Tag: Inflação

  • Super El Niño de 2026: como o fenômeno pode abalar a segurança alimentar global já a partir de julho

    Super El Niño de 2026: como o fenômeno pode abalar a segurança alimentar global já a partir de julho

    Na última quarta-feira (24/06), centros internacionais de meteorologia confirmaram a intensificação das anomalias térmicas no Oceano Pacífico Equatorial, condição que sinaliza a chegada de um Super El Niño até agosto de 2026. Diferente dos eventos comuns, esse fenômeno promete durar pelo menos 12 meses e atingir temperaturas até 2,5°C acima da média histórica — patamar que historicamente esteve associado a crises agrícolas globais, como as ocorridas em 1982-83 e 1997-98.

    Impactos já mapeados: onde estão os maiores riscos?

    A combinação de secas prolongadas e chuvas irregulares deve atingir três grandes polos agrícolas nos próximos meses:

    • América do Sul (Brasil, Argentina e Paraguai): A soja e o milho de segunda safra enfrentam risco de quebra de até 30% em áreas do Centro-Oeste brasileiro, enquanto a Argentina pode registrar perdas de 20% na colheita de trigo. O Paraná, tradicional produtor de milho, também deve sofrer com a redução de chuvas.
    • Sudeste Asiático (Indonésia, Tailândia e Filipinas): A produção de óleo de palma — usado em alimentos e biocombustíveis — pode cair 15%, enquanto o arroz, base da alimentação asiática, enfrenta risco de escassez localizada.
    • Austrália: A seca deve reduzir a safra de trigo em 40%, afetando diretamente as exportações globais. O país já enfrenta restrições hídricas desde 2025, agravadas pelo fenômeno.

    Efeitos em cadeia: do campo aos supermercados

    Além da queda na oferta, o Super El Niño deve pressionar os preços internacionais de commodities. Segundo relatório da FAO publicado na terça-feira (24/06), os preços do trigo e do óleo de soja já subiram 8% desde maio, com projeção de alta de 12% até dezembro. No Brasil, a cesta básica pode encarecer entre 5% e 10% até o final do ano, segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

    Outro ponto crítico é a pecuária: a falta de pastagens na Argentina e no Uruguai deve reduzir o rebanho bovino em 5%, enquanto o custo da ração para suínos e aves deve subir 15% devido à escassez de milho. A cadeia de frango, especialmente exportadora, já aciona planos de contingência para evitar desabastecimento de proteína animal.

    Governos e produtores em estado de alerta

    No Brasil, o Ministério da Agricultura anunciou na última segunda-feira (23/06) a liberação de R$ 2 bilhões em crédito emergencial para produtores de grãos nos estados do Centro-Oeste e Sul. A medida busca mitigar perdas com seguro agrícola, mas especialistas alertam que o valor pode ser insuficiente se o fenômeno atingir a intensidade prevista. Na Austrália, o governo já acionou protocolos de racionamento de água em estados como Victoria e Austrália Meridional.

    Em nível global, a Organização Mundial do Comércio (OMC) deve discutir na próxima reunião, em 15 de julho, a criação de um fundo emergencial para países em desenvolvimento, visando evitar crises alimentares. “Já estamos vendo sinais de pânico nos mercados futuro de commodities. Se o El Niño se confirmar como Super, teremos uma tempestade perfeita para a inflação”, afirmou o economista-chefe da OCDE, Laurence Boone, em entrevista exclusiva ao *Cenário & Fatos*.

    Cenário em 2026: o que muda se o fenômeno se intensificar?

    Caso o Super El Niño atinja o patamar mais extremo (anomalia de 2,5°C), as projeções indicam:

    • Redução de 10% na produção global de cereais até 2027, segundo a consultoria Gro Intelligence.
    • Aumento de 20% nos preços dos alimentos básicos em 2026, com impacto maior em países importadores como Egito e Nigéria.
    • Possível restrição às exportações de países como Índia (arroz) e Rússia (trigo), agravando crises geopolíticas.
    • Pressão inflacionária global, com risco de recessão em economias dependentes de importações, como a Turquia e o México.

    Para o Brasil, a combinação de um Super El Niño com a crise climática já existente pode resultar em déficit de 5 milhões de toneladas na safra de grãos de 2027, segundo a Embrapa. “Estamos em um momento crítico. A resiliência do agro brasileiro será testada”, declarou o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Guilherme Bastos, em coletiva na terça-feira (24/06).

  • Café solúvel brasileiro na mira de Trump: setor aciona Washington contra tarifa de até 37,5%

    Café solúvel brasileiro na mira de Trump: setor aciona Washington contra tarifa de até 37,5%

    O café solúvel brasileiro, tradicionalmente lider no mercado externo, enfrenta agora uma barreira comercial sem precedentes. Desde o início de junho, os Estados Unidos impuseram tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros — com potencial de atingir 37,5% — sob justificativas como supostas infrações ambientais e uso do sistema PIX. O problema: o setor solúvel foi o único excluído das isenções recém-anunciadas pela Casa Branca, um golpe duro para um segmento que responde por 40% das exportações globais do grão.

    Por que o café solúvel foi poupado das isenções?

    A decisão americana pegou o setor de surpresa. Enquanto outros tipos de café (como o torrado ou moído) tiveram suas tarifas reduzidas, o solúvel permaneceu na lista negra. Analistas apontam dois possíveis motivos: a forte concorrência de produtores asiáticos — especialmente do Vietnã e da Indonésia — que dominam o segmento, ou pressões de lobby local nos EUA, que buscam proteger sua indústria emergente de café instantâneo. A falta de transparência nas justificativas, no entanto, só aumenta a tensão.

    Impacto imediato: exportações em queda e inflação em alta

    A medida já começa a pesar. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), as exportações do setor caíram 18% em maio comparado ao mesmo período do ano passado, com perdas estimadas em US$ 120 milhões. No mercado interno, o reflexo é direto: o preço do café solúvel subiu 12% desde o anúncio das tarifas, pressionando ainda mais a inflação, que já acumula alta de 4,7% em 2026. “Isso é um tiro no pé da economia brasileira”, alerta o economista Fernando Siqueira, da FGV. “Além de prejudicar os produtores, a alta nos preços afeta diretamente o consumidor final, especialmente as classes C e D, que dependem desse produto como alternativa econômica.”

    Missão diplomática: a última cartada antes do estrago

    Para reverter o cenário, uma delegação de 15 representantes do setor, incluindo CEOs de gigantes como Nestlé e 3 Corações, viajará a Washington no dia 6 de julho. O objetivo é claro: apresentar dados concretos sobre a competitividade do café solúvel brasileiro — que atende 22% da demanda global — e negociar uma revisão das tarifas. A estratégia inclui reuniões com membros do Congresso, do Departamento de Comércio e até mesmo com o escritório de Trump, onde tentarão demonstrar que as acusações de “pirataria” e “danos ambientais” não têm base factual.

    A pressão, no entanto, é enorme. Com as eleições presidenciais americanas se aproximando, o governo Trump tem pouco incentivo para recuar. “Nesse contexto, a única saída é mostrar que as tarifas trarão prejuízos mútuos”, avalia Siqueira. “Os EUA também perdem: o Brasil é o terceiro maior fornecedor de café para o país, atrás apenas da Colômbia e do Vietnã.”

    O que vem pela frente? Cenários possíveis

    Três desdobramentos são possíveis a partir da audiência em julho: 1) Retrocesso parcial das tarifas, com redução para 10-15%; 2) Manutenção das sanções, forçando o setor a buscar novos mercados (como Europa e África); ou 3) Escalada do conflito, com retaliações brasileiras a produtos americanos. Especialistas, no entanto, são pessimistas quanto a um acordo rápido. “A política externa de Trump não costuma ceder em ano eleitoral”, lembra o analista político Marcos Oliveira. “O timing, aliás, não poderia ser pior: a safra brasileira de café está em seu pico, e qualquer interrupção nas exportações terá impacto imediato na balança comercial.”

  • Governo freia tarifa antidumping sobre leite importado: insegurança persiste para produtores brasileiros

    Governo freia tarifa antidumping sobre leite importado: insegurança persiste para produtores brasileiros

    Na última quarta-feira, 11 de junho de 2026, o Palácio do Planalto surpreendeu o mercado ao adiar a entrada em vigor de uma tarifa antidumping sobre as importações de leite em pó provenientes da Argentina e do Uruguai — decisão já chancelada pelos órgãos de comércio exterior. O adiamento, comunicado sem prazo definido, transforma uma batalha comercial em uma incerteza prolongada para os produtores brasileiros, que veem seus investimentos em expansão da produção ameaçados pela concorrência desleal.

    Do *dumping* ao adiamento: o que mudou?

    A investigação governamental concluiu que as exportações de leite em pó sul-americano praticavam *dumping* no mercado brasileiro, ou seja, preços artificialmente baixos para eliminar concorrentes locais. Com base nesse diagnóstico, a tarifa seria aplicada como medida de proteção ao setor — um movimento alinhado a políticas de segurança alimentar em um país que já importa cerca de 20% do leite consumido. No entanto, a suspensão temporária da medida, anunciada em 10 de junho de 2026, joga na geladeira a solução imediata para um problema que afeta diretamente 1,2 milhão de produtores rurais.

    Incerteza técnica, prejuízo real

    O adiamento não é apenas uma questão de calendário: ele expõe a fragilidade de um setor que, segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), tem capacidade ociosa de 30% em laticínios. “A medida antidumping era nossa última esperança para segurar os preços no mercado interno”, declarou ao *Cenário & Fatos* o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (ABPL), Fernando Dias. “Agora, com a indefinição, os importadores vão continuar despejando leite barato, e nós não temos como competir.” A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já projeta queda de 5% no faturamento do setor para o segundo semestre de 2026, caso a tarifa não seja implementada até julho.

    O lado do governo: inflação versus proteção

    O Ministério da Fazenda justificou o adiamento com um argumento sensível: a necessidade de avaliar os impactos da tarifa sobre a inflação — que já acumula alta de 0,4% no mês de junho — e a segurança alimentar. “Não podemos correr o risco de desabastecimento ou de aumentar o preço do leite para as famílias brasileiras”, afirmou a ministra da Agricultura, Sônia Guimarães, em coletiva de imprensa. A decisão, contudo, é vista com ceticismo por economistas do setor privado, que apontam para o risco de um *efeito dominó*: sem proteção, produtores brasileiros podem reduzir investimentos, diminuindo a oferta futura e, paradoxalmente, pressionando os preços para cima a médio prazo.

    O que esperar agora?

    Enquanto o governo promete um estudo detalhado para os próximos 60 dias, o setor leiteiro já se articula para pressionar por uma solução rápida. “Precisamos de uma definição até setembro, quando começam as negociações de compra para o final do ano”, alerta Dias. A indefinição, no entanto, beneficia temporariamente os grandes laticínios, que podem continuar importando leite em pó a preços reduzidos, e penaliza os pequenos e médios produtores, que não têm escala para competir. Para o consumidor, a equação é simples: incerteza no campo significa preços instáveis na prateleira.

  • IPCA-15 acelera para 0,62% em maio e empurra inflação anual a 4,64% — alimentação e habitação lideram alta

    IPCA-15 acelera para 0,62% em maio e empurra inflação anual a 4,64% — alimentação e habitação lideram alta

    Inflação avança acima das expectativas e ultrapassa teto da meta

    O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) subiu 0,62% em maio de 2026, impulsionado principalmente pelo grupo de alimentação e bebidas, que registrou alta de 1,38%. O resultado superou a taxa de abril (0,89%), mas ficou abaixo da inflação acumulada em 12 meses, que atingiu 4,64% — superior aos 4,37% registrados no período anterior.

    Alimentação e habitação puxam a alta no mês

    Dos nove grupos de produtos e serviços monitorados pelo IBGE, três se destacaram: alimentação e bebidas (1,38%), habitação (1,03%) e saúde e cuidados pessoais (1,05%). Enquanto isso, transportes (-0,33%) e combustíveis recuaram, aliviando parcialmente a pressão inflacionária. O grupo de despesas pessoais, por sua vez, registrou variação de 0,50%.

    Consequências para a política monetária e consumidor

    A aceleração do IPCA-15 em maio de 2026 reacende preocupações no Banco Central sobre a trajetória da inflação. Com o índice anual superando o teto da meta (4,5%), a autoridade monetária pode ser pressionada a manter ou até elevar a taxa Selic em suas próximas reuniões. Para o consumidor, a alta nos preços de itens essenciais como alimentos e moradia reduz o poder de compra, especialmente em um cenário de renda estagnada.

  • Rio negocia queda de até 6,5% no preço do gás e alivia pressão inflacionária no estado

    Rio negocia queda de até 6,5% no preço do gás e alivia pressão inflacionária no estado

    O governo do Rio de Janeiro fechou um acordo histórico com a Petrobras e a concessionária Naturgy para reduzir o preço do gás natural no estado, beneficiando cerca de 1,5 milhão de motoristas, indústrias e consumidores residenciais. A redução média de 6% no custo do gás industrial e de 2,5% no gás de cozinha (GLP) — aliada à queda de 6,5% no GNV — chega em um momento crítico, marcado pela escalada internacional dos preços de derivados de petróleo.

    Um alívio para o bolso do consumidor e para a inflação estadual

    A medida, homologada pela Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio (Agenersa) no dia 14 de julho, será publicada no Diário Oficial na próxima semana e entrou em vigor após o cálculo final das tarifas pela Naturgy, que considerou variáveis como custo de produção, demanda e regulamentação. Segundo a Secretaria de Estado de Energia e Economia do Mar, o acordo tem “efeito potencial de política pública energética”, capaz de conter pressões inflacionárias no estado.

    Rio: a capital brasileira do gás natural

    O estado não apenas lidera a produção nacional de gás natural — responsável por 76,9% da oferta brasileira em 2025, segundo a ANP — como também concentra a maior frota de veículos movidos a GNV do país. Atributos como a concessão de descontos no IPVA para esses motoristas e a proximidade com as principais bacias produtoras (como a de Santos e Bacia de Campos) tornam o Rio um laboratório para políticas de preço de energia. A redução dos custos agora é vista como um estímulo à competitividade industrial e ao poder de compra da população.

    A geopolítica do petróleo pesa no preço final

    A negociação ocorre em um cenário de tensão global: a guerra no Irã, que afeta o Estreito de Ormuz — passagem de 20% do petróleo e gás mundial — já elevou os preços internacionais de derivados. No Brasil, a Petrobras, maior player do setor, tem sofrido pressões para segurar os custos, especialmente após o governo federal reduzir impostos sobre combustíveis em 2022. No Rio, a estratégia é clara: usar o peso da produção local para negociar condições mais vantajosas, mesmo em meio à instabilidade externa.

    Próximos passos: transparência e fiscalização

    Antes de a nova tarifa entrar em vigor, a Agenersa deve validar os cálculos da Naturgy, garantindo que a redução seja efetivamente repassada aos consumidores. A secretaria estadual destacou que o acordo é um “exemplo de regulação inteligente”, mas especialistas alertam: o impacto real dependerá da manutenção dos preços internacionais e da capacidade de o estado equilibrar incentivos fiscais com a sustentabilidade do setor.

  • Poupança registra maior retirada líquida em abril desde 2023: entenda os motivos

    Poupança registra maior retirada líquida em abril desde 2023: entenda os motivos

    Retração histórica na poupança: o que está por trás dos números?

    A caderneta de poupança, tradicionalmente vista como o investimento mais seguro do Brasil, registrou em abril de 2024 sua maior retirada líquida desde 2023: R$ 476,4 milhões a mais em saques do que em depósitos. Segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC) nesta quinta-feira (9), o mês encerrou com aplicações de R$ 362,2 bilhões, enquanto os saques atingiram R$ 362,7 bilhões — um saldo negativo que reflete a crescente preferência dos brasileiros por alternativas de investimento mais rentáveis.

    O cenário não é novo. Desde 2022, a poupança tem perdido espaço para outras aplicações, como os fundos DI, os títulos do Tesouro Direto e até mesmo criptomoedas, que oferecem retornos superiores em um ambiente de juros elevados. Em 2023, as retiradas líquidas somaram R$ 87,8 bilhões, enquanto em 2024, até abril, o saldo negativo já ultrapassa R$ 41,7 bilhões — um sinal claro de que o esvaziamento da poupança não é um fenômeno passageiro, mas uma tendência estrutural.

    Selic em queda e inflação em alta: o paradoxo que afeta a poupança

    A manutenção da Selic — a taxa básica de juros — em patamares elevados tem sido um dos principais motivos para a evasão da poupança. Embora o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha promovido um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em maio, reduzindo-a para 14,5% ao ano, a taxa ainda é atrativa para investimentos em renda fixa não-poupança, como os fundos DI, que seguem a variação do CDI.

    No entanto, a inflação também desempenha um papel crucial. Em março, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) alcançou 0,88% — um valor acima das expectativas e puxado principalmente pelo aumento nos preços de transportes e alimentação. Com o IPCA acumulado em 12 meses atingindo 4,14%, segundo dados do IBGE, a poupança, que rende apenas 6,17% ao ano (mais a TR, que atualmente está zerada), perde poder de compra frente a outras aplicações.

    O rendimento da poupança: por que os brasileiros estão migrando?

    Um dos fatores que explicam a fuga da poupança é a diferença de rentabilidade. Enquanto a caderneta oferece um rendimento fixo de 0,5% ao mês (6% ao ano) mais a Taxa Referencial (TR), investimentos como os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de grandes bancos e fundos de renda fixa podem oferecer taxas superiores a 100% do CDI — algo que, em um cenário de Selic alta, significa retornos líquidos superiores a 10% ao ano.

    Além disso, a poupança tem regras rígidas: só é isenta de Imposto de Renda para quem mantém o dinheiro aplicado por mais de dois anos. Para valores abaixo de R$ 1.500, a isenção é automática, mas acima disso, o imposto incide em alíquotas regressivas, o que não ocorre em aplicações como o Tesouro Selic ou fundos DI.

    O impacto da guerra e a política monetária do BC

    A instabilidade geopolítica, especialmente o conflito no Oriente Médio, tem gerado incertezas nos mercados, mas não foi suficiente para conter o ciclo de queda da Selic. O BC, ao reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual em maio, sinalizou que o ambiente inflacionário, embora ainda preocupante, começa a ceder. No entanto, a autoridade monetária não deu pistas claras sobre futuros cortes, deixando investidores em dúvida sobre o melhor momento para realocar suas reservas.

    Para a economista Ana Luiza Barbosa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a tendência de saída da poupança deve se manter enquanto a Selic não cair para patamares abaixo de 10%. “Com a taxa ainda acima de 14%, investimentos como os fundos DI e os títulos públicos continuam atrativos, mesmo com o risco de crédito associado a alguns deles”, afirmou.

    Perspectivas para o futuro da poupança no Brasil

    O saldo da poupança, que ainda supera R$ 1 trilhão, é um indicador da cultura de poupança dos brasileiros, mas a queda nos depósitos líquidos nos últimos anos aponta para uma mudança de comportamento. Especialistas acreditam que, sem uma reformulação na política de remuneração da poupança — como a vinculação a índices de inflação ou a criação de uma taxa flutuante —, a tendência de esvaziamento deve se intensificar.

    Outro ponto de atenção é o envelhecimento da população. Com mais brasileiros na terceira idade, que tradicionalmente priorizam a segurança da poupança, a queda nos depósitos pode acelerar se os jovens, mais propensos a buscar rentabilidade, não forem atraídos de volta. “A poupança precisa se reinventar, ou corre o risco de se tornar um produto de nicho”, avalia o professor de finanças da USP, Marcelo Rabbat.

    O que esperar para os próximos meses?

    A inflação de abril, que será divulgada pelo IBGE na próxima terça-feira (14), será um termômetro crucial para o BC definir os próximos passos na política monetária. Se os preços continuarem em alta, a Selic pode ser mantida por mais tempo, o que manteria a pressão sobre a poupança. Por outro lado, uma desaceleração inflacionária poderia acelerar novos cortes na taxa, reduzindo a atratividade de investimentos alternativos.

    Enquanto isso, a poupança segue como um termômetro da confiança dos brasileiros no sistema financeiro. Com mais de 60 milhões de contas ativas e um saldo que ainda supera o PIB de muitos países, seu papel social é inegável. No entanto, sua sobrevivência como principal aplicação de baixo risco depende de reformas urgentes — ou do fim da era dos juros elevados no Brasil.