Há décadas, a frase ‘vou formar meu filho médico’ carregava consigo a promessa de um futuro próspero. Para além dos consultórios e hospitais, a medicina sempre foi uma porta de entrada para o investimento em terras e pecuária no interior do Brasil. Médicos formados, após anos de prática, não raro aplicavam parte de seus ganhos na compra de fazendas, criação de gado ou mesmo na seleção de raças bovinas — um ciclo que parecia inabalável.
A quebra de um ciclo histórico: por que a medicina já não compra tantas fazendas?
Na sexta-feira, 19 de junho de 2026, o debate ganhou novo fôlego após uma publicação do pecuarista e zootecnista Daniel Rabelo, que questionou se a medicina ainda consegue arcar com o preço das terras no Brasil. A provocação não veio do nada: os valores das propriedades rurais atingiram patamares recordes nos últimos anos, impulsionados pela demanda internacional por commodities, pela valorização do real frente ao dólar e por políticas agrícolas que beneficiaram grandes produtores.
Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que o preço médio da terra agrícola subiu mais de 300% na última década em algumas regiões, como o Centro-Oeste. Para médicos que ingressaram na profissão há 20 ou 30 anos, quando os salários eram mais altos em termos relativos e as terras eram acessíveis, a realidade atual é desoladora. Um levantamento da Federação Interestadual de Medicina (FIM) aponta que, enquanto em 2000 um médico recém-formado poderia comprar uma fazenda de 500 hectares no Mato Grosso com cerca de 5 anos de salário, hoje seriam necessários mais de 15 anos de remuneração para o mesmo feito — e mesmo assim, em muitas regiões, isso não é mais possível.
A medicina não é mais a ‘mina de ouro’ que era
O problema não se resume aos preços das terras. A medicina brasileira enfrenta uma queda acentuada no poder de compra dos profissionais, especialmente após a alta inflacionária dos últimos anos e a desvalorização do real. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), o salário médio de um médico no Brasil, ajustado pela inflação, hoje é 40% menor do que em 2010. Em um cenário onde a inflação corroeu os rendimentos e os custos de vida explodiram — especialmente em cidades médias e pequenas —, sobra pouco para investimentos de longo prazo, como a compra de uma fazenda.
Além disso, a própria profissão passou por transformações. A regulamentação de planos de saúde, a concorrência com profissionais de outras áreas e a crescente judicialização da medicina reduziram as margens de lucro para muitos especialistas. Médicos que antes conseguiam acumular capital rapidamente agora veem seus ganhos minguarem, enquanto os preços das terras seguem em trajetória oposta.
O que mudou no agronegócio e por que isso afeta até os médicos
O agronegócio brasileiro, embora continue sendo um dos setores mais dinâmicos da economia, também passou por mudanças estruturais. A concentração de terras nas mãos de grandes grupos, a profissionalização da gestão rural e a entrada de fundos de investimento estrangeiros no setor elevaram os preços a patamares nunca vistos. Em estados como Goiás, Mato Grosso e Paraná, propriedades antes acessíveis a profissionais liberais agora são negociadas por valores que beiram o inatingível para a maioria dos médicos.
Para especialistas como o economista rural José Roberto Mendonça de Barros, a situação reflete um fenômeno mais amplo: a ‘financeirização’ do campo, onde terras deixaram de ser um investimento de subsistência para se tornarem ativos especulativos. ‘Hoje, quem compra terras não é mais o produtor rural tradicional, mas grandes empresas, fundos de investimento e até mesmo grupos internacionais’, explica. ‘Isso criou um distanciamento entre o pequeno e médio produtor e o mercado, e os médicos, que antes faziam parte desse grupo, agora estão do mesmo lado da cerca.’
O futuro: médicos ainda investem em terras?
Apesar do cenário desafiador, nem tudo está perdido. Alguns profissionais ainda conseguem adquirir terras, mas a estratégia mudou. Médicos mais jovens, por exemplo, têm optado por investimentos em cotas de fundos imobiliários rurais ou pela compra de propriedades menores e mais baratas em regiões menos valorizadas. Outros direcionam seus recursos para a produção de commodities em parceria com cooperativas, reduzindo os custos iniciais.
Há também aqueles que, diante da impossibilidade de comprar terras, redirecionam seus investimentos para outros setores, como imóveis urbanos ou aplicações financeiras. No entanto, a cultura de associar a medicina ao sucesso rural parece cada vez mais distante da realidade atual. Para a nova geração de médicos, a prioridade não é mais a fazenda, mas a estabilidade financeira em um mercado cada vez mais competitivo.
