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  • Mato Grosso lidera revolução na pecuária: abate precoce impulsiona exportações e reduz emissões

    Mato Grosso lidera revolução na pecuária: abate precoce impulsiona exportações e reduz emissões

    Do pasto ao mercado global: a transformação da pecuária mato-grossense

    Em apenas duas décadas, Mato Grosso reescreveu as regras da pecuária brasileira. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) revelam que, entre janeiro e abril de 2026, 44% dos bovinos abatidos no estado tinham até 24 meses de idade — um recorde histórico na série iniciada em 2006, quando esse percentual mal atingia 2%. A revolução não se limita à velocidade do abate: ela redefine a competitividade do setor, aproximando o Brasil de um padrão de produção globalmente exigido.

    Genética, nutrição e sustentabilidade: os pilares do novo modelo

    A modernização do setor passa por investimentos estratégicos em três frentes. Primeiro, a genética: raças mais precoces e adaptadas ao clima tropical, como a Angus e a Nelore com melhoramento genético, reduziram em até 30% o tempo de engorda. Segundo, a nutrição: dietas balanceadas à base de grãos e suplementos, aliadas a sistemas de confinamento mais eficientes, elevaram a conversão alimentar dos animais. Por fim, a sustentabilidade: animais abatidos mais cedo permanecem menos tempo no sistema, diminuindo a emissão de metano — um gás 25 vezes mais potente que o CO₂ no efeito estufa. “É um ciclo virtuoso”, explica Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). “Ganhamos em qualidade, eficiência e responsabilidade ambiental.”

    Exportações batem recorde: como o abate precoce virou moeda de negociação internacional

    Os números de exportação de abril de 2026 confirmam a tese: Mato Grosso embarcou 84,1 mil toneladas em equivalente carcaça (TEC), volume 18,98% maior que em 2025 e 2,1% superior ao registrado em março. A receita chegou a US$ 408,66 milhões, com alta de 47,86% em relação ao mesmo período do ano anterior. O estado, que já detinha 24,62% da participação nacional nas exportações de carne bovina, consolidou-se como o principal fornecedor do produto para o mundo. E a China, maior comprador, comprou 59% de tudo o que Mato Grosso exportou no mês — um sinal claro de que a estratégia atende às demandas de um mercado cada vez mais exigente com qualidade e rastreabilidade.

    O desafio da padronização: por que a carne brasileira conquistou o paladar asiático

    A maciez e a uniformidade da carne matogrossense são apontadas como fatores decisivos para a preferência chinesa. Segundo o Imac, o abate precoce garante cortes mais homogêneos, com menor teor de gordura e maior marmoreio, características alinhadas às preferências orientais. “Antes, a carne brasileira era vista como dura e com muitas variações de qualidade. Hoje, entregamos um produto que compete de igual para igual com a carne australiana ou americana”, destaca Andrade. Além disso, o sistema de rastreabilidade implantado no estado atende aos protocolos sanitários chineses, eliminando barreiras não tarifárias que antes dificultavam as exportações.

    O futuro da pecuária brasileira: lições de Mato Grosso

    O modelo mato-grossense serve de laboratório para o restante do país. Enquanto outras regiões ainda enfrentam gargalos logísticos e de sanidade, Mato Grosso demonstra que é possível aliar produtividade, sustentabilidade e acesso a mercados premium. Especialistas do setor, porém, alertam: o sucesso depende de investimentos contínuos em tecnologia e da formação de mão de obra qualificada. “Não é apenas uma questão de abater animais mais jovens”, pondera um analista do setor, “é preciso garantir que toda a cadeia — do produtor ao frigorífico — esteja preparada para essas mudanças”. Com exportações batendo recordes e uma pegada de carbono cada vez menor, Mato Grosso não apenas lidera a pecuária brasileira: ele está redefinindo seus limites.

  • Europa impõe veto a aditivos na nutrição do gado: como o Brasil reage à tempestade sanitária e comercial

    Europa impõe veto a aditivos na nutrição do gado: como o Brasil reage à tempestade sanitária e comercial

    A pecuária brasileira de corte enfrenta um dos seus maiores desafios diplomáticos e técnicos dos últimos anos. A União Europeia, principal destino da carne in natura do país — que exportou US$ 5,2 bilhões em 2023 —, anunciou a proibição total do uso de certos aditivos antimicrobianos em sistemas intensivos de produção, como confinamentos. A medida, que entra em vigor gradualmente a partir de 2025, coloca em xeque uma estratégia nutricional consolidada há mais de duas décadas no Brasil, ameaçando a competitividade do setor e exigindo uma reestruturação urgente em um dos pilares da agroindústria nacional.

    A virginiamicina no olho do furacão: por que a Europa mira um pilar da pecuária brasileira

    A decisão europeia tem como alvo principal a virginiamicina, um antimicrobiano amplamente utilizado em combinação com a monensina nos confinamentos brasileiros. Segundo Dhones Rodrigues de Andrade, doutor em zootecnia e supervisor técnico da Facholi Sementes e Nutrição, a associação desses dois aditivos é responsável por até 20% de ganho de eficiência produtiva em sistemas intensivos. Em dietas de alto grão — como aquelas baseadas em milho e soja —, a combinação garante não apenas maior ganho de peso, mas também reduz distúrbios metabólicos como acidose ruminal, um problema comum em animais alimentados com alta energia.

    “A monensina já é permitida na Europa, mas a virginiamicina não. Quando a gente fala em dietas desafiadoras, essa associação é quase que obrigatória para manter a performance animal e a saúde do rebanho”, explica Andrade. Sem alternativas imediatas, o setor enfrenta um cenário de perda de produtividade e aumento de custos — uma equação que pode inviabilizar economicamente muitos confinamentos, especialmente aqueles que dependem de financiamentos internacionais ou de contratos de exportação com a UE.

    Corrida contra o relógio: Uruguai, Chile e Argentina já se adiantaram — e o Brasil corre atrás

    Enquanto o Brasil ainda debate alternativas técnicas e negociações diplomáticas, países como Uruguai, Chile e Argentina já implementaram protocolos mais rígidos de rastreabilidade e restrição ao uso de antimicrobianos. A Argentina, por exemplo, proibiu a virginiamicina em 2021 e já exporta carne certificada como “livre de promotores de crescimento”. O Uruguai, por sua vez, investiu em sistemas de rastreabilidade blockchain para garantir a conformidade com as normas europeias, conquistando vantagens comerciais no mercado premium.

    “Os europeus já têm uma lista de países que já se adequaram. O Brasil está na fila de espera, e isso é perigoso”, alerta Andrade. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), o bloco europeu responde por 25% das exportações brasileiras de carne bovina, com destaque para cortes premium como filé mignon e picanha. A perda desse mercado não só reduziria receitas como também poderia desvalorizar a carne brasileira no mercado global, já que os EUA e a China, principais concorrentes, já vêm ajustando suas práticas para atender às exigências europeias.

    O custo da transição: quem paga a conta da nova era na pecuária?

    A transição para um modelo sem antimicrobianos como a virginiamicina não será barata. Estima-se que o custo de produção possa aumentar entre 10% e 15% nos primeiros anos, devido à necessidade de reformular dietas, investir em probióticos e óleos essenciais como substitutos, e reforçar controles sanitários. Além disso, a rastreabilidade exigida pela UE — que inclui testes laboratoriais em 100% das partidas exportadas — adiciona mais um ponto de pressão sobre os frigoríficos e confinadores.

    “Não é só uma questão de substituir um aditivo por outro. É uma mudança de paradigma na nutrição animal”, afirma Andrade. Ele destaca que, em um primeiro momento, a produtividade pode cair entre 10% e 20% até que novas estratégias sejam validadas. Para os pequenos e médios confinadores, que já operam com margens apertadas, essa queda pode significar a inviabilização do negócio. Já as grandes indústrias, como JBS, Marfrig e Minerva, estão acelerando pesquisas com alternativas, como extratos vegetais e leveduras específicas, mas os resultados ainda estão em fase de testes.

    Diplomacia em jogo: o Brasil tem tempo suficiente para evitar o colapso?

    O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura e da Apex-Brasil, tenta negociar prazos mais flexíveis com a Comissão Europeia. A estratégia inclui apresentar estudos científicos que comprovem a segurança do uso controlado da virginiamicina — algo que a UE já rejeitou em outras ocasiões. Enquanto isso, o setor privado corre contra o tempo para desenvolver soluções técnicas viáveis.

    “A gente precisa mostrar que o Brasil tem um plano de transição, mas a Europa não costuma ceder. Eles querem erradicar qualquer uso de antimicrobianos como promotores de crescimento, e isso é uma realidade”, comenta Andrade. A pressão também vem de dentro: organizações de proteção animal e consumidores europeus, cada vez mais exigentes, veem com maus olhos a utilização de qualquer substância que possa ser associada ao desenvolvimento de resistência bacteriana — um tema sensível no Velho Continente.

    O que muda para o consumidor brasileiro e global?

    A médio prazo, a carne brasileira exportada para a Europa tende a se tornar mais cara — reflexo dos custos adicionais de produção e certificação. No mercado interno, a tendência é que os preços se ajustem conforme a demanda internacional, mas especialistas descartam uma escassez imediata. No entanto, a qualidade da carne pode ser impactada: sem os aditivos, o ganho de peso dos animais pode ser menor, e a textura da carne, menos macia — fatores que influem diretamente no valor percebido pelo consumidor.

    Para o Brasil, o cenário é de alerta máximo. A pecuária, que já enfrenta desafios como desmatamento e mudanças climáticas, agora precisa lidar com uma nova barreira não tarifária que pode redefinir as regras do jogo. “Se a gente não se preparar agora, a Europa vai fechar as portas para a nossa carne premium. E aí, quem perde não é só o pecuarista, é todo o agro brasileiro”, conclui Andrade.