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  • O Caminho das Tropas: como mulas moldaram a geografia e a economia do Brasil colonial

    O Caminho das Tropas: como mulas moldaram a geografia e a economia do Brasil colonial

    Quem transita hoje pelas rodovias BR-116 ou BR-373, cortando o interior do Paraná e Santa Catarina a caminho de São Paulo, está, sem saber, repetindo um trajeto trilhado há quase 300 anos. Entre as décadas de 1730 e o final do século XIX, o Brasil não se movia a vapor ou a eletricidade, mas sim a quatro patas, orelhas longas e uma resistência inigualável: as mulas.

    O Caminho das Tropas: artéria vital do Brasil colonial

    O chamado Caminho das Tropas nasceu como uma rota improvisada, mas indispensável, para escoar ouro das Minas Gerais, café do Vale do Paraíba e até gado do Sul. Com um trajeto de 1.200 quilômetros — de Viamão (RS) a Sorocaba (SP) — a jornada levava cerca de três meses, atravessando territórios hostis, rios caudalosos e montanhas. Sem estradas pavimentadas ou pontes, o sucesso dessa empreitada dependia, acima de tudo, da resistência dos animais.

    Cidades nasceram dos cascos das mulas

    Cada parada ao longo do Caminho das Tropas se transformava em um ponto de comércio, pouso ou criação de gado. Locais como Vacaria (RS), Lages (SC), Lapa (PR) e Castro (PR) surgiram justamente por serem pontos estratégicos para descanso e abastecimento. Em Castro, por exemplo, a riqueza oriunda do tropeirismo financiou a construção de casarões coloniais que ainda hoje contam a história daquele período. As mulas, mais do que meios de transporte, eram moedas de troca: seus excrementos fertilizavam as terras, e seus couros abasteciam mercados até na Europa.

    Esse ecossistema de tropeiros, mulas e pousos não apenas definiu o mapa urbano da região Sul e Sudeste, como também criou uma cultura própria. Festas, lendas e até a culinária local — como o churrasco e o feijão tropeiro — carregam a memória daqueles tempos em que o Brasil ainda se movia no ritmo dos cascos.

    Mais do que uma estrada: um legado esquecido

    Quando as ferrovias chegaram no século XIX e, posteriormente, as rodovias asfaltadas no século XX, o Caminho das Tropas caiu no ostracismo. No entanto, seu impacto permanece vivo não só na arquitetura das cidades, mas também na mentalidade daquelas regiões. A resiliência do Sul e Sudeste brasileiros, acostumados a superar barreiras geográficas e econômicas, tem raízes profundas nessa epopeia silenciosa das mulas e seus condutores.

    Hoje, ao dirigir por estradas que seguem os mesmos traçados de outrora, poucos lembram que, há três séculos, foi um animal de carga — e não uma locomotiva ou um caminhão — que moveu o Brasil. Um legado que, mesmo invisível, ainda sustenta parte da identidade nacional.

  • Mulás de Mangalarga: o ‘novo ouro’ da equinocultura brasileira que faturou R$ milhões em 2026

    Mulás de Mangalarga: o ‘novo ouro’ da equinocultura brasileira que faturou R$ milhões em 2026

    O que antes era visto como mero subproduto do cruzamento entre jumentos e éguas, hoje se transformou no ‘novo ouro’ da equinocultura brasileira. Na 48ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga, realizada em Goiânia durante esta semana, uma apresentação especial colocou as mulas no centro das atenções — e dos negócios.

    De ‘filhas indesejadas’ a joias da raça Mangalarga

    Durante décadas, as mulas (filhas de jumentos com éguas) foram tratadas como animais secundários, muitas vezes descartadas ou vendidas a preços irrisórios. Essa realidade mudou drasticamente: hoje, mais de 50% das mulas produzidas no Brasil têm origem em éguas da raça Mangalarga, segundo dados da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Mangalarga (ABCCMM).

    A virada de mesa veio com a valorização desses animais híbridos, que combinam a resistência dos jumentos com a docilidade e força das éguas Mangalarga. Agora, eles são disputados no mercado por criadores, esportistas e até pela indústria do lazer, movimentando cifras que superam a casa dos R$ 500 milhões anuais — um setor que cresce cerca de 15% ao ano.

    Goiás lidera a produção de mulas premium

    A raiz desse sucesso está no cerrado goiano, onde criadores investem em programas de melhoramento genético para produzir mulas não apenas para trabalho, mas também para sela, cavalgadas e provas esportivas. “Nós deixamos de ver as mulas como um produto secundário e passamos a enxergá-las como uma atividade altamente rentável”, afirmou João Silva, criador e expositor na feira, durante a apresentação dedicada aos muares.

    Na exposição, além de demonstrações em pista, os visitantes puderam conhecer casos de sucesso como o da Fazenda Santa Rita, em Anápolis (GO), que faturou R$ 2,3 milhões em 2025 com a venda de apenas 12 mulas de alta linhagem. “Elas são mais estáveis que os cavalos, têm maior resistência e são ideais para longas cavalgadas”, explicou Silva, destacando o apelo turístico do segmento.

    O futuro da raça passa pelas mulas

    A ABCCMM já estuda a criação de um selo de qualidade específico para mulas Mangalarga, com o objetivo de padronizar o mercado e aumentar ainda mais seu valor. “Esse é um nicho que veio para ficar”, projetou a presidente da entidade, Maria Oliveira. “A demanda por animais híbridos só tende a crescer, especialmente com o boom das trilhas equestres no Brasil.”