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  • Cooperativismo 2.0: Como Mato Grosso inova para quebrar o gargalo de máquinas agrícolas

    Cooperativismo 2.0: Como Mato Grosso inova para quebrar o gargalo de máquinas agrícolas

    A crise de rentabilidade que assola o agronegócio brasileiro, agravada pela escalada dos preços de máquinas agrícolas durante e após a pandemia, encontrou uma resposta inovadora no Mato Grosso. A Cooprosoja, cooperativa que já reúne mais de 1,3 mil cooperados em 93 municípios do estado, propõe um modelo de compra coletiva sem transferir riscos financeiros. Enquanto grandes grupos negociam volumes milionários com fabricantes, os médios e pequenos produtores — historicamente alijados dessa vantagem — agora podem acessar condições similares sem precisar se submeter a contratos de terceiros.

    O paradoxo do ‘poder de barganha’ no agronegócio

    O problema não é novo, mas se intensificou nos últimos anos. Fernando Cadore, presidente da Cooprosoja, lembra que a pandemia não apenas interrompeu cadeias produtivas como também aumentou as margens de intermediários, especialmente no setor de máquinas e insumos. “Os grandes grupos continuaram pagando preços menores em função do volume. Nós percebemos que precisávamos nos unir para formar escala e buscar viabilidade”, afirmou em entrevista exclusiva.

    O modelo tradicional de cooperativas, entretanto, nem sempre atende às necessidades de pequeno e médio produtor. Muitas entidades acabam centralizando faturamentos e assumindo responsabilidades financeiras que extrapolam a função de intermediação. A Cooprosoja inverte essa lógica: atua como uma ponte entre fabricante e produtor, sem jamais se tornar a titular da operação. O faturamento permanece no CPF de cada cooperado, garantindo segurança jurídica e evitando que um produtor responda por dívidas de outro.

    Segurança jurídica e escala sem burocracia

    Cadore resume a proposta da cooperativa em uma frase: “O foco é deixar a renda dentro da porteira”. Para ilustrar, ele cita o exemplo de um produtor de Sorriso (MT) que, ao associar-se à Cooprosoja, conseguiu negociar a compra de um trator com 20% de desconto em relação ao preço de mercado — sem precisar recorrer a financiamentos bancários ou garantir a operação com bens próprios. “Em um estado de dimensões continentais como o Mato Grosso, isso dá segurança para quem entra. Ele não terá responsabilidade financeira sobre a compra de outro produtor”, explica.

    A cooperativa, que nasceu oficialmente em 2023 mas já acumula resultados práticos, trabalha com três eixos principais: negociação centralizada de máquinas, insumos e peças; acesso a linhas de crédito exclusivas; e capacitação gerencial para que os associados otimizem seus custos. Segundo dados internos, a Cooprosoja já intermediou mais de R$ 50 milhões em compras desde sua fundação, com ticket médio de R$ 350 mil por máquina negociada.

    Um novo capítulo para o cooperativismo agrícola

    O modelo da Cooprosoja representa uma evolução do cooperativismo tradicional, que historicamente se concentra em exportação ou processamento de commodities. Ao focar na aquisição de ativos — e não na comercialização da produção —, a entidade se alinha a uma tendência global de cooperativas como facilitadoras de acesso a tecnologia.

    Para especialistas do setor, a iniciativa pode ser replicada em outras regiões do Brasil, especialmente em estados com forte presença de médios produtores, como Paraná e Rio Grande do Sul. “O desafio agora é escalar sem perder a essência da cooperativa: o controle democrático e a transparência”, avalia o economista agrícola Marcelo Chalita, da FGV Agro. “Cooperativas que não assumem riscos alheios tendem a ter menor inadimplência e maior adesão.”

    A Cooprosoja, que já negocia com gigantes como John Deere e Case IH, planeja expandir suas operações para Mato Grosso do Sul ainda este ano. Com 80% de seus associados classificados como pequenos e médios produtores, a cooperativa surge como um laboratório de inovação no agro brasileiro — onde o tamanho da porteira não define mais o poder de barganha.

  • Lula reforça papel do cooperativismo no agro e libera R$ 10 bi para agricultura familiar: ‘É vital para o Brasil’

    Lula reforça papel do cooperativismo no agro e libera R$ 10 bi para agricultura familiar: ‘É vital para o Brasil’

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou nesta terça-feira, durante evento em Brasília, a importância estratégica do cooperativismo para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro. Em discurso, Lula classificou o modelo como “vital” para a segurança alimentar e a geração de renda no campo, destacando seu papel na inclusão produtiva de pequenos agricultores.

    O anúncio dos R$ 10 bilhões: onde e como serão aplicados

    O governo federal anunciou a liberação de R$ 10 bilhões em recursos exclusivos para o setor, divididos entre custeio e investimento. Os valores serão destinados, prioritariamente, à agricultura familiar e a cooperativas de pequeno porte, com juros subsidiados e condições diferenciadas para adesão. Segundo o Ministério da Agricultura, os recursos buscam fortalecer cadeias produtivas regionais, como a do leite, grãos e hortifrutigranjeiros.

    Contexto: por que o cooperativismo ganha centralidade no governo

    O modelo cooperativista tem sido apontado pela gestão atual como um vetor de transformação social no campo. Dados do governo indicam que 70% dos alimentos consumidos internamente são produzidos por agricultores familiares, muitos deles organizados em cooperativas. Além disso, o setor responde por cerca de 40% das exportações agropecuárias do país. Lula argumentou que, em um cenário de crise climática e pressões por sustentabilidade, as cooperativas oferecem respostas mais ágeis e inclusivas do que modelos tradicionais.

    Reações e desafios na implementação

    Enquanto o anúncio foi celebrado por entidades como a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), especialistas alertam para a necessidade de agilidade na liberação dos recursos e na assistência técnica aos produtores. “O sucesso dessa política dependerá não apenas do volume de recursos, mas da capacidade de execução nos estados”, afirmou um analista do setor agro, sob condição de anonimato. Críticos também questionam se os valores anunciados serão suficientes para atender à demanda reprimida de pequenos produtores, especialmente em regiões como o Nordeste.

    Impacto econômico e social: o que muda para os brasileiros

    A injeção de recursos deve injetar ânimo em mais de 4 milhões de famílias rurais, segundo estimativas do governo. Além de garantir a continuidade de safras, a medida pode reduzir a dependência de importações de alimentos básicos e estimular a geração de empregos no campo. Para o setor cooperativista, a novidade representa um reforço à sua já consolidada participação na economia nacional — hoje, as cooperativas brasileiras movimentam cerca de R$ 200 bilhões anualmente.

  • Produtores de leite de SC unem forças para criar entidade estadual e combater crise do setor

    Produtores de leite de SC unem forças para criar entidade estadual e combater crise do setor

    Um movimento inédito no estado de Santa Catarina ganha força nesta terça-feira (12), quando sete associações regionais do setor leiteiro se reuniram na sede da AMOSC, em Chapecó, para dar os primeiros passos rumo à criação de uma entidade estadual capaz de representar os interesses de mais de 20 mil produtores rurais. A iniciativa, que envolve municípios do Oeste, Extremo Oeste, Meio-Oeste, Alto Irani, Alto Uruguai e Noroeste catarinense, é uma resposta direta aos desafios que assolam a cadeia produtiva há anos: queda nos preços do leite, aumento dos custos de produção e falta de políticas públicas efetivas.

    Da fragmentação regional à união estratégica: o nascimento do Fórum Interassociativo

    A reunião, conduzida pelo vice-presidente da AMOSC e prefeito de Nova Itaberaba, Marciano Pagliarini, e pelo presidente da AMAI, Anderson Bianchi (prefeito de Lajeado Grande), reuniu representantes das associações AMEOSC, AMERIOS, AMNOROESTE, AMAI, AMOSC, AMAUC e AMMOC. O objetivo central foi estruturar um fórum interassociativo permanente, que atuará como voz unificada dos produtores frente ao governo estadual e federal.

    Segundo Pagliarini, a união das sete regiões é um marco para o setor. “Esta é uma oportunidade histórica de fortalecer os produtores rurais, não apenas economicamente, mas também na defesa de seus direitos. Precisamos ampliar a representatividade para garantir que a atividade leiteira, tão vital para nossa economia regional, seja reconhecida como estratégica”, afirmou. A proposta, apresentada pelo assessor jurídico da AMOSC, Fabiano Porto, prevê a criação de um fórum que coordenará ações coletivas, desde o diálogo com instâncias governamentais até a proposição de projetos de lei que beneficiem o setor.

    Os principais desafios que unem os produtores catarinenses

    Durante o encontro, foram mapeadas as principais dificuldades enfrentadas pelos produtores, que incluem:

    • Preços instáveis: A queda nos valores pagos pelo litro de leite nos últimos anos, agravada pela concorrência com importações e pela concentração do poder de compra das indústrias processadoras, tem reduzido a margem de lucro dos produtores.
    • Altos custos de produção: O aumento dos preços de insumos, como ração e combustível, pressiona ainda mais a viabilidade econômica das propriedades rurais.
    • Falta de políticas públicas específicas: Os produtores pedem incentivos fiscais, acesso a crédito com juros subsidiados e programas de garantia de preços mínimos, semelhantes aos existentes para outros setores da agropecuária.
    • Fragilidade na comercialização: A dependência de intermediários e a falta de cooperativas fortes limitam o poder de negociação dos produtores junto às indústrias.

    Para enfrentar esses problemas, o fórum propõe a elaboração de um plano estadual para o leite, com metas claras de curto, médio e longo prazo, incluindo:

    • Criação de um índice estadual de preços do leite, que sirva como referência para negociações.
    • Estímulo à formação de cooperativas regionais para fortalecer a comercialização.
    • Parcerias com universidades e centros de pesquisa para desenvolver tecnologias que reduzam custos e aumentem a produtividade.
    • Adoção de medidas de proteção contra a concorrência desleal de produtos importados.

    O papel das lideranças políticas e o caminho a seguir

    A participação de prefeitos e secretários municipais de Agricultura no encontro sinaliza o apoio político que a iniciativa pode ter. O prefeito de Chapecó, por exemplo, já se comprometeu a incluir a pauta do leite na agenda da próxima reunião do Consórcio Intermunicipal do Oeste Catarinense (CIOESTE). “Este movimento não é apenas dos produtores, mas de toda a cadeia produtiva. Precisamos que o governo estadual e federal enxergue a importância do leite para Santa Catarina”, declarou um dos participantes.

    Nos próximos meses, o fórum interassociativo realizará reuniões regionais para ouvir as demandas específicas de cada território e formar grupos técnicos para levantar dados precisos sobre a cadeia leiteira catarinense. A meta é apresentar um projeto de lei estadual até o final de 2024, com propostas concretas para resolver os gargalos do setor. “Não queremos assistencialismo, mas condições justas de competição. O leite catarinense tem qualidade reconhecida, mas falta rentabilidade”, resumiu um dos líderes do movimento.

    Santa Catarina: um estado-chave para o leite brasileiro

    Com uma produção anual de cerca de 3,5 bilhões de litros, Santa Catarina é o quarto maior produtor de leite do Brasil, atrás apenas de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. No entanto, o setor enfrenta uma crise silenciosa: enquanto a produtividade cresce, a renda dos produtores cai. Segundo dados da Epagri, o custo de produção em 2023 superou em 20% a receita média por litro de leite, pressionando muitos produtores a abandonar a atividade ou reduzir investimentos.

    A criação do fórum interassociativo surge como uma resposta necessária para reverter esse cenário. “Unidos, temos força para negociar com as indústrias, pressionar por políticas públicas e mostrar que o leite catarinense é um produto de excelência, que merece ser valorizado”, concluiu Pagliarini. O próximo passo será a definição da coordenação provisória e a elaboração de um cronograma de ações para os próximos 12 meses.