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  • AGBI: a engenharia da Faria Lima no campo que transformou pastos degradados em minas de ouro do agro brasileiro

    AGBI: a engenharia da Faria Lima no campo que transformou pastos degradados em minas de ouro do agro brasileiro

    Luciano Lewandowski conhece o poder dos números como poucos. Durante anos, ele geriu bilhões em fundos de investimento nos escritórios refrigerados da Faria Lima, onde os gráficos de rentabilidade eram projetados em telões de última geração. Mas foi no interior empoeirado, onde o solo cansado de décadas de exploração mal consegue sustentar um pé de soja, que ele enxergou o verdadeiro filão: terras baratas que poderiam ser transformadas em ativos milionários com o toque certo de engenharia financeira e agronômica.

    A AGBI, gestora fundada por Lewandowski, tornou-se a prova viva de que o Brasil agrário pode ser tão rentável quanto as maiores bolsas de valores. Em vez de apostar em terras já consolidadas, a empresa especializou-se em adquirir pastagens degradadas — aquelas onde o gado mal consegue sobreviver e o solo está tão empobrecido que nem adubo tradicional funciona mais. Com um modelo exclusivo de equity, a AGBI compra essas áreas por preços de “pecuária” (muito abaixo do valor de mercado para agricultura moderna) e aplica uma estratégia agressiva de recuperação: correção química agressiva, plantio de culturas de alto retorno e, em seguida, revenda pelo valor de “soja” ou até mesmo de áreas destinadas a projetos de reflorestamento ou bioenergia.

    Do papel à realidade: como uma pastagem vira uma mina de ouro em três anos

    O processo começa com uma análise criteriosa de localização. A AGBI não busca terras aleatórias: prioriza regiões com clima favorável, logística de escoamento eficiente e, principalmente, solo que responda bem à recuperação. “Não adianta comprar uma fazenda degradada no meio do nada, por mais barata que seja”, explica Lewandowski em entrevista exclusiva. “O segredo está em identificar áreas onde, com investimentos relativamente baixos — mas altamente técnicos —, podemos multiplicar o valor da terra em poucos ciclos produtivos.”

    O passo seguinte é o que Lewandowski chama de “engenharia reversa do solo”: aplicação massiva de calcário e gesso para reequilibrar o pH, seguido de plantio de culturas de cobertura que sequestram carbono e melhoram a estrutura do solo. Em seguida, vem a lavoura principal — geralmente soja ou milho, dependendo da região. Em dois ou três anos, a área que antes produzia menos de 2.000 kg de carne por hectare passa a gerar 4.000 kg de grãos, com potencial de venda pelo dobro ou triplo do preço de compra.

    Os números comprovam a tese. Enquanto os dois primeiros fundos da AGBI (lançados entre 2013 e 2017) levaram quatro anos para captar R$ 60 milhões, o Fundo IV atingiu a mesma marca em apenas duas semanas. “Isso mostra que o mercado finalmente entendeu que o valor real da terra brasileira não está na sua extensão, mas na sua capacidade de transformação”, analisa o executivo. Para 2024, a meta é chegar ao volume de R$ 500 milhões em ativos sob gestão, com previsão de mais três fundos até 2026.

    Oportunidade ou bolha? O risco por trás de um modelo que vende sonhos de lucro rápido

    Críticos do modelo apontam que a estratégia da AGBI depende de condições ideais — clima favorável, preços estáveis das commodities e acesso a crédito barato — para funcionar. “Não é um negócio para amadores”, admite Lewandowski. “Exige capital paciente, gestão técnica impecável e, acima de tudo, timing. Comprar na alta do mercado ou vender na baixa pode transformar o que parece um acerto em um desastre.”

    Outro ponto de atenção é o impacto ambiental. Embora a AGBI se apresente como uma solução para terras degradadas, ambientalistas questionam se a recuperação agressiva de solos não pode, em alguns casos, agravar problemas como a erosão ou a contaminação por agroquímicos. “A degradação não é apenas uma questão de prejuízo econômico, mas também ambiental”, alerta a doutora em agronomia Maria Fernanda Diniz, da Universidade Federal de Viçosa. “Recuperar uma pastagem degradada não pode ser sinônimo de esgotar ainda mais o solo.”

    Lewandowski rebate as críticas com dados: segundo ele, 60% das áreas recuperadas pela AGBI são convertidas em sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta), que aumentam a biodiversidade local. Além disso, a empresa afirma que mais de 70% dos seus investimentos já foram auditados por órgãos ambientais, com selos de sustentabilidade como o CAR (Cadastro Ambiental Rural) e o Protocolo de Sustentabilidade do Agronegócio (PSA).

    O futuro do agro brasileiro passa pela terra que ninguém quer

    Se a AGBI está certa, o Brasil tem nas mãos uma solução para dois problemas simultâneos: a crise de produtividade das pastagens — que já ocupam 25% do território nacional — e a necessidade de atrair capital estrangeiro para o agro, cada vez mais cobiçado por fundos de private equity e investidores institucionais. “O agro não é mais o setor do improviso”, diz Lewandowski. “Hoje, é um laboratório de inovação financeira, onde a terra é tratada como um ativo líquido, negociado em ciclos cada vez mais curtos.”

    Para os cotistas da AGBI, o apelo é claro: trata-se de um investimento tangível, ancorado em ativos reais que, diferentemente das ações ou criptomoedas, não desaparecem em uma crise. Nos últimos cinco anos, os fundos da gestora registraram rentabilidade média de 25% ao ano, com picos de 35% em anos de safra excepcional. “Estamos falando de um modelo que não é especulativo, mas sim de engenharia de valor”, resume Lewandowski. “E nesse jogo, quem coloca a botina no chão e a planilha no bolso sai na frente.”

  • Poupança registra maior retirada líquida em abril desde 2023: entenda os motivos

    Poupança registra maior retirada líquida em abril desde 2023: entenda os motivos

    Retração histórica na poupança: o que está por trás dos números?

    A caderneta de poupança, tradicionalmente vista como o investimento mais seguro do Brasil, registrou em abril de 2024 sua maior retirada líquida desde 2023: R$ 476,4 milhões a mais em saques do que em depósitos. Segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC) nesta quinta-feira (9), o mês encerrou com aplicações de R$ 362,2 bilhões, enquanto os saques atingiram R$ 362,7 bilhões — um saldo negativo que reflete a crescente preferência dos brasileiros por alternativas de investimento mais rentáveis.

    O cenário não é novo. Desde 2022, a poupança tem perdido espaço para outras aplicações, como os fundos DI, os títulos do Tesouro Direto e até mesmo criptomoedas, que oferecem retornos superiores em um ambiente de juros elevados. Em 2023, as retiradas líquidas somaram R$ 87,8 bilhões, enquanto em 2024, até abril, o saldo negativo já ultrapassa R$ 41,7 bilhões — um sinal claro de que o esvaziamento da poupança não é um fenômeno passageiro, mas uma tendência estrutural.

    Selic em queda e inflação em alta: o paradoxo que afeta a poupança

    A manutenção da Selic — a taxa básica de juros — em patamares elevados tem sido um dos principais motivos para a evasão da poupança. Embora o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha promovido um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em maio, reduzindo-a para 14,5% ao ano, a taxa ainda é atrativa para investimentos em renda fixa não-poupança, como os fundos DI, que seguem a variação do CDI.

    No entanto, a inflação também desempenha um papel crucial. Em março, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) alcançou 0,88% — um valor acima das expectativas e puxado principalmente pelo aumento nos preços de transportes e alimentação. Com o IPCA acumulado em 12 meses atingindo 4,14%, segundo dados do IBGE, a poupança, que rende apenas 6,17% ao ano (mais a TR, que atualmente está zerada), perde poder de compra frente a outras aplicações.

    O rendimento da poupança: por que os brasileiros estão migrando?

    Um dos fatores que explicam a fuga da poupança é a diferença de rentabilidade. Enquanto a caderneta oferece um rendimento fixo de 0,5% ao mês (6% ao ano) mais a Taxa Referencial (TR), investimentos como os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de grandes bancos e fundos de renda fixa podem oferecer taxas superiores a 100% do CDI — algo que, em um cenário de Selic alta, significa retornos líquidos superiores a 10% ao ano.

    Além disso, a poupança tem regras rígidas: só é isenta de Imposto de Renda para quem mantém o dinheiro aplicado por mais de dois anos. Para valores abaixo de R$ 1.500, a isenção é automática, mas acima disso, o imposto incide em alíquotas regressivas, o que não ocorre em aplicações como o Tesouro Selic ou fundos DI.

    O impacto da guerra e a política monetária do BC

    A instabilidade geopolítica, especialmente o conflito no Oriente Médio, tem gerado incertezas nos mercados, mas não foi suficiente para conter o ciclo de queda da Selic. O BC, ao reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual em maio, sinalizou que o ambiente inflacionário, embora ainda preocupante, começa a ceder. No entanto, a autoridade monetária não deu pistas claras sobre futuros cortes, deixando investidores em dúvida sobre o melhor momento para realocar suas reservas.

    Para a economista Ana Luiza Barbosa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a tendência de saída da poupança deve se manter enquanto a Selic não cair para patamares abaixo de 10%. “Com a taxa ainda acima de 14%, investimentos como os fundos DI e os títulos públicos continuam atrativos, mesmo com o risco de crédito associado a alguns deles”, afirmou.

    Perspectivas para o futuro da poupança no Brasil

    O saldo da poupança, que ainda supera R$ 1 trilhão, é um indicador da cultura de poupança dos brasileiros, mas a queda nos depósitos líquidos nos últimos anos aponta para uma mudança de comportamento. Especialistas acreditam que, sem uma reformulação na política de remuneração da poupança — como a vinculação a índices de inflação ou a criação de uma taxa flutuante —, a tendência de esvaziamento deve se intensificar.

    Outro ponto de atenção é o envelhecimento da população. Com mais brasileiros na terceira idade, que tradicionalmente priorizam a segurança da poupança, a queda nos depósitos pode acelerar se os jovens, mais propensos a buscar rentabilidade, não forem atraídos de volta. “A poupança precisa se reinventar, ou corre o risco de se tornar um produto de nicho”, avalia o professor de finanças da USP, Marcelo Rabbat.

    O que esperar para os próximos meses?

    A inflação de abril, que será divulgada pelo IBGE na próxima terça-feira (14), será um termômetro crucial para o BC definir os próximos passos na política monetária. Se os preços continuarem em alta, a Selic pode ser mantida por mais tempo, o que manteria a pressão sobre a poupança. Por outro lado, uma desaceleração inflacionária poderia acelerar novos cortes na taxa, reduzindo a atratividade de investimentos alternativos.

    Enquanto isso, a poupança segue como um termômetro da confiança dos brasileiros no sistema financeiro. Com mais de 60 milhões de contas ativas e um saldo que ainda supera o PIB de muitos países, seu papel social é inegável. No entanto, sua sobrevivência como principal aplicação de baixo risco depende de reformas urgentes — ou do fim da era dos juros elevados no Brasil.