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  • Europa impõe veto a aditivos na nutrição do gado: como o Brasil reage à tempestade sanitária e comercial

    Europa impõe veto a aditivos na nutrição do gado: como o Brasil reage à tempestade sanitária e comercial

    A pecuária brasileira de corte enfrenta um dos seus maiores desafios diplomáticos e técnicos dos últimos anos. A União Europeia, principal destino da carne in natura do país — que exportou US$ 5,2 bilhões em 2023 —, anunciou a proibição total do uso de certos aditivos antimicrobianos em sistemas intensivos de produção, como confinamentos. A medida, que entra em vigor gradualmente a partir de 2025, coloca em xeque uma estratégia nutricional consolidada há mais de duas décadas no Brasil, ameaçando a competitividade do setor e exigindo uma reestruturação urgente em um dos pilares da agroindústria nacional.

    A virginiamicina no olho do furacão: por que a Europa mira um pilar da pecuária brasileira

    A decisão europeia tem como alvo principal a virginiamicina, um antimicrobiano amplamente utilizado em combinação com a monensina nos confinamentos brasileiros. Segundo Dhones Rodrigues de Andrade, doutor em zootecnia e supervisor técnico da Facholi Sementes e Nutrição, a associação desses dois aditivos é responsável por até 20% de ganho de eficiência produtiva em sistemas intensivos. Em dietas de alto grão — como aquelas baseadas em milho e soja —, a combinação garante não apenas maior ganho de peso, mas também reduz distúrbios metabólicos como acidose ruminal, um problema comum em animais alimentados com alta energia.

    “A monensina já é permitida na Europa, mas a virginiamicina não. Quando a gente fala em dietas desafiadoras, essa associação é quase que obrigatória para manter a performance animal e a saúde do rebanho”, explica Andrade. Sem alternativas imediatas, o setor enfrenta um cenário de perda de produtividade e aumento de custos — uma equação que pode inviabilizar economicamente muitos confinamentos, especialmente aqueles que dependem de financiamentos internacionais ou de contratos de exportação com a UE.

    Corrida contra o relógio: Uruguai, Chile e Argentina já se adiantaram — e o Brasil corre atrás

    Enquanto o Brasil ainda debate alternativas técnicas e negociações diplomáticas, países como Uruguai, Chile e Argentina já implementaram protocolos mais rígidos de rastreabilidade e restrição ao uso de antimicrobianos. A Argentina, por exemplo, proibiu a virginiamicina em 2021 e já exporta carne certificada como “livre de promotores de crescimento”. O Uruguai, por sua vez, investiu em sistemas de rastreabilidade blockchain para garantir a conformidade com as normas europeias, conquistando vantagens comerciais no mercado premium.

    “Os europeus já têm uma lista de países que já se adequaram. O Brasil está na fila de espera, e isso é perigoso”, alerta Andrade. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), o bloco europeu responde por 25% das exportações brasileiras de carne bovina, com destaque para cortes premium como filé mignon e picanha. A perda desse mercado não só reduziria receitas como também poderia desvalorizar a carne brasileira no mercado global, já que os EUA e a China, principais concorrentes, já vêm ajustando suas práticas para atender às exigências europeias.

    O custo da transição: quem paga a conta da nova era na pecuária?

    A transição para um modelo sem antimicrobianos como a virginiamicina não será barata. Estima-se que o custo de produção possa aumentar entre 10% e 15% nos primeiros anos, devido à necessidade de reformular dietas, investir em probióticos e óleos essenciais como substitutos, e reforçar controles sanitários. Além disso, a rastreabilidade exigida pela UE — que inclui testes laboratoriais em 100% das partidas exportadas — adiciona mais um ponto de pressão sobre os frigoríficos e confinadores.

    “Não é só uma questão de substituir um aditivo por outro. É uma mudança de paradigma na nutrição animal”, afirma Andrade. Ele destaca que, em um primeiro momento, a produtividade pode cair entre 10% e 20% até que novas estratégias sejam validadas. Para os pequenos e médios confinadores, que já operam com margens apertadas, essa queda pode significar a inviabilização do negócio. Já as grandes indústrias, como JBS, Marfrig e Minerva, estão acelerando pesquisas com alternativas, como extratos vegetais e leveduras específicas, mas os resultados ainda estão em fase de testes.

    Diplomacia em jogo: o Brasil tem tempo suficiente para evitar o colapso?

    O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura e da Apex-Brasil, tenta negociar prazos mais flexíveis com a Comissão Europeia. A estratégia inclui apresentar estudos científicos que comprovem a segurança do uso controlado da virginiamicina — algo que a UE já rejeitou em outras ocasiões. Enquanto isso, o setor privado corre contra o tempo para desenvolver soluções técnicas viáveis.

    “A gente precisa mostrar que o Brasil tem um plano de transição, mas a Europa não costuma ceder. Eles querem erradicar qualquer uso de antimicrobianos como promotores de crescimento, e isso é uma realidade”, comenta Andrade. A pressão também vem de dentro: organizações de proteção animal e consumidores europeus, cada vez mais exigentes, veem com maus olhos a utilização de qualquer substância que possa ser associada ao desenvolvimento de resistência bacteriana — um tema sensível no Velho Continente.

    O que muda para o consumidor brasileiro e global?

    A médio prazo, a carne brasileira exportada para a Europa tende a se tornar mais cara — reflexo dos custos adicionais de produção e certificação. No mercado interno, a tendência é que os preços se ajustem conforme a demanda internacional, mas especialistas descartam uma escassez imediata. No entanto, a qualidade da carne pode ser impactada: sem os aditivos, o ganho de peso dos animais pode ser menor, e a textura da carne, menos macia — fatores que influem diretamente no valor percebido pelo consumidor.

    Para o Brasil, o cenário é de alerta máximo. A pecuária, que já enfrenta desafios como desmatamento e mudanças climáticas, agora precisa lidar com uma nova barreira não tarifária que pode redefinir as regras do jogo. “Se a gente não se preparar agora, a Europa vai fechar as portas para a nossa carne premium. E aí, quem perde não é só o pecuarista, é todo o agro brasileiro”, conclui Andrade.

  • Brasil brilha na Coffeex Istanbul 2026: diversidade, rastreabilidade e novas rotas comerciais em meio a reconhecimento global do café

    Brasil brilha na Coffeex Istanbul 2026: diversidade, rastreabilidade e novas rotas comerciais em meio a reconhecimento global do café

    A 8ª edição da Coffeex Istanbul, maior feira internacional dedicada ao café, encerrou-se no último dia 10 de maio com o Brasil como país destaque do evento. O pavilhão brasileiro, organizado em parceria entre o Consulado-Geral do Brasil em Istambul e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), reuniu produtores nacionais, importadores turcos e representantes do setor cafeeiro global para apresentar a diversidade da produção brasileira, inovações em rastreabilidade e oportunidades de comércio direto.

    Um palco para a diversidade e qualidade do café brasileiro

    O espaço brasileiro na feira não foi apenas uma vitrine, mas um laboratório de conexões. Com a presença do adido agrícola do Brasil na Turquia, Diego Rodrigues, o pavilhão funcionou como um hub institucional para empresários turcos interessados em grãos de alta qualidade, enquanto os produtores nacionais puderam ampliar seus contatos com importadores internacionais. A programação incluiu demonstrações de cafés especiais, palestras sobre controle de qualidade e discussões sobre cadeias de suprimentos sustentáveis.

    O Brasil levou à Turquia não apenas números, mas uma narrativa de excelência. O país, maior produtor e exportador mundial de café, apresentou uma produção marcada pela diversidade de origens, variedades e perfis de bebida. Desde os arábicas, tradicionalmente associados a bebidas de maior complexidade e fineza, até os canéforas — como o conilon e o robusta —, que vêm ganhando espaço em mercados de maior valor agregado graças a melhorias genéticas e práticas de cultivo inovadoras.

    A rastreabilidade como diferencial competitivo

    A participação brasileira na Coffeex Istanbul ocorreu em um ano simbólico para o setor. Em março de 2025, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução liderada pelo Brasil que estabeleceu o 1º de outubro como Dia Internacional do Café. A iniciativa, além de celebrar a bebida, reconhece a relevância econômica, social e ambiental da cadeia cafeeira global — um setor que emprega mais de 300 mil famílias no Brasil e movimenta milhões de sacas anualmente.

    Esse reconhecimento internacional reforça a importância da transparência na produção. No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) atua com rigor na fiscalização e controle de qualidade, por meio de mecanismos como registro e habilitação de estabelecimentos, coleta de amostras, análises laboratoriais oficiais e adoção de medidas fiscais quando necessário. Essas ações garantem não apenas a segurança do produto, mas também a confiança dos importadores em relação à rastreabilidade dos grãos brasileiros.

    Exportações em alta e o futuro do café nacional

    Os números da produção brasileira em 2025 — estimada em 56,5 milhões de sacas de 60 kg e exportações de 39,4 milhões de sacas — refletem a capacidade do país de atender à crescente demanda global por qualidade e volume. No entanto, o que realmente chamou a atenção na Coffeex Istanbul foi a capacidade de inovação do setor. Produtores brasileiros estão cada vez mais investindo em técnicas de pós-colheita, como fermentações controladas e secagem a vácuo, além de desenvolver variedades resistentes a pragas e adaptadas às mudanças climáticas.

    O café brasileiro não é mais apenas uma commodity, mas um produto de luxo. A feira em Istambul serviu como prova disso: enquanto compradores turcos e europeus buscavam grãos com certificações de origem e práticas sustentáveis, os exportadores brasileiros destacavam não apenas o sabor, mas a história por trás de cada xícara — desde o produtor familiar até as cooperativas que unem comunidades rurais.

    O que muda para o mercado global?

    A participação brasileira na Coffeex Istanbul 2026 sinaliza uma nova fase para o café mundial. Com o aumento da demanda por transparência e sustentabilidade, países como Turquia, Alemanha e Japão — principais compradores do café brasileiro — passam a exigir mais do que preço: querem saber a origem do grão, as condições de trabalho na lavoura e o impacto ambiental da produção.

    Para o Brasil, isso representa uma oportunidade de consolidar-se como fornecedor premium, mas também um desafio: manter os altos padrões de qualidade enquanto escala a produção. A resolução da ONU, que coloca o café sob os holofotes internacionais, pode ser o empurrão necessário para que o setor invista ainda mais em tecnologias de rastreabilidade e práticas regenerativas.

    Enquanto isso, no caldeirão de Istambul, uma coisa ficou clara: o café brasileiro não é mais um coadjuvante no cenário global — ele é a estrela principal.