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  • Getap Inverno: Número recorde de 900 inscrições reafirma milho como commodity estratégica no Brasil

    Getap Inverno: Número recorde de 900 inscrições reafirma milho como commodity estratégica no Brasil

    O boom do milho brasileiro: Como 900 inscrições no Getap Inverno revelam a força da segunda safra

    A segunda safra de milho no Brasil nunca esteve tão em evidência. O encerramento das inscrições para o Getap Inverno — projeto do Grupo Tático de Aumento de Produtividade (Getap) — registrou um marco histórico: mais de 900 áreas participantes, consolidando a maior edição já realizada pela iniciativa. O número não apenas superou expectativas como também reafirmou o papel do cereal como uma das commodities mais estratégicas para a agricultura nacional, especialmente na região Centro-Oeste, onde o plantio antecipado e as condições climáticas têm favorecido colheitas com alto potencial produtivo.

    O recorde de adesão ao programa reflete um momento único para o setor. O milho, tradicionalmente tido como um cultivo de primeira safra, ganhou força na segunda estação graças à expansão do etanol de milho — que já representa cerca de 15% da produção nacional do biocombustível — e à crescente demanda da indústria, seja para alimentação animal, seja para processamento industrial. Segundo Gustavo Capanema, coordenador técnico do Getap, o cenário atual é resultado de um conjunto de fatores que vão além da conjuntura de preços.

    “O produtor brasileiro está cada vez mais técnico e estratégico. O Getap não é apenas um concurso de produtividade; é uma plataforma de inteligência agrícola. Os relatórios gerados pelos participantes permitem comparações regionais e nacionais, oferecendo dados concretos para a tomada de decisão”, explica Capanema. A ferramenta, segundo ele, tem sido adotada pelos agricultores como um guia para o manejo sustentável, especialmente em um contexto de volatilidade climática e pressões por eficiência.

    Mercado aquecido: Por que o milho da segunda safra ganhou destaque

    O boom das inscrições no Getap Inverno está diretamente ligado ao cenário econômico favorável para o milho. Nos últimos dois anos, o preço da saca do cereal registrou valorizações expressivas, impulsionadas pela quebra de safras em países como Argentina e Ucrânia, além da demanda crescente da China. No entanto, o grande diferencial deste momento é a segunda safra, que responde por cerca de 70% da produção nacional de milho e tem se tornado cada vez mais relevante para a balança comercial brasileira.

    Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) indicam que a área plantada na segunda safra 2023/24 deve atingir 12,5 milhões de hectares, com uma produção estimada em 94 milhões de toneladas. Números que colocam o Brasil como o segundo maior exportador global do grão, atrás apenas dos Estados Unidos. “O produtor enxerga valor não só na primeira, mas também na segunda safra. Há uma clara expectativa de preços sustentados e produtividades cada vez maiores, graças ao avanço tecnológico”, afirma Capanema.

    O etanol de milho, por sua vez, tem sido um motor de transformação na região Centro-Oeste. Estados como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul concentram hoje 80% da produção nacional do biocombustível, que utiliza o cereal como principal matéria-prima. A expansão das usinas tem criado um efeito sinérgico: enquanto a indústria demanda milho, os produtores ganham um novo vetor de comercialização, reduzindo a dependência da exportação e garantindo preços mais estáveis.

    Desafios climáticos e inovação: Como o Getap ajuda a mitigar riscos

    Apesar do otimismo, o setor não está imune a desafios. Em algumas regiões, como partes de Goiás e Minas Gerais, a redução antecipada das chuvas e o atraso no plantio da segunda safra geraram preocupações. No entanto, a confiança dos produtores permanece alta. “Muitos agricultores apostam que o volume de chuva registrado no início da safra será suficiente para compensar o déficit hídrico no final do ciclo. Além disso, o trabalho de nutrição e a construção de perfil de solo têm permitido que as plantas resistam melhor a esse período crítico”, destaca Capanema.

    Os dados do Getap mostram que os participantes do concurso têm adotado práticas inovadoras para superar adversidades. Tecnologias como semeadura direta, irrigação por pivô central e uso de híbridos precoces têm sido fundamentais para garantir produtividades acima da média nacional, que gira em torno de 6.000 kg/ha. Em Mato Grosso, por exemplo, onde o plantio foi antecipado, as primeiras colheitas já começaram em maio, com expectativa de ganho de ritmo a partir de junho.

    “A diversidade produtiva do Brasil é um dos nossos maiores trunfos”, comenta Capanema. “Temos produtores em diferentes biomas, desde o Cerrado até a região Sul, cada um com suas particularidades. O Getap permite que a gente identifique as melhores práticas em cada contexto e dissemine esse conhecimento de forma democrática.”

    Getap Sorgo: Última chamada para produtores interessados

    Enquanto o Getap Inverno já encerrou suas inscrições, o Getap Sorgo ainda oferece oportunidade para produtores que desejam participar. O concurso, que avalia a produtividade da cultura, recebe cadastros até 31 de maio. Para o coordenador do Getap, o sorgo ganha cada vez mais relevância no cenário agrícola brasileiro, especialmente em rotações de cultura e como alternativa para áreas com restrições hídricas.

    “O sorgo é uma cultura resiliente, com ciclo curto e baixo requerimento hídrico. Em um contexto de mudanças climáticas, ela se torna uma opção estratégica para muitos produtores”, explica Capanema. O programa, assim como o do milho, oferece relatórios técnicos detalhados, permitindo que os participantes identifiquem oportunidades de melhoria em suas lavouras.

    Perspectivas para 2024: O que esperar da safra de milho

    Com mais de 900 áreas inscritas no Getap Inverno e um mercado global de milho cada vez mais competitivo, as perspectivas para a safra 2023/24 são positivas. A Conab projeta uma produção recorde de 118 milhões de toneladas, com exportações atingindo 50 milhões de toneladas. No entanto, especialistas alertam para a necessidade de gestão de riscos, especialmente em relação a eventuais adversidades climáticas e flutuações de preços.

    Para Capanema, o sucesso do Getap na safra atual é um indicativo de que o setor agrícola brasileiro está cada vez mais profissionalizado. “O produtor não quer mais apenas plantar e colher. Ele quer dados, quer comparar, quer inovar. E é exatamente isso que o Getap oferece: uma rede de inteligência coletiva que impulsiona a produtividade e a sustentabilidade”, conclui.

    Acompanhe as últimas atualizações sobre o Getap Sorgo e outras iniciativas do setor agrícola no Portal ClickNews.

  • Tecnologia e sustentabilidade: como o manejo inteligente de irrigação revoluciona a agricultura brasileira

    Tecnologia e sustentabilidade: como o manejo inteligente de irrigação revoluciona a agricultura brasileira

    Da intuição à ciência: a revolução no manejo da água nas lavouras

    Durante décadas, o produtor rural brasileiro baseou suas decisões de irrigação em critérios empíricos: experiência acumulada, calendários agrícolas fixos ou, simplesmente, na observação visual das plantas. No entanto, essa abordagem tradicional tem cedido espaço para um modelo tecnologicamente avançado, que combina ciência de dados, meteorologia e agronomia para otimizar o uso da água. Segundo Sandro Rodrigues, engenheiro agrícola e gerente comercial da Valley (Valmont Industries), a adoção de sistemas de irrigação de precisão pode reduzir em até 35% o volume de água aplicado nas lavouras sem comprometer a produtividade — uma economia que, em números absolutos, significa milhões de litros poupados em cada ciclo de cultivo.

    O Scheduling: o extrato bancário das plantações

    Entre as ferramentas que lideram essa transformação está o Scheduling, um sistema de recomendação de irrigação que funciona como um “extrato bancário” para o solo. A tecnologia calcula diariamente a necessidade hídrica da cultura com base em variáveis como evapotranspiração, precipitação local, tipo de solo e estágio fenológico da planta. “Registramos tudo o que entra no sistema — água da chuva e irrigação — e subtraímos o que a planta consome, que é a evapotranspiração. O saldo final nos diz exatamente quando e quanto irrigar”, explica Rodrigues. Essa metodologia, desenvolvida a partir de modelos agronômicos validados, substitui a intuição por dados concretos, eliminando desperdícios e evitando a sobrecarga hídrica que pode prejudicar a saúde das plantas.

    Resultados palpáveis: mais produtividade com menos água

    Os números comprovam a eficácia do manejo inteligente. Em propriedades que adotaram o sistema, produtores relataram reduções de 200 a 300 milímetros no volume total de água aplicado por ciclo — uma queda de cerca de 35% em relação aos métodos tradicionais. Em um caso documentado, uma fazenda que utilizava 600 mm de irrigação ao longo do ciclo passou a aplicar apenas 400 mm, mantendo ou até superando os índices de produtividade anteriores. “O objetivo não é economizar água a qualquer custo, mas aplicar a quantidade exata que a cultura necessita. Às vezes, descobrimos que o produtor estava irrigando menos do que devia, e a planta sofria estresse hídrico”, destaca o engenheiro. Em outros casos, o sistema recomenda aumentar a irrigação quando detecta que a cultura está em fase crítica de desenvolvimento ou sob condições climáticas adversas.

    Benefícios além da água: energia, equipamentos e saúde das plantas

    A precisão no manejo da irrigação não se limita à economia de recursos hídricos. O uso racional da água reduz o consumo de energia elétrica nos sistemas de bombeamento, diminui o desgaste de equipamentos como pivôs centrais e mitiga o risco de doenças fúngicas causadas pelo excesso de umidade no solo. “Quando irrigamos no momento certo, evitamos o estresse hídrico nas plantas, o que melhora a resistência a pragas e doenças. Além disso, a redução no volume de água aplicado prolonga a vida útil dos sistemas de irrigação”, afirma Rodrigues. Segundo dados da Embrapa, a agricultura irrigada consome cerca de 70% da água doce disponível no planeta, e a adoção dessas tecnologias é fundamental para tornar o setor mais sustentável sem sacrificar a produção.

    O papel do clima e da pesquisa na agricultura 4.0

    A eficácia dos sistemas de irrigação de precisão depende diretamente da qualidade dos dados climáticos integrados às plataformas. A evapotranspiração, por exemplo, é calculada com base em variáveis como temperatura, umidade relativa do ar, velocidade do vento e radiação solar — fatores que variam conforme a região e a época do ano. No Brasil, onde o clima tropical predomina, a sazonalidade das chuvas e as oscilações térmicas tornam ainda mais crucial o uso de tecnologias adaptativas. “As estações meteorológicas automáticas e os satélites de monitoramento são aliados essenciais nessas ferramentas. Sem dados atualizados, o sistema perde precisão”, ressalta o especialista.

    Desafios e perspectivas: democratizando a tecnologia

    Apesar dos benefícios comprovados, a adoção em larga escala de sistemas de irrigação de precisão ainda enfrenta barreiras. O custo inicial de aquisição e instalação de sensores, estações meteorológicas e softwares especializados pode ser proibitivo para pequenos e médios produtores. No entanto, iniciativas governamentais e parcerias público-privadas têm buscado reduzir essa lacuna. Em 2023, o Ministério da Agricultura lançou o programa “Irrigação Sustentável”, que oferece linhas de crédito com juros subsidiados para a modernização de sistemas de irrigação, além de fomentar a capacitação de técnicos e agricultores.

    Outro entrave é a resistência cultural à mudança. Muitos produtores, especialmente aqueles com décadas de experiência, ainda preferem confiar no “feeling” do que em algoritmos. “A transição requer tempo e demonstração de resultados. Quando um produtor vizinho obtém ganhos de produtividade e economia de recursos, a adesão naturalmente aumenta”, observa Rodrigues. A tendência, entretanto, é irreversível: segundo projeções da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a população mundial chegará a 9,7 bilhões de pessoas em 2050, o que exigirá um aumento de 70% na produção de alimentos. Nesse cenário, a irrigação de precisão não é mais uma opção, mas uma necessidade estratégica para garantir a segurança alimentar global.

    Agricultura do futuro: inovação como pilar da sustentabilidade

    O manejo inteligente da irrigação representa apenas uma das frentes daquilo que especialistas chamam de “Agricultura 4.0” — um modelo que integra Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial e big data para otimizar a produção agrícola. No Brasil, startups e empresas de base tecnológica já desenvolvem soluções como drones para monitoramento de culturas, aplicativos de gestão de insumos e plataformas de previsão meteorológica hiperlocal. “O produtor do século XXI precisa ser também um gestor de dados. Quem não se adaptar, ficará para trás”, alerta o engenheiro.

    Para Sandro Rodrigues, o futuro da irrigação no Brasil passa necessariamente pela adoção de sistemas integrados que considerem não apenas a quantidade de água, mas também a qualidade do solo, a saúde das plantas e o impacto ambiental. “Não adianta economizar água se o manejo gera escoamento superficial ou contaminação de aquíferos. A irrigação de precisão deve ser sustentável em todos os aspectos”, conclui. Com a pressão crescente por práticas agrícolas mais responsáveis — impulsionada por acordos internacionais como o Acordo de Paris e pela demanda dos consumidores por produtos eco-friendly — a tecnologia surge como a grande aliada do produtor rural na busca por um modelo de agricultura mais eficiente, rentável e alinhado com as exigências do século XXI.