Tag: Rio Grande do Sul

  • Exportações de ovos do Rio Grande do Sul explodem 30% no quadrimestre e se destacam em meio à instabilidade global

    Exportações de ovos do Rio Grande do Sul explodem 30% no quadrimestre e se destacam em meio à instabilidade global

    O Rio Grande do Sul consolidou-se como um dos principais players do Brasil no mercado internacional de ovos nos primeiros quatro meses de 2025. Os dados revelam um salto expressivo: 2.154 toneladas exportadas, volume 30,4% superior ao mesmo período de 2024, quando foram embarcadas 1.652 toneladas. A receita acompanhou o ritmo, atingindo US$ 7,8 milhões — um crescimento de 40,3% frente aos US$ 5,6 milhões registrados no ano anterior.

    A virada do setor avícola gaúcho: por que os ovos ganharam o mundo?

    Segundo José Eduardo dos Santos, presidente executivo da Organização Avícola do Rio Grande do Sul (Asgav/Sipargs), o desempenho reflete não apenas a capacidade produtiva do estado, mas também sua adaptação a um cenário global marcado por conflitos e instabilidades. “A crescente exportação de ovos e derivados do Rio Grande do Sul demonstra nossa relevância em manter o abastecimento internacional em tempos de crise”, explica. A afirmação ganha peso diante de projeções que indicam uma demanda firme, especialmente em mercados europeus e asiáticos, onde a proteína animal enfrenta pressões inflacionárias e restrições sanitárias.

    Frango segue estável, mas enfrenta obstáculos logísticos

    Paralelamente, o segmento de carne de frango — tradicional carro-chefe das exportações brasileiras — manteve-se estável no quadrimestre. O volume total exportado pelo estado foi de 254,9 mil toneladas, queda marginal de 0,4% em relação a 2024 (256 mil toneladas). Em abril, a retração foi de 0,7%, com 64,3 mil toneladas embarcadas. No entanto, a receita não acompanhou a mesma tendência: o faturamento avançou 5,1% em abril (US$ 125,8 milhões) e 6% no acumulado do período (US$ 488,1 milhões), totalizando US$ 460,6 milhões no mesmo intervalo do ano anterior.

    A discrepância entre volume e faturamento, segundo dos Santos, está ligada a fatores externos. “A crise no Oriente Médio impactou diretamente os embarques, obrigando a adoção de rotas alternativas e gerando atrasos. Mesmo assim, a demanda pelos nossos produtos permanece sólida na região”, comenta. As entidades do setor garantem que o Brasil continua cumprindo as exigências da União Europeia, mantendo o acesso a um dos mercados mais competitivos do mundo.

    O que esperar para o futuro?

    O avanço das exportações de ovos do Rio Grande do Sul não é um fenômeno isolado. Especialistas apontam para um movimento mais amplo no agro brasileiro, impulsionado pela busca de países por fornecedores estáveis em meio a crises de abastecimento. “A diversificação da pauta exportadora é estratégica. Enquanto o frango enfrenta desafios logísticos, os ovos ganham espaço por sua versatilidade e menor complexidade de armazenamento”, analisa um analista do setor, que preferiu não ser identificado.

    Para os próximos meses, a expectativa é de manutenção do ritmo, desde que não haja novos choques geopolíticos. Com investimentos em sanidade animal e logística, o Rio Grande do Sul pode não apenas sustentar, mas ampliar sua participação no mercado internacional — um sinal claro de que o agro brasileiro, mesmo em tempos turbulentos, continua a inovar e se adaptar.

  • Pepro comercializa 28% das 140,4 mil toneladas de arroz com casca em leilão da Conab

    Pepro comercializa 28% das 140,4 mil toneladas de arroz com casca em leilão da Conab

    Contexto: Pepro como ferramenta de política agrícola para o arroz

    O Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro), mecanismo gerenciado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), tem como objetivo equilibrar os preços do arroz no mercado interno, garantindo competitividade frente aos produtos importados e sustentando a renda dos produtores nacionais. Na última quarta-feira (13), o 2º leilão do ano para comercialização do produto com casca movimentou 140,4 mil toneladas, das quais apenas 39,4 mil toneladas — equivalente a 28% do total — foram efetivamente negociadas. Além do arroz gaúcho, originário de regiões como a Planície Costeira e a Zona Sul, também foram ofertadas 36,5 mil toneladas provenientes de Santa Catarina, estado que emergiu como principal fornecedor neste evento.

    Participação tímida: o que explica os 72% não comercializados?

    O presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, atribuiu a baixa comercialização à ausência de produtores das regiões estratégicas do estado no leilão. “As zonas Sul e Planície Costeira Interna não participaram mais uma vez, diferentemente das outras regiões que já haviam participado no primeiro leilão e agora complementaram a oferta”, afirmou. A justificativa técnica gira em torno da baixa demanda no mercado externo, o que teria desestimulado novos negócios. Contudo, especialistas do setor questionam se a estratégia adotada pela Conab está alinhada com a realidade produtiva, especialmente em um cenário de safra recorde no Rio Grande do Sul, que responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz.

    Impacto econômico: R$ 7,5 milhões em transações

    O valor total comercializado no leilão alcançou R$ 7,5 milhões, montante que, embora modesto frente ao potencial da safra gaúcha, representa uma injeção direta de recursos na cadeia produtiva. Segundo dados da Conab, o preço médio do produto com casca negociado foi de R$ 190 por tonelada, valor inferior ao praticado em leilões anteriores, reflexo da pressão por liquidez imediata por parte dos produtores e da baixa atratividade do mercado externo. “Os produtores estão buscando escoar estoques a qualquer preço, mas o mercado internacional não absorve o volume que necessitamos”, declarou Nunes, destacando a dependência do setor em relação às exportações, atualmente estagnadas frente à competitividade do arroz asiático.

    Perspectivas para o setor: entre estoques e incertezas

    A safra 2023/2024 do Rio Grande do Sul está estimada em 8,1 milhões de toneladas de arroz em casca, conforme projeção da Emater/RS. No entanto, a capacidade de armazenamento da região, historicamente tensionada, aliada à ausência de participação de regiões-chave nos leilões Pepro, acende um alerta para o acúmulo de estoques e a queda nos preços. “Sem a participação das zonas Sul e Planície Costeira, que concentram grande parte da produção de arroz de alta qualidade, o leilão perde efetividade”, avalia o economista agrícola da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Dr. Carlos Eduardo Schöffer. Ele ressalta que a estratégia de pulverizar as ofertas em múltiplos leilões pode não ser suficiente para evitar uma crise de preços, especialmente em um ano de safra recorde.

    Reações do mercado: críticas e alternativas

    Enquanto a Federarroz defende a continuidade do Pepro como mecanismo de sustentação de renda, críticos do modelo apontam para a necessidade de reformulações estruturais. “O Pepro é uma solução paliativa. O que o setor precisa é de políticas de longo prazo que ampliem o acesso a mercados internacionais e invistam em logística”, argumenta a analista de mercado da Safras & Mercado, Ana Luiza Leme. Ela destaca que, sem uma estratégia coordenada entre governo, produtores e tradings, o setor arroz brasileiro continuará vulnerável às flutuações de preços e à concorrência desleal de países como Tailândia e Vietnã, que dominam cerca de 30% do mercado global.

    O que vem pela frente: próximos leilões e desafios logísticos

    A Conab já anunciou a realização de novos leilões Pepro para os próximos meses, com previsão de ofertar até 500 mil toneladas até o final do ano. No entanto, a efetividade dessas operações dependerá diretamente da adesão dos produtores das regiões estratégicas e da retomada da demanda externa. Além disso, a logística de escoamento — especialmente em um estado como o Rio Grande do Sul, onde as estradas e portos enfrentam gargalos históricos — permanece como um nó crítico. “Mesmo com preços atrativos, se não houver condições de escoar a produção, o leilão não cumpre seu papel”, alerta o engenheiro agrônomo da Emater/RS, João Batista da Silva.

    Conclusão: Pepro cumpre papel, mas setor exige mudanças estruturais

    Embora o Pepro tenha se tornado um instrumento fundamental para garantir a comercialização mínima do arroz brasileiro, seu alcance é limitado por fatores como a fragmentação regional da produção e a ausência de uma política comercial agressiva no mercado internacional. A comercialização de apenas 28% das toneladas ofertadas no último leilão é um sintoma de um problema maior: a falta de integração entre os elos da cadeia produtiva. Enquanto o governo federal mantém o programa como principal ferramenta de apoio, especialistas defendem a necessidade de investimentos em infraestrutura, diversificação de mercados e incentivos à agregação de valor, como a produção de arroz parboilizado ou orgânico. Para os produtores, o desafio agora é conciliar a urgência de vender com a estratégia de longo prazo, sem sucumbir à pressão de preços cada vez mais baixos.

  • Rio Grande do Sul domina importação de pelo de porco: por que a China abastece a indústria gaúcha

    Rio Grande do Sul domina importação de pelo de porco: por que a China abastece a indústria gaúcha

    O fenômeno das importações gaúchas

    O Rio Grande do Sul não apenas se destaca na produção agropecuária, mas também se consolidou como o maior importador de pelo de porco do Brasil. Em 2025, o estado adquiriu 167,8 mil toneladas de cerdas suínas no mercado internacional, volume equivalente a 64,7% de todas as importações nacionais do insumo. O investimento financeiro nesse setor atingiu US$ 1,56 milhão, representando 63,1% do total movimentado pelo país. A predominância gaúcha nesse segmento revela uma dependência estratégica de insumos externos, mesmo sendo o terceiro maior produtor de carne suína do Brasil.

    A indústria de pincéis e a matéria-prima essencial

    A demanda por pelo de porco no Rio Grande do Sul está diretamente ligada à robustez de seu parque industrial voltado para a fabricação de ferramentas de pintura. As cerdas suínas, tecnicamente chamadas de cerdas, são a matéria-prima indispensável para a produção de ‘trinchas’ — os pincéis de pintura imobiliária e artística. Segundo Rafael Loose, gerente de Desenvolvimento de Produtos da Pincéis Atlas, a escolha por esse material natural deve-se à sua estrutura única. Diferente das fibras sintéticas, a cerda suína possui uma morfologia escamada e pontas bifurcadas, capazes de reter e distribuir a tinta com maior eficiência. “É um processo que a tecnologia ainda não conseguiu replicar com perfeição”, afirma o especialista, destacando a impossibilidade de substituição integral por alternativas artificiais.

    Por que o rebanho local não atende à demanda?

    A disparidade entre a produção de carne suína gaúcha e a importação de cerdas para pincéis revela um paradoxo do agronegócio regional. Embora o estado seja o terceiro maior produtor de suínos do Brasil, o rebanho local não é adequado para a extração das cerdas industriais. Rogério Kerber, diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS (Sips), explica que o pelo de animais jovens — destinados ao abate precoce para atender ao mercado de carne — é excessivamente macio. Para a fabricação de pincéis de qualidade, são necessárias cerdas mais fortes, resistentes e longas, características encontradas apenas em animais mais velhos. “O foco do agronegócio gaúcho é a exportação de carne de alta qualidade, o que inviabiliza a manutenção de rebanhos para a extração de cerdas”, comenta Kerber.

    A China como principal fornecedora e os desafios logísticos

    A China domina o fornecimento de cerdas suínas para o Rio Grande do Sul, respondendo pela totalidade das importações do estado. O fluxo comercial, no entanto, enfrenta desafios logísticos significativos. O transporte marítimo a partir da Ásia, combinado com trâmites alfandegários, pode atrasar a chegada do insumo em até 45 dias. Além disso, a volatilidade cambial e as flutuações nos preços internacionais do produto impactam diretamente os custos da indústria gaúcha. “Em 2024, por exemplo, o preço da cerda chinesa subiu 18% devido a restrições sanitárias na origem”, relata um executivo do setor, que preferiu não ser identificado. A dependência exclusiva do mercado asiático também expõe a indústria a riscos geopolíticos, como sanções ou mudanças abruptas nas políticas comerciais.

    Alternativas em discussão e o futuro do setor

    Diante da dependência externa, algumas empresas gaúchas já estudam soluções para reduzir a vulnerabilidade. A Pincéis Atlas, por exemplo, investe em pesquisa para desenvolver pincéis híbridos, combinando cerdas suínas com fibras sintéticas de alta performance. “O objetivo é criar um produto 70% natural e 30% sintético, mantendo a qualidade e reduzindo custos”, explica Loose. Outra possibilidade é a importação de cerdas de países europeus, como Alemanha e Itália, onde a tradição na criação de suínos para cerdas persiste. No entanto, esses mercados cobram preços até 30% superiores aos da China, o que limita a viabilidade econômica.

    Enquanto isso, o Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS (Sips) negocia com o governo estadual a implementação de incentivos fiscais para produtores que mantenham rebanhos específicos para a extração de cerdas. “Precisamos repensar a cadeia suína gaúcha, valorizando os animais de ciclo longo”, defende Kerber. Até que essas alternativas se concretizem, o Rio Grande do Sul seguirá como o grande importador de pelo de porco do Brasil, pagando um preço alto — em dólar e em dependência externa — para abastecer uma indústria que não pode parar.

    Contexto histórico: a evolução da indústria de pincéis no Brasil

    A relação entre o Rio Grande do Sul e a importação de cerdas suínas remonta ao século XIX, quando imigrantes europeus — especialmente alemães — estabeleceram as primeiras fábricas de pincéis no estado. Na época, a matéria-prima era obtida localmente, com rebanhos criados especificamente para a extração das cerdas. No entanto, a industrialização acelerada e a demanda crescente por carne suína nos anos 1950 e 1960 levaram ao abate precoce dos animais, eliminando a possibilidade de produção local de cerdas.

    A partir da década de 1980, com a abertura econômica e a globalização, o Brasil passou a importar cerdas da China e da Coreia do Sul, consolidando o modelo atual. Hoje, o país importa cerca de 260 mil toneladas de cerdas por ano, sendo que 64,7% desse volume tem como destino o Rio Grande do Sul. A dependência externa, no entanto, não é exclusividade gaúcha: estados como São Paulo e Paraná também importam cerdas, mas em volumes significativamente menores, focados em nichos específicos do mercado, como pincéis para pintura automotiva.

    Impacto econômico e perspectivas para 2026

    A indústria de pincéis no Rio Grande do Sul movimenta cerca de R$ 1,2 bilhão anualmente, empregando diretamente 8 mil pessoas. A importação de cerdas, embora represente um custo adicional, é vista como um mal necessário pela maioria dos empresários do setor. “Sem a cerda chinesa, não teríamos como manter a competitividade”, afirma Maria Helena Rodrigues, presidente da Associação das Indústrias de Ferramentas de Pintura do RS (Aifep). No entanto, a alta nos custos dos últimos dois anos — impulsionada pela desvalorização do real frente ao dólar e pelo aumento dos fretes internacionais — já levou ao fechamento de três pequenas fábricas no estado.

    Para 2026, as perspectivas são de estabilidade, mas com riscos. A expectativa é de que as importações se mantenham no patamar atual, a menos que haja uma mudança drástica na política industrial ou no perfil do rebanho suíno gaúcho. Enquanto isso, os empresários seguem apostando em inovações para reduzir a dependência do insumo importado, mas o caminho é longo e cheio de obstáculos.