Tag: expansão de terras

  • Crédito rural: 92,8% dos recursos vão para compra de terras, revela estudo inédito

    Crédito rural: 92,8% dos recursos vão para compra de terras, revela estudo inédito

    O crédito rural brasileiro está sendo redirecionado de forma estratégica. Dados exclusivos obtidos pela Friggi & Secco, com base em operações junto a 29 pecuaristas e 75 agricultores, revelam que 92,8% dos financiamentos contratados foram destinados à aquisição ou expansão de terras rurais até 6 de julho de 2026. A constatação rompe com o tradicional uso desses recursos voltado apenas para custeio de safras, insumos ou manutenção de maquinário.

    Da subsistência à acumulação patrimonial: a virada do produtor rural

    A mudança sinaliza uma virada na mentalidade do produtor brasileiro. Em vez de enxergar o crédito como ferramenta temporária de sobrevivência sazonal, os agricultores e pecuaristas passam a tratá-lo como alavanca de crescimento de longo prazo. A terra, nesse contexto, ganha status de ativo estratégico, capaz de garantir não apenas produção, mas também valorização do patrimônio em um setor cada vez mais pressionado pela expansão de fronteiras agrícolas.

    O agro em alta: por que as terras estão no radar?

    O cenário é favorável. No primeiro semestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio registrou crescimento de 4,2%, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), consolidando o Brasil como um dos principais players globais na produção de alimentos. Nesse ambiente, a compra de terras surge como uma opção segura em um mercado onde a demanda por commodities — como soja, milho e carne bovina — segue em ascensão, impulsionada pela China e pela África.

    Além disso, a valorização das terras agrícolas tem se mostrado acima da inflação nos últimos anos. Segundo a Terra Magna Consultoria, o preço médio de uma hectare de terra no Centro-Oeste brasileiro subiu 18% em 2025, enquanto a inflação oficial (IPCA) fechou o ano em 4,5%. A combinação de alta demanda, juros controlados e perspectiva de longo prazo torna o investimento em terras ainda mais atrativo do que aplicações financeiras tradicionais.

    Riscos e consequências: quem ganha e quem pode perder?

    Apesar dos benefícios óbvios para os produtores que conseguem acessar o crédito, a concentração de recursos na compra de terras pode acentuar desigualdades no campo. Pequenos e médios produtores, que dependem de financiamentos para custeio e inovação, podem ficar em desvantagem frente a grandes grupos capazes de alavancar operações de expansão. A bancarização do agro — que já é um desafio histórico — pode se tornar ainda mais seletiva.

    Outra preocupação é a pressão sobre o meio ambiente. A expansão de fronteiras agrícolas, especialmente no Cerrado e na Amazônia Legal, está diretamente ligada ao desmatamento. Segundo o MapBiomas, entre 2020 e 2025, mais de 12 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em áreas de pastagem ou lavoura — um ritmo que pode se acelerar com a migração de recursos para a compra de terras.

    Para especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, o fenômeno não é necessariamente negativo. “O produtor que expande sua área com planejamento está contribuindo para a segurança alimentar do país“, afirma a economista Márcia Sakamoto, da FGV Agro. “O desafio é garantir que essa expansão seja feita de forma sustentável e com acesso igualitário aos recursos“.

    O que esperar do futuro do crédito rural?

    A tendência deve se manter enquanto o agro brasileiro mantiver seu ritmo de crescimento. A Bancada Ruralista no Congresso já sinaliza a intenção de ampliar linhas de crédito específicas para a compra de terras, especialmente para médios produtores. No entanto, a pressão por regulações ambientais e sociais pode impor limites ao ritmo dessa expansão.

    Uma coisa é certa: o crédito rural não é mais sinônimo apenas de sobrevivência, mas sim de estratégia de negócios. Para o produtor, a terra deixou de ser um mero insumo e se tornou o principal ativo de um portfólio que precisa, cada vez mais, pensar em escala, inovação e sustentabilidade.