Tag: preservação genética

  • Vídeo raro: Fazenda São Lourenço mostra porcos Caruncho e encanta criadores no Brasil

    Vídeo raro: Fazenda São Lourenço mostra porcos Caruncho e encanta criadores no Brasil

    A Fazenda São Lourenço, referência nacional em genética de Nelore Pintado, chamou atenção nas redes sociais no dia 26 de maio ao compartilhar um vídeo inédito de sua criação de porcos Caruncho, uma das raças suínas mais antigas e raras do Brasil.

    Uma raça em risco de desaparecimento

    O porco Caruncho, conhecido por sua resistência e adaptação ao clima tropical, foi criado por colonizadores europeus no século XIX e quase desapareceu devido à industrialização da suinocultura. A Fazenda São Lourenço, localizada no interior de Goiás e comandada pelo nelorista Sr. Geraldo de Souza Carvalho Jr., mantém um plantel dedicado à preservação da raça, que hoje conta com apenas algumas centenas de exemplares registrados no Brasil.

    Tecnologia e tradição unidas

    Enquanto a fazenda é mundialmente reconhecida pelo trabalho de seleção genética do Nelore Pintado, o vídeo publicado no Instagram revelou um lado menos conhecido: a dedicação à conservação de raças autóctones. “A gente não trabalha só com o Nelore. A preservação do Caruncho é parte da nossa missão de manter viva a história da pecuária brasileira”, afirmou um funcionário da propriedade.

    Impacto nas redes e futuro da raça

    Em menos de 48 horas, o vídeo acumulou milhares de visualizações e compartilhamentos, com criadores e entusiastas do meio rural elogiando a iniciativa. A publicação não apenas mostrou os animais — com suas características únicas, como orelhas caídas e pelagem escura — mas também reacendeu discussões sobre a necessidade de programas de conservação genética para raças ameaçadas. Especialistas alertam que, sem esforços coordenados, o Caruncho pode desaparecer nas próximas décadas, assim como outras variedades tradicionais de suínos no país.

  • Lula acende alerta: Brasil corre risco de perder raças nativas de galinhas, dizem especialistas

    Lula acende alerta: Brasil corre risco de perder raças nativas de galinhas, dizem especialistas

    A recente declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a existência de apenas uma raça de galinha nativa oficialmente registrada no Brasil — a Canela-Preta — colocou sob os holofotes um problema há muito ignorado: a erosão genética na avicultura brasileira. Enquanto o chefe do Executivo chamou atenção para a biodiversidade nacional, especialistas alertam que dezenas de linhagens crioulas, adaptadas a diferentes biomas, estão à beira do desaparecimento, ameaçadas pela padronização industrial e pela substituição por aves de alta produtividade.

    O mito da ‘única raça nativa’ e a realidade das linhagens crioulas

    Contrariando a crença disseminada de que a Canela-Preta é a única raça genuinamente brasileira, pesquisadores da Embrapa e de universidades federais destacam a existência de centenas de variedades crioulas, desenvolvidas ao longo de séculos por comunidades rurais em todo o território nacional. Essas aves, conhecidas por nomes como ‘Framengo’, ‘Pelada’, ‘Carijó’ ou ‘Preta Piauí’, carregam características únicas: resistência a doenças, adaptação a climas extremos e carne com sabor diferenciado, valorizado em mercados de produtos artesanais e orgânicos.

    Segundo o geneticista da Embrapa Suínos e Aves, Fernando Pilotto, ‘a diversidade genética dessas linhagens é um ativo estratégico para o Brasil’. Ele explica que, em um contexto de mudanças climáticas e emergência de novas doenças aviárias, as raças crioulas podem ser a chave para evitar colapsos na produção avícola nacional. ‘Elas são como um seguro biológico: enquanto as linhagens comerciais são otimizadas para produtividade em ambientes controlados, as crioulos carregam genes de resistência que, se perdidos, jamais poderão ser recuperados’, alerta.

    Avanço da indústria e o desaparecimento das aves tradicionais

    O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas ganha contornos dramáticos no país devido à concentração do mercado avícola. De acordo com dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), mais de 90% da produção nacional de frangos de corte é dominada por apenas três linhagens comerciais. A padronização genética, embora eficiente em termos de ganho de peso e conversão alimentar, reduz drasticamente a variabilidade das aves, deixando o setor vulnerável a crises.

    Um estudo da Universidade Federal de Lavras (UFLA) publicado em 2023 mapeou 47 linhagens crioulas em risco de extinção no estado de Minas Gerais, onde comunidades rurais ainda mantêm criações de aves como a ‘Galinha Carijó do Sul’ ou a ‘Pelada de Uberaba’. ‘Muitas dessas raças já não são encontradas em seu habitat natural’, diz a zootecnista e pesquisadora da UFLA, Carla Molento. ‘Elas sobreviveram por séculos graças ao manejo tradicional, mas hoje são substituídas por matrizes industriais, que exigem menos mão de obra e garantem lucros rápidos’.

    Iniciativas de conservação ganham fôlego, mas ainda são insuficientes

    Nos últimos anos, universidades, ONGs e programas governamentais têm lançado projetos para resgatar e preservar as raças crioulas. Um exemplo é o Programa de Conservação de Recursos Genéticos Animais da Embrapa, que mantém um banco de germoplasma com amostras de DNA de aves brasileiras e promove feiras para incentivar a criação sustentável. Outra iniciativa é o Projeto Galinha Carijó, desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná, que distribui matrizes crioulas para pequenos produtores e capacita-os em técnicas de manejo tradicional.

    Entretanto, especialistas destacam que os esforços ainda são pontuais e enfrentam obstáculos como a falta de políticas públicas estruturantes e a baixa valorização comercial das aves crioulas. ‘O mercado paga melhor por um frango industrial do que por uma galinha caipira, mesmo que esta tenha qualidade superior’, critica o engenheiro agrônomo e produtor rural, Antônio Carlos Macêdo. ‘Sem incentivos econômicos ou subsídios, os criadores tradicionais não têm como competir’.

    Oportunidade para a agricultura familiar e a segurança alimentar

    Apesar dos desafios, há um movimento crescente de valorização das raças crioulas, especialmente entre produtores orgânicos e de agricultura familiar. Sistemas como a avicultura caipira e a criação agroecológica apostam nessas aves para atender a nichos de mercado dispostos a pagar mais por produtos diferenciados — seja por sabor, bem-estar animal ou sustentabilidade.

    Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) de 2022 classificou as raças crioulas como patrimônio genético estratégico, essencial para garantir a segurança alimentar em um cenário de crises climáticas e escassez de recursos. No Brasil, estados como Paraná e Santa Catarina já incluem essas aves em programas de desenvolvimento rural, vinculando-as a políticas de conservação ambiental e inovação agropecuária.

    O que falta para virar o jogo?

    Para os pesquisadores ouvidos pela reportagem, a solução passa por três frentes: regulamentação, incentivos e educação. Em primeiro lugar, é necessário ampliar o registro oficial de raças crioulas, como já ocorre com a ‘Canela-Preta’, mas para outras variedades. Em segundo, criar linhas de crédito específicas para pequenos produtores que queiram preservar essas linhagens, além de estabelecer preços mínimos garantidos nos mercados institucionais (como o PAA e o PNAE). Por fim, disseminar o conhecimento sobre as vantagens das aves crioulas entre consumidores e técnicos agrícolas, desmistificando a ideia de que elas são ‘menos produtivas’.

    ‘O Brasil tem a chance de liderar um movimento global de preservação genética na avicultura’, avalia Fernando Pilotto. ‘Mas isso depende de vontade política e de reconhecer que a diversidade não é um luxo, e sim uma necessidade’.