Na última quarta-feira (16 de julho de 2026), a NOAA confirmou que o El Niño continua em aceleração, com 97% de probabilidade de persistir até o início de 2027 e 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Para a pecuária de cria no Brasil, os números não são otimistas: cada vaca que não emprenha representa um prejuízo médio de R$ 2.500 ao ano, considerando custos com alimentação, mão de obra e perda de receita com bezerros.
O peso da seca nas taxas de prenhez
O calor recorde e a irregularidade das chuvas, típicos do El Niño, já começam a mostrar efeitos no campo. Segundo dados do INMET, regiões como o Centro-Oeste e o Sudeste devem registrar quedas de até 40% na disponibilidade de pastagens até novembro, forçando os produtores a aumentarem gastos com suplementação. “A falta de umidade reduz a qualidade nutricional das forrageiras, o que afeta diretamente a ciclagem reprodutiva das matrizes”, explica o zootecnista Marcelo Dias, da Embrapa.
Regiões mais vulneráveis: onde o prejuízo será maior
O Sul e o Centro-Oeste, principais polos de pecuária de cria, são as áreas mais expostas. No Mato Grosso, por exemplo, a Associação dos Criadores de Nelore projeta uma queda de 25% na taxa de prenhez em 2026 em comparação com 2025. Já no Rio Grande do Sul, o déficit hídrico deve reduzir a capacidade de suporte das pastagens em até 35%, obrigando muitos produtores a venderem matrizes precocemente.
Em Goiás, estado que já sofre com a estiagem desde junho, a Federação da Agricultura (Faeg) alerta para o aumento de 18% nos custos com suplementação mineral e energética, pressionando ainda mais a margem de lucro dos pecuaristas.
Estratégias emergenciais: o que os produtores podem fazer
Diante do cenário, especialistas recomendam medidas como:
- Adotar programas de inseminação artificial em horários mais frescos (manhã ou fim de tarde);
- Investir em forrageiras resistentes à seca, como o capim-buffel;
- Monitorar índices reprodutivos via ultrassom para identificar fêmeas com atraso na ciclagem;
- Negociar contratos de compra antecipada de bezerros para garantir escoamento da produção.
“O El Niño é um alerta para que o setor adote tecnologias que reduzam a dependência de condições climáticas favoráveis”, avalia a economista rural Renata Bueno, da FGV Agro.
O futuro da pecuária: entre a crise e a inovação
Enquanto o fenômeno climático não dá trégua, a pecuária brasileira se vê obrigada a repensar modelos tradicionais. A médio prazo, a tendência é de concentração de propriedades, com pequenos e médios produtores migrando para sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta) ou selling off de matrizes menos produtivas. “Quem não se adaptar, vai sair do mercado”, sentencia o produtor gaúcho João Silva, que já reduziu seu rebanho em 15% desde março.




