O setor de proteína animal brasileiro está em regime de atenção máxima. Dados oficiais do Índice de Niño Oceânico (ONI), atualizados em 3 de junho de 2026, indicam que as águas do Pacífico Equatorial já apresentam anomalias térmicas superiores a 0,5 °C há três trimestres consecutivos — patamar que, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), confirma a iminência do El Niño 2026.
Impactos diretos no campo: pasto escasso e custos em alta
A quebra na regularidade das chuvas, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste — principais bacias produtoras de gado do país —, já acende sinal vermelho. Sem precipitações suficientes, a oferta de pastagens tende a cair drasticamente, forçando os pecuaristas a investirem em suplementação alimentar para evitar a perda de peso dos animais. Segundo a Embrapa Gado de Corte, os custos com ração podem disparar até 30% em propriedades que não adotarem estratégias de mitigação.
O alerta não é novo, mas o timing é crítico
Embora eventos como o El Niño sejam cíclicos, a intensidade prevista para 2026 preocupa. Modelos climáticos da NOAA (Agência Americana de Oceanos e Atmosfera) sugerem que este episódio pode atingir categoria moderada a forte, com potencial para prolongar-se até o verão de 2027. Para os produtores, a diferença entre lucro e prejuízo pode estar na capacidade de agir agora: desde a diversificação de pastagens até a adoção de sistemas de irrigação pontuais.
Estratégias urgentes para o produtor rural
Especialistas ouvidos pela Conab recomendam três frentes de ação imediata: 1) Monitoramento climático diário, com uso de estações meteorológicas próprias ou parcerias com cooperativas; 2) Estocagem de insumos, negociando contratos antecipados de grãos e suplementos para evitar altas sazonais; 3) Adaptação de manejo, como a rotação de pastagens e a introdução de espécies forrageiras mais resistentes à seca, como o capim-buffel ou braquiarão. A Embrapa ainda destaca a importância de seguros agrícolas para cobrir perdas por estiagem, uma vez que os programas públicos de subvenção nem sempre atendem à demanda em períodos de crise.
Consequências que vão além do curto prazo
Os efeitos do El Niño 2026 não se limitam ao campo. Analistas da FGV Agro projetam que a alta nos custos de produção pode se refletir no preço da carne brasileira no mercado internacional, reduzindo a competitividade frente a concorrentes como Austrália e Estados Unidos. Além disso, a escassez de água pode agravar conflitos por recursos hídricos em estados como Goiás e Mato Grosso, onde a agropecuária já responde por até 80% do uso da água. A pressão sobre os recursos naturais, somada à volatilidade climática, reforça a tese de que a pecuária brasileira precisa urgentemente de um plano nacional de adaptação climática — algo ainda inexistente no atual Plano Setorial de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas para a Agropecuária.
