pecuária de corte, o problema é ainda mais crítico. Segundo dados da Embrapa, o Brasil possui o maior rebanho comercial do mundo, com cerca de 250 milhões de cabeças de gado. A interrupção na aplicação de vacinas contra doenças como a febre aftosa — embora não citada no ofício da CNA, ainda obrigatória em algumas regiões — poderia reverter anos de progresso na erradicação da doença. “A pecuária brasileira é um dos pilares da balança comercial do país. Se não houver uma resposta rápida, os prejuízos serão bilionários”, alerta o economista rural José Carlos da Silva.

    Reações do governo e propostas da CNA

    Em resposta ao ofício da CNA, o Mapa informou, por meio de nota, que está “avaliando as alternativas disponíveis para garantir o abastecimento dos insumos” e que uma reunião extraordinária com representantes do setor será realizada ainda este mês. “Nossa prioridade é assegurar a saúde animal e a continuidade da produção agropecuária, que responde por 27% do PIB nacional”, declarou o ministro André de Paula.

    A CNA, por sua vez, propôs uma série de medidas para mitigar a crise:

    • Articulação imediata com estados e municípios para distribuição equitativa das vacinas remanescentes;
    • Agilização de registros temporários para novos fornecedores e produtos;
    • Incentivo à produção nacional por meio de parcerias com laboratórios públicos e privados;
    • Criação de um comitê de crise com participação da CNA, Sindan e representantes do Mapa.

    “Estamos dispostos a colaborar tecnicamente para construir soluções que protejam não só os rebanhos, mas também a sustentabilidade do agronegócio brasileiro”, afirmou João Martins, presidente da CNA.

    Perspectivas e desafios futuros

    Apesar das promessas de normalização da produção a partir de maio, especialistas são cautelosos. “Mesmo que os estoques sejam repostos, a confiança do produtor rural foi abalada. Muitos estão reduzindo plantéis ou adiando investimentos em genética”, comenta a zootecnista Maria Helena Borges. Além disso, a crise evidencia a vulnerabilidade do setor diante de dependências externas e da fragilidade das cadeias de suprimentos globais.

    Outro ponto de atenção é o impacto inflacionário. Com a redução da oferta, o preço das vacinas disponíveis no mercado paralelo tem subido até 40%, segundo relatos de pecuaristas ouvidos pela reportagem. “Isso afeta diretamente o custo de produção, que já está pressionado pela alta dos insumos agrícolas e pela desvalorização do real”, destaca o consultor agropecuário Carlos Eduardo Pereira.

    Debate na Expozebu: soluções em discussão

    Na semana passada, durante a Expozebu — maior feira de bovinocultura de corte do país —, a Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte discutiu alternativas emergenciais. Entre as propostas apresentadas estão:

    • A utilização de vacinas importadas com registros temporários;
    • A priorização de estados com maior risco sanitário;
    • A criação de um fundo emergencial para subsidiar a compra de imunizantes pelos produtores.

    “Precisamos de ações concretas, não apenas de promessas. O tempo urge”, declarou um criador de gado de corte do Pará, que participou da reunião e pediu anonimato.

    Conclusão: um chamado à ação coordenada

    A crise das vacinas na pecuária brasileira não é um problema pontual, mas sim um sintoma de um sistema que precisa urgentemente se modernizar. Enquanto o Mapa e a CNA negociam soluções, os produtores rurais seguem em alerta máximo. A saúde animal, a economia do campo e a segurança alimentar do país estão em jogo.

    “O Brasil não pode se dar ao luxo de falhar nesse momento. Nossa pecuária é um exemplo mundial, e é nossa responsabilidade garantir que ela continue assim”, conclui João Martins. A sociedade, os governos e o setor privado precisam agir em uníssono para evitar que uma crise sanitária se transforme em uma tragédia econômica e social.