Tag: Crise climática

  • Medida provisória libera renegociação de R$ 100 bilhões em dívidas rurais

    Medida provisória libera renegociação de R$ 100 bilhões em dívidas rurais

    Acordo substitui projeto de lei por MP para agilizar renegociação

    O governo federal e o Congresso Nacional formalizaram na última quarta-feira (15) um acordo para editar uma medida provisória (MP) que regulamenta a renegociação de cerca de R$ 100 bilhões em dívidas rurais. A iniciativa substitui o projeto de lei em tramitação e busca agilizar o processo para produtores endividados, especialmente aqueles afetados por eventos climáticos ou oscilações nos preços do setor agropecuário.

    Detalhes da medida: condições especiais para o campo

    Segundo o Ministério da Fazenda, a MP estabelece condições diferenciadas para agricultores familiares e médios produtores, incluindo prazos estendidos e taxas de juros reduzidas. A proposta também prevê mecanismos para lidar com perdas decorrentes de secas, geadas ou quedas abruptas nos preços das commodities, como soja e milho, que têm pressionado o setor nos últimos anos.

    Quem participou das negociações

    A reunião que selou o acordo contou com a presença de ministros da Fazenda e de Relações Institucionais, além de líderes governistas e parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Entre os participantes estavam os ministros Dario Durigan (Fazenda) e José Guimarães (Relações Institucionais), o líder do governo na Câmara, deputado Paulo Pimenta (PT), e os deputados Arnaldo Jardim (Cidadania) e a senadora Tereza Cristina (PP), ex-ministra da Agricultura. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), destacou que a medida busca aliviar a pressão sobre o setor sem comprometer a sustentabilidade fiscal do país.

    Impacto para o agro: alívio imediato ou solução temporária?

    Enquanto a MP é celebrada por setores do agronegócio como um passo necessário para evitar a quebra de pequenos e médios produtores, críticos apontam que a medida pode postergar problemas estruturais, como a baixa competitividade de culturas não-alinhadas às demandas globais. A expectativa é que a medida seja editada nos próximos dias, com vigência imediata, mas dependerá de aprovação do Congresso em até 120 dias para não perder validade.

  • Grutos disparam na Bolsa de Chicago: seca nos EUA e demanda chinesa elevam preços a patamares históricos

    Grutos disparam na Bolsa de Chicago: seca nos EUA e demanda chinesa elevam preços a patamares históricos

    Clima nos EUA e demanda chinesa impulsionam alta nos grãos

    A Bolsa de Chicago encerrou a segunda-feira (6 de julho de 2026) com fortes valorizações nos principais contratos futuros de grãos, refletindo um cenário de incerteza climática e expectativas de maior demanda internacional. Segundo a DATAGRO, a soja subiu 4,5%, o milho avançou 3,7% e o trigo fechou com ganho de 2,6%, com o movimento sendo puxado pela seca que afeta o oeste do Corn Belt — a região mais produtiva dos Estados Unidos — e pela projeção de um aumento nas exportações para a China.

    Safra 2026/27 em risco: impacto nas lavouras e nos custos globais

    O momento é crítico para o desenvolvimento das lavouras norte-americanas, com produtores, exportadores e investidores monitorando as condições climáticas nas próximas semanas. A seca prolongada na principal região agrícola dos EUA reduz as perspectivas de produtividade, enquanto a demanda chinesa — principal importadora de grãos — segue em alta, pressionando os preços para cima. Especialistas alertam que, se o cenário se mantiver, os custos globais de alimentos podem sofrer novo impacto, especialmente em países dependentes de importações.

    O que esperar dos mercados nas próximas semanas?

    Com a safra 2026/27 ainda em fase inicial nos EUA, a volatilidade no mercado de grãos deve persistir. Analistas da DATAGRO destacam que, além do clima, fatores como políticas comerciais chinesas e estoques globais serão determinantes para a formação de preços. Enquanto isso, países como Brasil e Argentina — principais concorrentes no abastecimento global — podem se beneficiar da alta, mas também enfrentam desafios climáticos próprios.

  • Plano Safra 2026/27: R$ 525 bilhões em crédito rural, mas agronegócio exige mais

    Plano Safra 2026/27: R$ 525 bilhões em crédito rural, mas agronegócio exige mais

    O Plano Safra 2026/27, lançado pelo Governo Federal em 30 de junho de 2026, destina R$ 525,1 bilhões ao crédito rural para médios e grandes produtores, um recorde nominal com acréscimo de R$ 9 bilhões em relação à safra anterior. O programa, anunciado em cerimônia em Brasília com participação do presidente em exercício, Geraldo Alckmin, e do ministro da Agricultura, André de Paula, chega em um momento crítico para o agronegócio brasileiro, assolado por margens cada vez mais reduzidas, perdas por eventos climáticos e um endividamento crescente.

    Mais recursos, mas insuficientes para a crise do setor

    Embora o montante represente um aumento nominal, produtores e especialistas apontam que os recursos ainda são insuficientes diante dos desafios estruturais. O crédito rural enfrenta pressões por parte do setor, que exige não apenas mais dinheiro, mas também condições mais favoráveis para lidar com o aumento dos custos de produção, a crise climática e a necessidade de modernização das lavouras.

    Onde o dinheiro vai? Juros menores, mas com restrições

    O plano prevê a redução das taxas de juros para alguns segmentos, como o Programa de Modernização da Agricultura e Conservação de Recursos Naturais (Moderagro), que teve a taxa reduzida de 8,5% para 7% ao ano. No entanto, a oferta de crédito continua concentrada em médios e grandes produtores, deixando pequenos agricultores em situação ainda mais vulnerável. Além disso, o ambiente de crédito segue restritivo, com bancos aumentando as exigências para concessão de empréstimos.

    Agronegócio: pilar da economia em xeque?

    O setor responde por quase um quarto do PIB brasileiro, mas enfrenta um paradoxo: enquanto o Plano Safra amplia recursos, a rentabilidade das lavouras segue em queda. A safra 2025/26 já registrou perdas significativas por conta de secas e geadas, e a expectativa é de que a crise climática continue impactando as safras futuras. Com a necessidade de investimentos em tecnologia e sustentabilidade, a pressão por mais recursos deve aumentar nos próximos meses.

    Críticas e cobranças do setor

    Lideranças do agronegócio, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), já haviam cobrado do governo um plano mais robusto, com maior participação do BNDES e linhas de crédito específicas para recuperação de áreas degradadas e adaptação às mudanças climáticas. A expectativa é de que, mesmo com o novo Plano Safra, o setor continue pressionando por políticas públicas mais agressivas para garantir sua competitividade e sustentabilidade.

  • El Niño extremo em 2026: como o superfenômeno pode derrubar safras e inflar preços globais

    El Niño extremo em 2026: como o superfenômeno pode derrubar safras e inflar preços globais

    O alerta vermelho do Pacífico que sacode a agricultura global

    Na última quarta-feira, 17 de junho de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) acendeu o sinal de alerta: o El Niño que se forma no Oceano Pacífico não é qualquer um. Há 63% de probabilidade de que ele atinja níveis extremos — o chamado ‘super El Niño’ — até o próximo ano. Para os produtores rurais, especialmente nos trópicos, o cenário é de tempestade perfeita. Secas severas e chuvas irregulares já começam a minar safras estratégicas como cacau, café e açúcar, enquanto a economia global, ainda fragilizada por crises geopolíticas, sente o impacto imediato nos preços das commodities.

    Do Pacífico aos supermercados: como o fenômeno reconfigure o clima e os mercados

    O El Niño é um ciclo natural que surge a cada dois a sete anos, quando os ventos alísios — responsáveis por distribuir calor e umidade na Terra — perdem força, permitindo que as águas superficiais do Pacífico equatorial se aqueçam de forma anormal. O resultado? Uma reconfiguração radical do clima global. Historicamente, episódios intensos como o esperado para 2026 já provocaram quebras de safra na América Latina, África e Ásia, com reflexos diretos no abastecimento mundial.

    Os primeiros sinais já são visíveis: na Costa do Marfim, maior produtor de cacau, as colheitas estão abaixo do esperado devido à seca prolongada. Na Colômbia, os cafeicultores enfrentam perdas de até 30% em algumas regiões, enquanto no Brasil, o maior exportador de açúcar, o medo é de redução na produtividade das lavouras de cana-de-açúcar, pressionando os preços do etanol e do adoçante nas prateleiras.

    Economia em xeque: custos de produção em alta e estoques em queda

    O problema não para no campo. O ‘super El Niño’ chega em um momento em que os produtores já lutam contra a alta dos insumos. O diesel, essencial para maquinário agrícola, e os fertilizantes, cuja produção depende de gás natural (cujo preço subiu com as tensões no Oriente Médio), estão mais caros do que nunca. No Brasil, por exemplo, o custo de produção da soja aumentou 22% em 2025, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). Com a oferta de alimentos ameaçada e a demanda global em ascensão, a inflação de alimentos — já em 8,5% no acumulado de 12 meses até maio de 2026 — pode piorar ainda mais.

    Analistas do Banco Mundial já alertam para um possível ‘efeito dominó’ nos mercados internacionais. A queda na produção de cacau, cujo preço disparou 40% desde janeiro, pode levar a indústria de chocolates a reajustar preços ou até mesmo reduzir porções. No caso do café arábica, a escassez pode beneficiar temporariamente produtores de robusta, mas em longo prazo, a qualidade do grão tende a cair, afetando blends premium. Já para o açúcar, a perspectiva é de escassez em 2027, segundo a Organização Internacional do Açúcar (ISO), o que pode levar países importadores a buscar alternativas, como o milho, elevando ainda mais os preços da ração animal.

    O que esperar dos próximos meses?

    Ainda há incertezas sobre a intensidade do fenômeno, mas os modelos da NOAA indicam que o pico do El Niño deve ocorrer entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027. Para os governos, a recomendação é clara: investir em irrigação, estoques estratégicos e diversificação de culturas para mitigar os danos. Já para os consumidores, a lição é de que a crise climática não é um problema futuro — é uma realidade que já bate à porta, com preços mais altos e prateleiras menos abastecidas.

    A única certeza, ao menos por ora, é que 2026 será um ano de ajustes forçados. E 2027, se o ‘super El Niño’ se confirmar, pode ser ainda mais turbulento.

  • Leilões de terras rurais batem recorde: dívidas agrícolas explodem com crise climática e juros altos

    Leilões de terras rurais batem recorde: dívidas agrícolas explodem com crise climática e juros altos

    Crédito rural em colapso: um quinto dos empréstimos já é problemático

    Dados compilados pela Reuters revelam que os leilões de fazendas confiscadas por credores atingiram patamares inéditos no país, com o crédito rural problemático representando quase 20% do total de empréstimos em aberto. A escalada da inadimplência, impulsionada por juros fixados em 15% ao ano, expõe a fragilidade do setor diante de uma crise que já dura anos. Produtores e analistas associam o fenômeno ao encarecimento do crédito, à queda nos preços das commodities e aos custos de produção cada vez mais insustentáveis.

    Rio Grande do Sul: o estado que afunda junto ao agronegócio

    O Rio Grande do Sul, que sofreu inundações catastróficas em 2024 — agravadas pelas mudanças climáticas e pelo El Niño —, é hoje um dos epicentros da crise. A combinação de perdas agrícolas, dívidas acumuladas e a perspectiva de um ‘super El Niño’ em 2026 ameaça reduzir ainda mais a renda dos agricultores, que já enfrentam margens de lucro cada vez mais apertadas. Segundo relatos de produtores ouvidos pela Reuters, muitos já não conseguem honrar seus compromissos, acelerando o processo de leilões judiciais.

    Agricultura em xeque: fertilizantes caros e plantios reduzidos

    A alta dos preços dos fertilizantes, impulsionada pelos conflitos geopolíticos — como a guerra no Irã —, forçou muitos agricultores a reduzirem seus planos de plantio. Com a renda em queda livre e os custos em disparada, a capacidade de investimento no setor encolhe, deixando o Brasil em uma encruzilhada: ou o governo intervém com políticas de renegociação de dívidas e subsídios, ou o número de propriedades leiloadas continuará batendo recordes.

    O futuro do agro: entre a renegociação e o colapso

    Especialistas alertam que, sem medidas urgentes, a crise pode se aprofundar até o final de 2026. A perspectiva de um fenômeno climático ainda mais intenso — o ‘super El Niño’ — ameaça destruir safras inteiras, enquanto os juros altos mantêm o crédito agrícola inacessível para a maioria. A pergunta que fica é: até quando o agronegócio brasileiro, pilar da economia nacional, resistirá sem um plano de socorro concreto?

  • FAEP aciona governo: corte de R$ 461,7 milhões no seguro rural ameaça gestão de risco do agro

    FAEP aciona governo: corte de R$ 461,7 milhões no seguro rural ameaça gestão de risco do agro

    Na última quarta-feira, 10 de junho de 2026, o Sistema FAEP formalizou um pedido de revisão ao governo federal para reverter o corte de R$ 461,7 milhões no orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) para este ano. A medida, segundo a entidade, põe em xeque uma das principais estruturas de gestão de risco do agronegócio brasileiro, justamente quando a instabilidade climática se intensifica.

    Seguro rural: o escudo contra a volatilidade climática

    A FAEP destaca que o PSR atua como um mecanismo vital para proteger a renda dos produtores e assegurar a continuidade produtiva das propriedades diante de fenômenos como secas, geadas, chuvas excessivas e outras adversidades que têm assolado as safras nos últimos anos. Com a redução de recursos, a entidade teme que o acesso às apólices subvencionadas seja limitado, reduzindo a cobertura do seguro em regiões estratégicas para o agro nacional.

    Risco de colapso na cadeia produtiva

    Na avaliação da federação, a desestruturação do PSR não apenas fragiliza a segurança financeira dos produtores, mas também ameaça a estabilidade de toda a cadeia produtiva. Com menos recursos disponíveis, o seguro rural perde capacidade de absorver perdas em larga escala, o que pode desencadear um efeito dominó de inadimplência, redução de investimentos e queda na produtividade em setores-chave da economia brasileira.

    O que o governo responde?

    Até o momento, não há posicionamento oficial do Ministério da Agricultura ou da equipe econômica sobre o pleito da FAEP. A pasta, entretanto, tem reiterado em comunicados recentes que a revisão orçamentária busca priorizar gastos essenciais diante das restrições fiscais. A pressão do setor agropecuário, entretanto, sinaliza que o tema deve ganhar dimensão política nos próximos dias, especialmente em um ano eleitoral para o agronegócio.

  • Justiça suspende cobrança de R$ 12,2 milhões contra produtor mineiro em dívida com Banco do Brasil

    Justiça suspende cobrança de R$ 12,2 milhões contra produtor mineiro em dívida com Banco do Brasil

    A Justiça de Minas Gerais concedeu uma vitória simbólica e financeira a um produtor rural de Patrocínio (MG) — polo nacional de grãos —, ao suspender a cobrança de R$ 12.254.030,50 em dívidas vinculadas a contratos de crédito rural com o Banco do Brasil. A decisão, proferida em 27 de maio de 2026 pela 1ª Vara Cível da comarca, impediu temporariamente medidas coercitivas enquanto o processo judicial tramita, garantindo ao agricultor alívio temporário diante de uma dívida que, segundo a instituição financeira, já se encontrava em situação crítica.

    A crise no campo que selou a decisão

    A juíza responsável pelo caso, Dra. Mariana Costa, fundamentou a suspensão na comprovação de que o produtor foi severamente afetado por uma confluência de fatores: eventos climáticos adversos — como estiagens prolongadas e geadas entre 2022 e 2025 —, além da escalada nos custos de produção (insumos, combustível e mão de obra) e a queda vertiginosa nos preços das commodities agrícolas. Segundo os autos, o agricultor havia protocolado pedidos administrativos de renegociação das dívidas junto ao banco antes de ingressar na Justiça, mas não obteve resposta satisfatória.

    Um precedente para o agronegócio brasileiro?

    O caso ganha relevo em um momento em que o setor rural enfrenta sua pior crise em décadas. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que, entre 2022 e 2024, a rentabilidade média dos produtores encolheu 40% devido a fatores externos — como a valorização do dólar frente ao real, que encareceu insumos importados, e a queda nos preços do milho e da soja no mercado internacional. A decisão em Patrocínio pode abrir precedentes para milhares de outros produtores que buscam judicialmente revisar contratos bancários sob a alegação de força maior ou teoria da imprevisão.

    O que muda para o produtor e o Banco do Brasil?

    Até que a Justiça julgue o mérito da ação, o produtor está livre da pressão imediata por pagamentos, o que lhe permite reorganizar suas finanças sem o risco de penhoras ou execuções. Para o Banco do Brasil, a decisão representa um duplo desafio: o ônus de provisionar perdas em seus balanços — já pressionados pela alta inadimplência no crédito rural — e a necessidade de revisar critérios de concessão de empréstimos para produtores em regiões vulneráveis climaticamente. Especialistas do setor bancário ouvidos pela reportagem destacam que, em um cenário de juros altos e safras cada vez mais imprevisíveis, as instituições financeiras podem ser obrigadas a adotar modelos de crédito mais flexíveis, com garantias estendidas ou seguros agrícolas obrigatórios.

    O caso segue em andamento na Justiça mineira, mas já acende um alerta para o governo federal: a ausência de políticas públicas robustas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas no campo pode transformar a crise atual em um passivo social de proporções ainda maiores — não apenas para os produtores, mas para toda a cadeia de abastecimento do país.

  • Farsul impõe 12 condições para securitização de R$ 171 bi da dívida rural: juros abaixo de 9%, 15 anos de prazo e inclusão de todos os credores

    Farsul impõe 12 condições para securitização de R$ 171 bi da dívida rural: juros abaixo de 9%, 15 anos de prazo e inclusão de todos os credores

    A disputa pelo futuro da dívida rural brasileira entrou em uma fase crítica. Nesta quinta-feira (21), a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) levou ao Congresso Nacional um plano detalhado de 12 pontos para viabilizar a securitização de R$ 171 bilhões em créditos estressados no setor agropecuário gaúcho — um volume que, segundo a entidade, pode dobrar em 12 meses se nenhuma medida estrutural for adotada.

    A lista de exigências: juros, prazos e abrangência

    Entre as condições impostas pela Farsul, destacam-se três eixos centrais: um teto de 8,5% nos juros (equivalente à taxa neutra do Banco Central), um prazo mínimo de 15 anos para quitação — com carência real antes da primeira parcela — e a inclusão de dívidas contraídas fora do sistema bancário tradicional. Segundo a entidade, juros acima de 10% tornam qualquer securitização insustentável, enquanto prazos curtos sufocam o fluxo de caixa de produtores já fragilizados.

    Ainda no pacote, a Farsul exige que a medida contemple operadores como cooperativas de grãos, revendas de insumos e cerealistas — credores muitas vezes ignorados em renegociações anteriores. Outro ponto polêmico é a extensão às chamadas operações “mata-mata”, em que produtores contraíram novos empréstimos para pagar dívidas antigas. A data de corte proposta é 30 de abril de 2026, abarcando inclusive as renegociações da MP 1.314, que somam R$ 39 bilhões em recursos livres.

    O funding estrutural e a crítica à gestão de expectativas

    Embora não defenda uma fonte específica de financiamento, a Farsul deixa claro que a solução deve ter “caráter estrutural” — e aponta o Fundo Social do Pré-Sal como opção viável. A entidade foi direta em sua crítica: “Anúncios superlativos com recursos que não se materializam não são política pública — são gestão de expectativas”. A mensagem subliminar é clara: o governo não pode repetir os erros de pacotes anteriores, que muitas vezes se resumiram a promessas vazias.

    Crises climáticas e a raiz do endividamento

    A Farsul, que completará 100 anos em 2027, justifica os 12 pilares como resultado de “décadas de acompanhamento técnico” e afirma que cada medida foi testada em crises anteriores. O texto da entidade aponta as “crises climáticas sem precedentes” como o principal gatilho do atual endividamento: sucessivos episódios de estiagem e enchentes nos últimos anos deixaram o Rio Grande do Sul em uma situação de calamidade econômica prolongada. “O campo não pede privilégio; pede condição”, declarou a federação em tom de apelo aos parlamentares e à sociedade.

    Um apelo à ação parlamentar: “Estamos às vésperas de uma solução definitiva”

    A carta da Farsul não esconde o tom de urgência. Em trecho dirigido diretamente aos congressistas, a entidade afirma: “Estamos às vésperas de uma solução definitiva; contamos e precisamos de vocês”. A mensagem reflete a pressão do setor, que teme que o tema se perca em meio a outras prioridades legislativas. A securitização da dívida rural não é apenas uma questão econômica — é um teste para a capacidade do Estado de responder a crises sistêmicas com políticas públicas duradouras.

  • CAE adiia votação de crédito rural: governo trava batalha por convergência no Congresso

    CAE adiia votação de crédito rural: governo trava batalha por convergência no Congresso

    A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado adiou, nesta quarta-feira (20), a votação do Projeto de Lei 5.122/2023, que propõe uma linha especial de crédito para produtores rurais atingidos por eventos climáticos ou impactos econômicos de conflitos internacionais. A decisão veio após pedido do Ministério da Fazenda, que buscava mais tempo para costurar um acordo com parlamentares sobre o texto.

    Negociações em alta após pressão do Palácio do Planalto

    O relator da proposta, senador Renan Calheiros (MDB-AL), anunciou o adiamento após receber “reiterados telefonemas” do ministro da Fazenda, Dario Durigan, pedindo uma última tentativa de conciliação. Segundo Calheiros, o governo propôs novas alterações no relatório para incorporar emendas e, em seguida, solicitou um diálogo direto com a equipe econômica.

    — Nós estamos transferindo essa votação para após a reunião com o ministro da Fazenda — declarou o senador, destacando que o processo legislativo flui melhor pela negociação do que pela imposição. Uma reunião foi marcada para as 14h no Ministério da Fazenda, onde se espera um desfecho para o impasse.

    O que está em jogo? Conflito entre desenvolvimento rural e restrição fiscal

    A proposta, apresentada pelo deputado Domingos Neto (PSD-CE), autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal e de superávits de outros fundos do Ministério da Fazenda para financiar produtores rurais em crise. O texto prevê taxas de juros reduzidas, prazos de até dez anos com carência de três anos e critérios flexíveis para enquadramento de agricultores, cooperativas e associações afetados por calamidades ou perdas produtivas.

    No entanto, o adiamento reflete a tensão entre a necessidade de injetar liquidez no campo e as restrições fiscais do governo. O Ministério da Fazenda, que já enfrenta pressões para conter o déficit, vê no projeto um risco de desequilíbrio em suas contas, enquanto parlamentares do agro defendem a urgência da medida.

    Consequências para o agronegócio: entre a sobrevivência e a burocracia

    A postergação da votação mantém incerto o destino de milhares de produtores rurais que dependem do crédito para recuperar perdas. Sem a aprovação do PL, o acesso a recursos emergenciais segue restrito aos programas já existentes, como o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), cujos limites e condições nem sempre atendem às demandas dos pequenos e médios produtores.

    Para o setor, a proposta representa uma oportunidade de aliviar os prejuízos causados por secas, enchentes ou conflitos como a guerra na Ucrânia, que elevaram os custos de insumos e reduziram a competitividade. Já para o governo, trata-se de um desafio orçamentário em um ano de metas fiscais apertadas, especialmente após a flexibilização das regras do Arcabouço Fiscal.

    Próximos passos: o que esperar da reunião no Ministério da Fazenda?

    A expectativa agora é que a reunião desta tarde entre o relator, parlamentares e a equipe econômica defina o rumo do texto. Fontes ouvidas pela reportagem sugerem que o governo pode propor um substitutivo com fontes de financiamento alternativas ou até mesmo um sistema de garantias públicas para viabilizar os empréstimos.

    Enquanto isso, o adiamento da CAE deixa o setor agropecuário em estado de alerta. “Sem esse crédito, muitos produtores não terão como se reerguer”, afirmou um representante de cooperativa de Mato Grosso, estado que tem sofrido com a seca nos últimos meses. A pauta deve retornar à comissão após a decisão do Palácio do Planalto, mas o tempo urge para milhares de famílias que dependem da safra.