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  • Bioinova: Embrapa une cinco unidades para acelerar transição energética com biomassa e resíduos agroindustriais

    Bioinova: Embrapa une cinco unidades para acelerar transição energética com biomassa e resíduos agroindustriais

    A Embrapa consolidou, em 25 de maio de 2026, uma frente unificada de pesquisa para enfrentar um dos maiores desafios do século: a transição energética. O Bioinova, projeto coordenado pela Embrapa Agroenergia (DF) e que integra cinco centros de excelência da estatal, promete acelerar a conversão de biomassa e resíduos agroindustriais em soluções energéticas limpas.

    Rede de inovação com aporte de R$ 14 milhões para modernizar a pesquisa

    O Bioinova reúne, além da sede em Brasília, unidades nos estados do Ceará (Embrapa Agroindústria Tropical), Minas Gerais (Embrapa Milho e Sorgo), Rio Grande do Sul (Embrapa Trigo) e o laboratório de Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF). A iniciativa, financiada pela Finep com R$ 14 milhões, terá duração de 36 meses e busca atingir 10 metas científicas até 2029. O objetivo é claro: ampliar a participação do agronegócio brasileiro na redução das emissões globais, com foco em energia renovável, combustíveis de base biológica e insumos sustentáveis.

    De resíduos a recursos: a biomassa como vetor da descarbonização

    A estratégia da Embrapa foca em dois pilares: a otimização de processos para transformar materiais antes descartados — como palha de milho, bagaço de cana ou esterco animal — em fontes de energia e produtos de alto valor agregado. Segundo o coordenador do projeto, essa abordagem não apenas reduz o impacto ambiental, mas também cria novas cadeias de valor para o produtor rural. “Estamos falando de uma revolução silenciosa, onde o que era custo passa a ser oportunidade”, afirmou o pesquisador.

    Impacto econômico e ambiental para o Brasil

    Com a agricultura responsável por cerca de 25% das emissões nacionais de gases do efeito estufa, segundo dados do Observatório do Clima de 2025, iniciativas como o Bioinova ganham relevância estratégica. Além de diminuir a dependência de combustíveis fósseis, o projeto pode posicionar o Brasil como líder global na produção de bioenergia, aproveitando sua matriz agroindustrial diversificada. Especialistas destacam que, até 2030, soluções como as desenvolvidas pela rede Embrapa poderão reduzir em até 15% as emissões do setor, conforme projeções da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

    O que esperar até 2029?

    Entre as entregas previstas estão a criação de cinco tecnologias patenteadas, a capacitação de 200 profissionais e a implementação de três plantas-piloto para testes em escala real. A Embrapa também planeja parcerias com universidades e empresas privadas para escalar as soluções. “Não se trata apenas de ciência, mas de transformar conhecimento em negócios que façam sentido para o campo e para a indústria”, declarou a diretora da Embrapa Agroenergia.

  • Água gelada no cocho: O segredo que derruba o ganho de peso do gado e aumenta os custos do produtor

    Água gelada no cocho: O segredo que derruba o ganho de peso do gado e aumenta os custos do produtor

    Nos confins do Brasil Central, onde o inverno transforma pastos em lençóis de geada e as madrugadas beiram os 5°C, os produtores rurais enfrentam um inimigo silencioso — e gelado. A água dos bebedouros, quando atinge temperaturas próximas ao ponto de congelamento, não apenas desafia o gado a beber menos: ela trava um dos motores da pecuária moderna, o ganho de peso.

    A matemática do gelo que derrete lucros

    Um estudo conduzido pela Embrapa Pecuária Sudeste revelou que, em condições de frio intenso, bovinos reduziram em até 30% o consumo de matéria seca quando expostos a água gelada. A razão? A fisiologia do rúmen, ambiente onde bactérias transformam fibras em energia, depende de uma temperatura estável próxima a 39°C. Quando o animal ingere água a 5°C, seu organismo direciona energia para reaquecer o líquido — energia que deixa de ser convertida em carne ou leite. O resultado é um Ganho Médio Diário (GMD) reduzido em até 18%, segundo dados compilados pela Associação dos Criadores de Gado Nelore do Brasil (ACNB).

    O mito do ‘água quente engorda’ e a ciência do conforto térmico

    Contrariando teses populares que circulam em fóruns de pecuária, especialistas são categóricos: fornecer água fervendo ao gado não apenas é desnecessário como pode causar lesões no trato digestivo. O equilíbrio está na temperatura ideal de consumo, entre 10°C e 20°C, faixa em que o animal mantém a ingestão voluntária sem gastar energia excessiva para regular sua temperatura corporal.

    ‘O problema não é o calor ou o frio em si, mas a variação brusca’, explica o zootecnista e consultor Ronaldo Lucas, da Nutripec Consultoria. ‘Em regiões como o Sul do país ou áreas de altitude elevada, onde geadas são frequentes, o uso de bebedouros aquecidos ou isolados pode ser a diferença entre um lote que engorda 1,2 kg/dia e outro que mal atinge 0,9 kg/dia’.

    Tecnologia simples, resultados comprovados

    A solução não exige revoluções tecnológicas. Desde sistemas de aquecimento solar passivo — que aproveitam a incidência de luz para manter a água em temperaturas amenas — até bebedouros com resistências elétricas de baixo consumo, o mercado oferece alternativas acessíveis. Em uma propriedade no Paraná, a adoção de bebedouros com controle térmico elevou o GMD de 0,8 kg/dia para 1,1 kg/dia em um lote de 200 animais, segundo relato do produtor João Batista Silva.

    ‘Antes, os animais evitavam ir ao cocho nos dias frios. Agora, eles consomem água com a mesma regularidade do verão’, conta Silva. ‘O investimento se paga em menos de um ano com a redução no tempo de abate’.

    O custo da ignorância térmica

    Para além do prejuízo imediato no ganho de peso, a água gelada afeta a saúde do rebanho. Animais desidratados têm maior predisposição a problemas metabólicos, como acidose ruminal, e reduzem a eficiência reprodutiva. ‘Um touro que bebe menos água ejacula menos volume de sêmen, e uma vaca com desidratação prolongada pode ter ciclos estrais irregulares’, alerta a veterinária Fernanda Mendes, da Universidade Federal de Lavras.

    Em um cenário de margens cada vez mais apertadas — onde o preço da arroba oscila entre R$ 300 e R$ 350 e os custos com ração e mão de obra pesam no bolso — detalhes como a temperatura da água podem significar a sobrevivência de um negócio rural.

    O futuro: Automação e dados para driblar o frio

    Startups brasileiras já desenvolvem sensores que monitoram em tempo real a temperatura da água nos bebedouros e alertam o produtor sobre quedas bruscas. Em parceria com a Embrapa, a AgTech BoiTech testou um sistema que, ao detectar temperaturas abaixo de 10°C, aciona automaticamente aquecedores de baixo consumo. ‘É a pecuária de precisão aplicada ao básico: dar ao animal o que ele precisa, na hora certa’, afirma o CEO da empresa, Gustavo Almeida.

    Ainda há quem aposte em soluções low-tech, como a pintura de bebedouros de preto para absorver calor solar ou a utilização de palhas como isolante térmico. ‘Não importa o método: o que vale é entender que o conforto do animal é o primeiro passo para a lucratividade’, resume Lucas.

    Enquanto o debate sobre aditivos, genética e suplementação segue acalorado, uma verdade se impõe: em um país tropical, o frio pode ser o maior vilão invisível da pecuária. E a água, um recurso tão simples quanto estratégico, pode ser a chave para virar o jogo.

  • Soro de leite em pó: Como o Brasil está reescrevendo a pegada ambiental de um setor bilionário

    Soro de leite em pó: Como o Brasil está reescrevendo a pegada ambiental de um setor bilionário

    A cadeia láctea brasileira acaba de ganhar um diagnóstico ambiental sem precedentes. Pela primeira vez, um estudo coordenado pela Embrapa Gado de Leite, em parceria com a Sooro Renner Nutrição e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), mapeou toda a pegada de carbono do soro de leite em pó — um insumo estratégico que vai da nutrição esportiva à panificação industrial.

    A revolução metodológica: da porteira à prateleira

    Diferentemente de pesquisas anteriores, que analisavam apenas segmentos isolados da produção, a nova metodologia adota a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), uma ferramenta globalmente reconhecida para medir impactos ambientais. O projeto não se limitou à produção primária de leite: incluiu transporte, industrialização e até a transformação do soro em pó — popularmente conhecido como whey protein. “É um avanço que coloca o Brasil na vanguarda da transparência ambiental no setor lácteo”, afirma Vanessa Romário de Paula, analista da Embrapa Gado de Leite.

    Gargalos de emissões: onde o setor pode agir

    Segundo Thierry Ribeiro Tomich, pesquisador da Embrapa, a abordagem sistêmica permitiu identificar os pontos críticos de emissão de gases de efeito estufa. “Ao conectar as etapas produtivas, conseguimos enxergar onde estão os maiores desperdícios energéticos e de recursos”, explica. O transporte entre fazendas e laticínios, por exemplo, emergiu como uma das principais fontes de impacto — um dado crucial para indústrias que buscam reduzir sua pegada ambiental sem sacrificar a produtividade.

    A pesquisa dividiu-se em duas frentes: a primeira analisou os sistemas de produção de leite dos fornecedores da Sooro, considerando diversidade geográfica e tecnológica. A segunda etapa focou na indústria, com coleta de dados primários sobre os processos de industrialização da empresa e seus parceiros. “Foi um trabalho minucioso, mas essencial para termos números confiáveis”, destaca o professor Fábio Puglieri, da UTFPR, coordenador do estudo.

    Um insumo que vale ouro — e agora, também carbono

    O soro de leite em pó é hoje um dos produtos mais valorizados da cadeia láctea. Antes tratado como resíduo, ele é transformado em um insumo nobre para indústrias de alimentos, bebidas e suplementos. Segundo a Sooro Renner, o mercado de whey protein no Brasil movimenta mais de R$ 2 bilhões anuais — e a demanda não para de crescer, impulsionada pela busca por proteínas de alta qualidade na alimentação esportiva e funcional.

    Para a empresa, o estudo representa não apenas um ganho reputacional, mas também uma oportunidade de otimizar processos e reduzir custos. “Com os dados em mãos, podemos priorizar ações que mitiguem emissões sem perder competitividade”, afirma um executivo da Sooro, que preferiu não ser identificado.

    O que muda para o consumidor e o planeta?

    Para além dos números, o estudo tem potencial para impactar diretamente os consumidores. Com a transparência ambiental, marcas que utilizam soro de leite em pó poderão rotular seus produtos com informações sobre sustentabilidade, atendendo a uma demanda crescente por consumo consciente. Além disso, a cadeia láctea brasileira pode se posicionar como referência global em práticas produtivas sustentáveis.

    “Esse é apenas o começo”, projeta Vanessa Romário de Paula. “Agora, podemos replicar a metodologia para outros segmentos da cadeia, como queijos e iogurtes, e até mesmo para outras proteínas animais. O objetivo é transformar o Brasil em um polo de produção láctea de baixo carbono.”