Tag: combustíveis

  • Boulos exige transparência total: projeto obriga postos a detalhar composição do preço da gasolina na nota fiscal

    Boulos exige transparência total: projeto obriga postos a detalhar composição do preço da gasolina na nota fiscal

    A Câmara dos Deputados examina o Projeto de Lei 4788/25, que altera a Lei 12.741/12 (Lei do Imposto na Nota) para obrigar os postos de combustíveis a detalhar, em tempo real, a composição do preço final cobrado ao consumidor. A proposta, de autoria do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP), ganhou urgência parlamentar em e poderá ser votada diretamente no Plenário do Congresso.

    Cinco componentes obrigatórios na nota fiscal

    O projeto exige que os recibos ou notas fiscais eletrônicas emitidos nos postos incluam cinco informações detalhadas por litro de combustível:

    • Valor do produtor ou importador (custo da refinaria);
    • Custo do biocombustível adicionado (etanol anidro na gasolina ou biodiesel no diesel);
    • Tributos e impostos federais;
    • Tributos e impostos estaduais;
    • Margem de lucro das distribuidoras e dos postos de combustíveis.

    Transparência como ferramenta contra a especulação

    A justificativa apresentada pelo autor do projeto destaca que a falta de clareza na composição dos preços dos combustíveis facilita práticas abusivas e impede que o consumidor identifique o peso real dos tributos e margens de lucro no valor final. Segundo Boulos, a medida visa aumentar a concorrência no setor e reduzir distorções nos preços praticados, especialmente em um contexto de alta inflação nos combustíveis.

    Impacto imediato no setor e no bolso do motorista

    Se aprovado, o projeto obrigará os cerca de 40 mil postos de combustíveis do país a adaptarem seus sistemas de emissão de notas fiscais para incluir as cinco informações exigidas. A medida pode gerar mudanças significativas nos preços praticados, caso a transparência revele margens de lucro excessivas ou distorções na cadeia de distribuição.

  • MPF aciona Justiça para barrar gasolina E32: riscos aos motores e indenização bilionária entram na pauta

    MPF aciona Justiça para barrar gasolina E32: riscos aos motores e indenização bilionária entram na pauta

    Governança energética em xeque: MPF desafia política de combustíveis

    O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com ação civil pública para impedir a comercialização da gasolina E32 — mistura com 32% de etanol anidro — a partir de 1º de agosto, data definida pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 14 de julho. Segundo o órgão, a decisão não apresenta estudos suficientes que garantam a segurança dos motores nacionais, colocando em risco milhões de veículos em circulação. A ação, que pede liminar imediata, também exige perícia independente e indenização de R$ 500 milhões por danos morais coletivos.

    Base técnica sob suspeita: margem de 2% é alvo de críticas

    A União justificou a ampliação da mistura de 30% para 32% com base em ensaios técnicos que, segundo o MPF, extrapolam a margem de segurança prevista para a gasolina E30. O órgão argumenta que os dados usados pelo governo são insuficientes para validar a E32, especialmente em motores mais antigos ou adaptados para baixas concentrações de etanol. A polêmica reacende o debate sobre a transição energética no setor automotivo brasileiro, impulsionada pela Lei do Combustível do Futuro.

    Impacto imediato: consumidores e indústria na mira do impasse

    A eventual suspensão da medida poderia adiar a implementação da E32, mas também expõe fragilidades na governança de políticas públicas que impactam diretamente o bolso do consumidor. Enquanto o governo defende a medida como parte de sua estratégia de descarbonização, o MPF alerta para potenciais prejuízos aos proprietários de veículos e ao meio ambiente. A Justiça agora terá 30 dias para analisar a liminar e decidir sobre os próximos passos.

  • Etanol volta a cair em SP mesmo com aumento na mistura da gasolina

    Etanol volta a cair em SP mesmo com aumento na mistura da gasolina

    As cotações do etanol seguem em trajetória descendente no mercado paulista, pressionadas pela oferta abundante e pela demanda enfraquecida. A tendência contrasta com a medida anunciada na última terça-feira, 14 de julho, quando o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, válido a partir de 1º de agosto.

    Demanda em baixa e oferta controlada

    Apesar da decisão do CNPE, que tem validade inicial de 180 dias (com possibilidade de prorrogação), o mercado não reagiu positivamente. Segundo o Cepea, distribuidoras reduziram os volumes adquiridos em São Paulo na semana passada, enquanto em outros estados os estoques foram negociados com descontos ainda maiores para escoar a produção.

    Fatores sazonais ampliam a pressão

    A queda nos preços é agravada pelo período de férias escolares, que reduz o fluxo de veículos e, consequentemente, o consumo de combustível. A combinação de oferta crescente — impulsionada por safras recentes — e demanda retraída mantém as cotações em queda livre, mesmo com a expectativa de maior participação do etanol na gasolina nos próximos meses.

  • Gasolina com 32% de etanol: mais economia ou mais problemas para 30 milhões de motoristas?

    Gasolina com 32% de etanol: mais economia ou mais problemas para 30 milhões de motoristas?

    A decisão do CNPE e os riscos aos motores não-flex

    Na última semana, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) anunciou que, a partir de 1º de agosto de 2026, o teor de etanol na gasolina comum subirá de 30% para 32%. A medida, que afeta diretamente cerca de 30 milhões de veículos no Brasil — incluindo 5,5 milhões de carros não-flex (11% da frota, segundo o Sindipeças) —, foi criticada por associações como Abeifa, Anfavea e FBVA. O principal argumento é a ausência de estudos que comprovem a segurança da nova mistura para componentes como mangueiras, bicos injetores e filtros, especialmente em modelos mais antigos.

    Etanol como aditivo: um debate global mal adaptado ao Brasil

    Enquanto em mercados como a Europa o etanol é usado como aditivo em proporções menores (entre 5% e 10%), no Brasil ele já representa um terço do combustível vendido. A decisão de elevar esse percentual ignora as particularidades da frota nacional, composta por milhões de veículos não adaptados para altas concentrações do composto. Especialistas apontam que o aumento pode acelerar a corrosão de peças e reduzir a vida útil dos motores, além de elevação no consumo de combustível — um paradoxo em um país onde o etanol já é amplamente utilizado como alternativa.

    Economia na bomba vs. gastos com manutenção: quem paga a conta?

    O governo argumenta que a medida ajudará a estabilizar os preços da gasolina, beneficiando o consumidor final. No entanto, o cálculo não considera o impacto no bolso dos proprietários de veículos não-flex, que enfrentarão maiores despesas com manutenção ou a necessidade de migrar para a gasolina premium — uma opção mais cara e menos acessível. Em um cenário de inflação persistente e poder aquisitivo em queda, a decisão expõe uma tensão entre políticas energéticas e a realidade da frota brasileira.

    Alternativas em xeque: premium e a falta de opções

    Para os motoristas afetados, a gasolina premium surge como uma alternativa, mas com limitações claras. Além de custar até 30% mais, seu acesso é restrito a poucas redes de postos, majoritariamente em capitais. A medida, portanto, empurra milhões de brasileiros para um dilema: continuar usando gasolina com etanol em excesso e arriscar danos ao veículo, ou pagar mais caro por um combustível mais ‘seguro’ — mas inacessível para muitos.

  • ANP lança app para fiscalizar qualidade de postos de combustível: saiba como usar

    ANP lança app para fiscalizar qualidade de postos de combustível: saiba como usar

    A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) lançou na segunda-feira, 13 de julho de 2026, o aplicativo “ANP com VC – Postos”, uma ferramenta que promete revolucionar a fiscalização dos combustíveis no Brasil.

    Transparência na ponta do dedo: como funciona o app?

    O novo sistema permite que o consumidor pesquise a avaliação de postos próximos ou navegue por um mapa interativo, onde cada estabelecimento recebe uma nota de 0 a 5. Além de conferir a classificação, os usuários podem relatar irregularidades diretamente pela plataforma, contribuindo para um mercado mais transparente.

    Por que isso importa?

    Com a alta volatilidade dos preços dos combustíveis e a crescente demanda por qualidade, a iniciativa da ANP chega em um momento crucial. A fiscalização tradicional, muitas vezes lenta, agora ganha reforço com a participação ativa dos motoristas, que podem agir como fiscais do dia a dia.

    Como acessar e participar?

    O app está disponível para download em smartphones e pode ser acessado pelo site da ANP. Basta buscar pelo nome “ANP com VC – Postos” nas lojas virtuais ou pelo endereço oficial da agência.

  • Governo prepara aumento de etanol na gasolina para 32%: medida pode baixar preços e será votada em 15 dias

    Governo prepara aumento de etanol na gasolina para 32%: medida pode baixar preços e será votada em 15 dias

    O Ministério de Minas e Energia avança com uma proposta que pode redefinir o mercado de combustíveis no Brasil. Em reunião estratégica com o presidente Lula e líderes do setor de biocombustíveis no Palácio do Planalto na última quarta-feira, 10 de junho de 2026, o ministro Alexandre Silveira anunciou a intenção de elevar o teor de etanol na gasolina de 27% para 32%. A medida, que será submetida ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), busca atender a uma demanda histórica do setor sucroenergético e tem como meta reduzir o preço dos combustíveis nas bombas, além de fortalecer a segurança energética do país.

    Decisão técnica e cronograma acelerado

    Segundo o ministro, estudos técnicos da pasta já atestam a viabilidade da mudança, com margem de segurança para até 35% de etanol na mistura — patamar que, no entanto, não será implementado de imediato. Para Silveira, a elevação imediata para E32 (32%) já representa um avanço significativo, com impacto direto na redução dos custos de produção e, consequentemente, nos preços ao consumidor. A proposta será levada ao CNPE nos próximos 15 dias, onde será debatida entre os ministros e deliberada.

    Setor sucroenergético celebra e projeta benefícios

    Líderes do setor de biocombustíveis comemoraram a iniciativa, que deve aliviar os estoques de etanol e reduzir a dependência da gasolina importada. A medida também é vista como um passo rumo à consolidação da matriz energética brasileira, com maior protagonismo dos combustíveis renováveis. No entanto, especialistas alertam que os efeitos práticos nos preços dependerão da adesão dos postos e da política de preços da Petrobras, que ainda não se manifestou oficialmente sobre o tema.

  • Petrobras reajusta gasolina em R$ 0,48, mas governo abate 92% do impacto para consumidores

    Petrobras reajusta gasolina em R$ 0,48, mas governo abate 92% do impacto para consumidores

    Reajuste oficial e compensação governamental

    A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (29 de maio de 2026) um aumento de R$ 0,48 por litro na gasolina, elevando seu preço médio de R$ 2,57 para R$ 2,61. No entanto, o governo federal integrou a estatal ao programa de subvenção, aplicando um desconto de R$ 0,44 por litro, o que suaviza o impacto para as distribuidoras e repassadores.

    Efeitos práticos: queda de 27,6% em relação a 2022

    Para os consumidores, a gasolina C — composta por 70% de gasolina A e 30% de etanol — terá um acréscimo de apenas R$ 0,03 por litro nos postos, saindo de R$ 1,80 para R$ 1,83. Essa alta representa uma redução de 27,6% em comparação ao preço de R$ 2,53 registrado em 31 de dezembro de 2022, sinalizando uma estratégia de contenção de preços mesmo após 122 dias sem reajustes.

    Contexto econômico e reações do mercado

    O anúncio ocorre em um cenário de pressões inflacionárias persistentes, com o preço da gasolina abaixo da defasagem histórica. Especialistas avaliam que a medida busca evitar repasses significativos ao consumidor, ao mesmo tempo em que mantém a competitividade do combustível frente a alternativas como o etanol. Analistas do setor destacam que, embora o reajuste seja simbólico, ele reflete uma política de preços mais alinhada à realidade do mercado.

  • Petrobras bate recorde histórico: refinarias operam acima de 100% da capacidade em meio à crise global de combustíveis

    Petrobras bate recorde histórico: refinarias operam acima de 100% da capacidade em meio à crise global de combustíveis

    A Petrobras não apenas superou os limites de suas refinarias — ela os redefiniu. Em maio de 2026, as unidades da estatal operaram com 103% de capacidade, um recorde histórico que ecoa como resposta tanto às pressões geopolíticas quanto à estratégia governamental de reduzir a dependência de importações de combustíveis.

    O FUT além dos 100%: como a Petrobras quebrou a barreira da produção

    O Fator de Utilização Total (FUT) — indicador que mede a eficiência das refinarias — atingiu 103% em maio, segundo dados da própria Petrobras. Em março, o índice já havia alcançado 97,4%, o maior desde dezembro de 2014. A marca surpreendeu até mesmo os executivos da companhia: “A Petrobras não gosta de limites. Nossa meta é superá-los todos os dias”, declarou a presidente Magda Chambriard durante a apresentação do balanço trimestral, em 12 de maio.

    O diretor de Processos Industriais e Produtos, William França, detalhou o fenômeno em teleconferência com investidores: “De ontem para hoje, operamos com 103% nas nossas refinarias”. A explicação técnica reside na flexibilidade do cálculo do FUT, que permite superar 100% desde que a carga de processamento — e a aprovação da ANP — autorizem a operação além da capacidade de projeto.

    A guerra no Irã e o cálculo econômico por trás da superprodução

    A escalada do FUT não é mera coincidência. A guerra no Irã, que já desestabiliza os mercados globais de petróleo, criou um cenário favorável à Petrobras. “Quanto mais refinar o nosso petróleo, mais dinheiro a gente está ganhando”, afirmou França. Ao processar o óleo bruto internamente, a estatal agrega valor ao produto — transformando petróleo em gasolina, diesel e querosene de aviação (QAV) — e reduz as perdas com exportações de matéria-prima em bruto.

    Esse movimento alinha-se à política energética do governo federal, que busca aumentar a autossuficiência do Brasil em combustíveis. “Estamos agregando valor além das exportações do petróleo”, destacou o executivo, em referência à estratégia de verticalizar a cadeia produtiva e mitigar os impactos de crises internacionais.

    O que muda para os brasileiros e para o mercado?

    Para os consumidores, a superação da capacidade das refinarias pode significar uma oferta mais estável de combustíveis, reduzindo a volatilidade de preços. Afinal, o Brasil, que já importa parte de seus derivados, agora produz internamente volumes recordes. No entanto, especialistas alertam que a operação acima da capacidade projetada exige manutenções mais frequentes e pode pressionar os custos operacionais da Petrobras a médio prazo.

    Para o mercado, o recorde da Petrobras reforça a confiança na estatal como pilar da segurança energética nacional. Investidores, por sua vez, veem com otimismo a capacidade da companhia de maximizar seus ativos — mesmo em um contexto de incerteza global. “É um sinal claro de que a Petrobras está preparada para operar em alta performance”, avaliou um analista de mercado ouvido pela reportagem.

    Os riscos de operar no limite

    Embora o FUT acima de 100% seja tecnicamente viável, ele não está isento de riscos. As refinarias da Petrobras operam sob rígidos padrões de segurança, meio ambiente e qualidade dos derivados. William França garantiu que as aprovações da ANP são rigorosas, mas o ritmo acelerado de produção pode, em tese, aumentar a probabilidade de falhas operacionais ou emissões acima do previsto.

    Além disso, a estratégia de maximizar a produção interna de combustíveis depende diretamente da estabilidade do fornecimento de petróleo. Qualquer interrupção no fluxo de importações — seja por crises geopolíticas ou problemas logísticos — poderia comprometer o recorde recente.

  • Etanol em 32% na gasolina: montadoras e especialistas questionam decisão do governo sem testes adequados

    Etanol em 32% na gasolina: montadoras e especialistas questionam decisão do governo sem testes adequados

    Governos versus setor privado: uma disputa sem testes técnicos

    A decisão do governo federal de aumentar o percentual de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% — prevista para entrar em vigor em 2025 — reacendeu um debate acalorado entre autoridades e representantes do setor automotivo. Enquanto o Executivo defende a medida como um passo rumo à descarbonização da matriz energética brasileira, entidades como a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo) publicamente contestam a proposta, sob o argumento de que não há estudos técnicos suficientes para garantir sua segurança.

    O ponto mais crítico da discussão recai sobre a ausência de ensaios padronizados e homologatórios, previstos na legislação brasileira. Segundo a Abraciclo, a implantação do atual teor de 30% (E30) já teria causado problemas em motocicletas, como dificuldades de partida em baixas temperaturas e falhas na retomada de aceleração — situações que, além de reduzir o desempenho dos veículos, podem comprometer a segurança dos motociclistas. O engenheiro e jornalista automotivo Boris Feldman foi enfático: “Os impactos nas motos são muito mais graves do que nos automóveis. O governo está ignorando exigências legais para impor essa mudança”.

    O histórico da mistura etanol-gasolina no Brasil

    Desde a década de 1970, o Brasil adota a política de adição de etanol à gasolina como estratégia para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. A Lei 10.696/2003 estabeleceu o teor mínimo de 22% (E22) e permitiu ao governo federal ajustar o percentual conforme a oferta do biocombustível. Em 2015, o E27 foi implementado, e em 2022, durante o governo Bolsonaro, a medida foi elevada para E30 — decisão que, na época, também gerou polêmica entre montadoras e fabricantes de autopeças.

    No entanto, a transição para o E30 não foi isenta de problemas. Relatórios internos de fabricantes revelaram que alguns modelos de motocicletas sofreram danos em sistemas de injeção e ignição, especialmente em regiões de clima frio, como o Sul do país. A Abraciclo argumenta que o aumento para E32 poderia agravar esses efeitos, uma vez que o etanol possui menor poder calorífico que a gasolina, resultando em maior consumo e possíveis danos a componentes mecânicos.

    Responsabilidade técnica e riscos para os consumidores

    Outro aspecto levantado pelas entidades é a responsabilidade civil e técnica sobre eventual dano aos veículos. Segundo o Sindipeças, os componentes atualmente produzidos não foram projetados para operar com um teor de etanol superior ao atual. “Os motores e sistemas de injeção flexíveis são calibrados para E27 ou E30. Aumentar para E32 sem testes adequados é uma irresponsabilidade”, afirmou um representante da entidade, que preferiu não ser identificado.

    A Anfavea, que representa as montadoras, emitiu nota técnica reforçando a necessidade de estudos prévios. “Antes de qualquer alteração na composição do combustível, é fundamental realizar testes de durabilidade, emissões e desempenho em diferentes condições climáticas e de uso. A pressa não pode sobrepor a segurança”, declarou a entidade. Entre as montadoras, a Volkswagen e a Toyota já teriam manifestado preocupação em reuniões com o Ministério de Minas e Energia, embora ainda não tenham se pronunciado publicamente.

    Oposição do governo: Lula defende a medida

    Em defesa da proposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os testes necessários já haviam sido realizados. No entanto, Boris Feldman desmentiu a informação: “O presidente disse que os testes já foram feitos. É mentira. Não há documentação pública que comprove isso”. A Agência Nacional do Petróleo (ANP), responsável pela fiscalização dos combustíveis, também não divulgou relatórios detalhados sobre a viabilidade do E32.

    Fontes ouvidas pela reportagem, que atuam no setor de combustíveis, revelaram que a Petrobras, maior refinaria do país, teria realizado estudos internos, mas estes não teriam contemplado todos os cenários necessários — como o impacto em motores antigos e em condições extremas de uso. “A empresa segue as diretrizes do governo, mas a margem de risco é alta”, afirmou um executivo da estatal, sob condição de anonimato.

    O que dizem os especialistas em engenharia automotiva?

    O engenheiro mecânico Paulo Roberto Feldmann, professor da USP e especialista em motores, explicou que o aumento do teor de etanol pode causar superaquecimento em componentes como válvulas e câmaras de combustão. “O etanol tem uma temperatura de autoignição menor que a gasolina. Em motores projetados para E30, um salto para E32 pode levar a detonações prematuras e danos ao cabeçote”, alertou.

    Já o engenheiro químico Rodrigo Costa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destacou que a corrosão de peças metálicas e borrachas também é uma preocupação. “O etanol é mais ácido que a gasolina. Em motores mais antigos, isso pode acelerar a degradação de mangueiras e selos”, disse. Segundo Costa, a falta de transparência nos testes governamentais agrava o cenário: “Sem dados abertos para análise, como podemos garantir que não haverá prejuízos aos consumidores?”.

    Próximos passos: o que pode acontecer?

    Diante da pressão, o Ministério de Minas e Energia anunciou que promoverá audiências públicas para discutir a medida, mas não há previsão de adiamento da implementação para 2025. Enquanto isso, as entidades do setor automotivo estudam medidas judiciais e ações junto ao Congresso Nacional para barrar a decisão. A Abraciclo, por exemplo, já protocolou um ofício no ministério questionando a legalidade da proposta.

    Para os consumidores, a incerteza é o maior problema. “Se o governo mantiver a decisão sem estudos robustos, o risco de prejuízos materiais e acidentes aumenta. Além disso, a garantia dos veículos pode ser afetada”, afirmou um advogado especializado em direitos do consumidor. A reportagem tentou contato com o ministério para obter esclarecimentos, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

    Enquanto a batalha entre governo e setor privado se intensifica, uma coisa é certa: a decisão sobre o teor de etanol na gasolina não é apenas uma questão técnica — é uma jogada política com potenciais consequências para milhões de motoristas.