Autor: Roberto Neves

  • Casu Marzu: o queijo ‘vivo’ da Sardenha que divide a Europa entre proibição e paixão gastronômica

    Casu Marzu: o queijo ‘vivo’ da Sardenha que divide a Europa entre proibição e paixão gastronômica

    Da Sardenha para o mundo: a origem de um queijo ‘proibido’

    Produzido há séculos na ilha da Sardenha, o Casu Marzu é um queijo de leite de ovelha (Pecorino) que ganha sua fama — ou infâmia — quando moscas da espécie Piophila casei depositam seus ovos na massa ainda fresca. Após eclodirem, as larvas se alimentam do queijo, amolecendo-o e criando um produto de textura pastosa e sabor intenso, descrito por entusiastas como ‘explosivo’ e ‘adictivo’.

    Por que a Europa o proíbe? O lado B da iguaria

    A União Europeia classifica o Casu Marzu como ‘perigoso’ desde 2013, quando a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) emitiu alertas sobre os riscos de contaminação por bactérias como E. coli e Listeria, além de casos de alergias graves. O perigo não está apenas nas larvas, mas na possibilidade de partes do inseto sobreviverem ao processo digestivo, causando perfurações intestinais. Até hoje, não há registros oficiais de mortes, mas hospitais italianos relatam casos de pacientes com dores abdominais severas após consumi-lo.

    Um mercado clandestino milionário: quem arrisca e por quê?

    Apesar da proibição, o Casu Marzu movimenta um comércio ilegal estimado em milhões de euros anuais. Nas feiras subterrâneas de Cagliari, a capital sarda, o produto é vendido por até €50/kg — preço de ouro para um queijo que, segundo especialistas, não passa por mais de 24 horas de maturação antes do consumo. Os principais compradores são turistas aventureiros, colecionadores de experiências extremas e, surpreendentemente, chefs de restaurantes estrelados que o utilizam como ingrediente secreto em pratos ‘exclusivos’.

    O dilema cultural: tradição versus saúde pública

    A defesa do Casu Marzu vem de grupos como a Associazione Casu Marzu, que argumenta tratar-se de um patrimônio gastronômico da Sardenha, comparando sua situação à do foie gras ou do haggis escocês — ambos produtos de origem animal que enfrentaram resistência inicial. Em 2024, um projeto de lei na Itália tentou regulamentar seu consumo com rótulos de advertência e controle sanitário, mas a proposta foi arquivada sob pressão da comunidade europeia. Enquanto isso, o queijo ‘vivo’ segue como um símbolo da tensão entre globalização e identidade local.

  • Raízen anuncia plano de cisão e aportes bilionários para reestruturar dívida de R$ 65 bilhões até 2027

    Raízen anuncia plano de cisão e aportes bilionários para reestruturar dívida de R$ 65 bilhões até 2027

    A Raízen busca reestruturar dívida bilionária com credores

    A Raízen, empresa formada pela parceria entre Cosan e Shell, deu um passo decisivo para equacionar um passivo de R$ 65 bilhões ao apresentar, em 27 de maio de 2026, um plano de recuperação extrajudicial aos credores financeiros quirografários — aqueles sem garantia real. A proposta, ainda em fase de negociação, vai além de um simples alívio imediato no caixa: ela propõe uma reestruturação profunda que culminará na cisão da empresa em duas unidades corporativas até 2027.

    Aportes bilionários e separação dos negócios como pilares da reestruturação

    O plano apresentado pela Raízen baseia-se em dois eixos principais: aportes de capital e reorganização operacional. A Shell já garantiu uma injeção de pelo menos R$ 3,5 bilhões, enquanto a Cosan também deve contribuir com recursos frescos. Essa movimentação busca reduzir a alavancagem e reestabelecer a saúde financeira da companhia, que enfrenta pressões em um cenário de commodities voláteis e alta taxa de juros.

    A estratégia prevê a separação das operações de bioenergia e distribuição em entidades independentes. Enquanto a unidade de bioenergia — que engloba etanol e biodiesel — deve manter seu foco em energias renováveis, a divisão de distribuição de combustíveis será reorganizada para otimizar custos e melhorar a eficiência logística. Essa cisão não apenas simplifica a gestão de cada negócio, como também pode atrair novos investidores interessados em segmentos específicos.

    Consequências e desafios da reestruturação

    A proposta enfrenta ainda a resistência de alguns credores, que podem questionar a viabilidade da reestruturação ou a distribuição dos recursos. Além disso, a conclusão do processo até 2027 dependerá de aprovações regulatórias e da capacidade da Raízen de manter suas operações durante a transição. Caso bem-sucedida, a medida pode redefinir o posicionamento da empresa no mercado de energia, consolidando sua posição como líder em bioenergia e garantindo a sustentabilidade de suas operações de distribuição.

  • Nissan Magnite brilha no México: vendas da marca crescem e modelo se destaca como opção acessível

    Nissan Magnite brilha no México: vendas da marca crescem e modelo se destaca como opção acessível

    Vendas batem recorde em abril no México, mas desafios persistem

    O México fechou abril de 2026 com um marco histórico: 118.859 veículos novos comercializados, um crescimento de 8,6% em relação ao mesmo mês de 2025, segundo dados da AMDA. O acumulado do primeiro quadrimestre também foi recorde, com 500.512 unidades vendidas. No entanto, a Nissan, líder absoluta com 19.230 vendas, viu seu market share encolher de 17,6% para 16,2% em um ano. A marca mantém a primeira posição, mas enfrenta pressão de concorrentes como Toyota e Chevrolet, que registraram altas de 18,7% e 6%, respectivamente.

    Magnite: o segredo por trás da hegemonia Nissan

    O Nissan Magnite, compacto hatch crossover que divide plataforma com o Kicks, segue como carro-chefe da estratégia da marca no mercado mexicano. Embora os dados não detalhem sua performance individual, especialistas apontam que o modelo tem sido decisivo para sustentar a liderança da Nissan, graças ao seu preço competitivo e apelo ao público jovem. Enquanto marcas premium como BMW e Mercedes registraram quedas, a Nissan apostou na acessibilidade — uma estratégia que, no entanto, já começa a mostrar sinais de desgaste.

    Geely dispara com crescimento de 283%, enquanto Ford recua 11%

    A chinesa Geely espantou ao emplacar um crescimento de 283% nas vendas, saltando de 1.045 para 4.006 unidades. O feito coloca a marca no top 10 pela terceira vez consecutiva, desafiando gigantes como Volkswagen e Hyundai. Já a Ford, tradicional no país, sofreu com um recuo de quase 11% (de 4.231 para 3.770 unidades), reflexo de uma reestruturação global e da concorrência acirrada. A marca norte-americana perdeu espaço para rivais asiáticas, que dominam segmentos como SUVs e compactos.

    Consequências e tendências para o setor

    A estabilidade da Nissan no topo é um alívio em meio a um mercado cada vez mais disputado. No entanto, a queda no market share sugere que a estratégia de preços baixos pode não ser suficiente para conter a ascensão de marcas como Geely e Toyota, que ampliam suas redes de concessionárias e lançam modelos cada vez mais alinhados às demandas locais. Para os consumidores, a boa notícia é a diversidade: nunca o México teve tantas opções de SUVs e compactos a preços competitivos. Já as montadoras precisam inovar além do preço — ou arriscar perder espaço para os chineses, que chegam com força total.

  • Kia Sorento chega ao Brasil como terceira via no duelo de SUVs a diesel entre Haval H9 e Toyota SW4

    Kia Sorento chega ao Brasil como terceira via no duelo de SUVs a diesel entre Haval H9 e Toyota SW4

    O novo desafiante no mercado brasileiro de SUVs

    Em um setor cada vez mais polarizado entre o GWM Haval H9 e a Toyota SW4, o Kia Sorento chega ao Brasil na última quinta-feira (28/05/2026) como uma terceira via estratégica, oferecendo um pacote equilibrado entre preço, tecnologia e capacidade. Com preço de R$ 359.990, o modelo coreano posiciona-se entre os R$ 329 mil do Haval H9 e os R$ 424.590 da SW4 (na versão com sete lugares), atraindo consumidores que buscam alternativas ao tradicional SUV japonês.

    Especificações técnicas e diferenciais

    O Sorento estreia no Brasil em sua quarta geração, equipado com um motor 2.2 turbo diesel de 194 cavalos, capaz de entregar 12,3 km/l na cidade e 16,1 km/l na estrada — números competitivos frente aos concorrentes. O interior, elogiado pela mídia especializada, destaca-se pelo painel de 12,3 polegadas, comandos intuitivos e uma lista generosa de itens de série, incluindo controle adaptativo de cruzeiro (ACC) e sistema de câmeras 360°, ideal para manobras em ambientes urbanos.

    Capacidade e praticidade: o ponto de atenção

    Embora ofereça espaço para sete passageiros, o Sorento segue a tendência do setor ao priorizar o conforto da segunda fileira, mantendo a terceira fila como opção secundária — com limitação de espaço para adultos. O porta-malas, por sua vez, totaliza 179 litros com todos os assentos em uso, um valor abaixo da média de alguns rivais, mas compensado pela modularidade do layout interno.

    Contexto do mercado e perspectivas

    A entrada do Sorento no Brasil reflete uma movimentação estratégica das montadoras asiáticas para explorar o crescente apetite do consumidor brasileiro por SUVs de alto porte com motorização diesel, segmento antes dominado pela Toyota. Com uma proposta de valor que equilibra preço, equipamentos e refinamento, o modelo coreano pode ampliar a concorrência, pressionando os preços da SW4 e do Haval H9 — que, por enquanto, mantêm vantagem no custo-benefício.

  • Governo federal e Conab unem forças para blindar estoques públicos e garantir segurança alimentar até 2026

    Governo federal e Conab unem forças para blindar estoques públicos e garantir segurança alimentar até 2026

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) traçaram nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, um plano de ação para reforçar os pilares da segurança alimentar no Brasil. Durante encontro com o ministro André de Paula, foram discutidos mecanismos de controle de estoques públicos, preços mínimos, seguro rural e estratégias de abastecimento, com foco em evitar crises como as registradas em safras anteriores.

    Conab: o braço operacional do Mapa na guerra contra a fome e a inflação

    O ministro André de Paula não poupou elogios à atuação da Conab, classificando-a como “peça-chave” na formulação de políticas públicas para o agro. “Os levantamentos de safra, os custos de produção e os estoques reguladores são insumos básicos para que possamos desenhar políticas assertivas”, declarou. A Companhia, segundo ele, será ainda mais decisiva nos próximos meses, quando a safra de grãos deve atingir patamares recordes — mas com desafios logísticos agravados pela crise climática em regiões como o Sul do país.

    Paraguai no radar: o novo Eldorado do agro brasileiro

    Enquanto o Brasil se prepara para colheitas históricas, o Paraguai emergiu como o novo destino de investimentos do setor. Regiões antes consideradas marginais, como o Chaco paraguaio, agora atraem gigantes brasileiros do agro, graças a terras baratas, mão de obra competitiva e acordos bilaterais facilitados. Especialistas ouvidos pela imprensa local estimam que os investimentos brasileiros na região já superam US$ 2 bilhões desde 2024, com foco em soja, milho e pecuária de corte.

    O fenômeno, segundo analistas, é uma resposta direta à pressão por áreas agricultáveis no Brasil, onde a reforma agrária e as restrições ambientais limitam a expansão. “O Paraguai é hoje a fronteira mais promissora para o agro nacional, mas também traz riscos geopolíticos e dependência de infraestrutura ainda precária”, avalia o economista agrícola Marcos Rabello, da FGV Agro.

    O que vem por aí: estoques, preços e a conta que vai pesar no bolso do consumidor

    As medidas anunciadas pelo Mapa incluem:

    • Ampliação de 30% na capacidade de armazenagem pública até 2027, com foco em regiões críticas como o Centro-Oeste e o Nordeste;
    • Ativação de estoques reguladores para conter oscilações de preços em commodities como arroz e feijão;
    • Criação de um fundo de emergência para safras afetadas por eventos climáticos, com recursos do seguro rural;
    • Monitoramento em tempo real da safra de grãos, com dados compartilhados entre Conab, IBGE e Embrapa.

    Para o consumidor final, a expectativa é de estabilidade nos preços dos alimentos básicos até o final do ano, mas com margem de risco caso a safra paraguaia — que já abastece 15% do mercado brasileiro de soja — enfrente problemas climáticos. “A interdependência entre os dois países é inevitável, mas o Brasil precisa garantir que suas políticas internas não deixem brechas para especulação”, alerta Rabello.

  • Volkswagen mira SUV para brigar com Toyota SW4: novo modelo será derivado da Amarok e chega após 2027

    Volkswagen mira SUV para brigar com Toyota SW4: novo modelo será derivado da Amarok e chega após 2027

    Novo SUV da Volkswagen: estratégia para dominar o mercado de utilitários

    A Volkswagen acelera seus planos para o mercado de SUVs com um novo modelo derivado da próxima geração da Amarok, projetado para enfrentar concorrentes como a Toyota SW4 e a Haval H9. Internamente chamado de Projeto Atacama, o utilitário será fabricado na Argentina, na unidade de General Pacheco, otimizando a capacidade produtiva e compartilhando componentes com a picape para reduzir custos.

    Plataforma compartilhada e investimento bilionário

    O desenvolvimento do novo SUV está diretamente ligado ao Projeto Patagonia, que consumiu US$ 580 milhões (cerca de R$ 2,9 bilhões) para modernizar a linha da Amarok. A sinergia entre os modelos não apenas agiliza a produção, como também posiciona a Volkswagen como uma forte concorrente no segmento premium de SUVs, aproveitando a expertise da marca em veículos robustos e versáteis.

    Lançamento pós-2027: o que esperar?

    Previsto para ser lançado após o segundo semestre de 2027, o SUV da Volkswagen promete trazer inovações técnicas e design alinhados às demandas do mercado. A estratégia da marca reflete uma tendência de diversificação, expandindo seu portfólio além das picapes para conquistar novos consumidores, especialmente aqueles que buscam veículos com maior espaço e conforto, sem abrir mão de performance off-road.

  • Castelo de José Rico: patrimônio sertanejo ganha novo fôlego com declaração de utilidade pública em Limeira (SP)

    Castelo de José Rico: patrimônio sertanejo ganha novo fôlego com declaração de utilidade pública em Limeira (SP)

    Do sonho grandioso ao abandono: a trajetória do castelo de José Rico

    O castelo, construído pelo cantor José Rico como uma homenagem à cultura sertaneja e às suas raízes, sempre carregou um simbolismo contrastante: ao mesmo tempo em que representava o sonho de um artista consagrado, também se tornou um reflexo do abandono que se seguiu à sua morte, em 2015. A imponente construção, que já foi avaliada em milhões de reais, ficou marcada por dívidas trabalhistas e tentativas frustradas de leilão, deixando o legado do sertanejo em um limbo jurídico e emocional.

    De passivo judicial a patrimônio cultural: a virada em Limeira (SP)

    A decisão da Prefeitura de Limeira (SP), publicada oficialmente nesta semana, de declarar a área do castelo como de utilidade pública é o primeiro passo concreto para reverter esse cenário. A medida não apenas abre caminho para a regularização do espaço, mas também lança as bases para um projeto ambicioso: transformar o local em um marco da cultura sertaneja brasileira, atraindo turistas e preservando a memória de José Rico e da lendária dupla Milionário & José Rico.

    O que vem pela frente: turismo e preservação sertaneja

    Com a área agora declarada de utilidade pública, a expectativa é que o castelo possa ser incorporado ao patrimônio cultural do município e, futuramente, do estado de São Paulo. Especialistas e fãs do sertanejo já vislumbram um futuro onde o local se torne um museu, um centro cultural ou até mesmo um ponto turístico, com exposições sobre a trajetória de José Rico, shows ao ar livre e eventos que celebrem a música sertaneja. O projeto, no entanto, ainda depende de aprovações e investimentos, mas o sinal verde da prefeitura é um marco histórico para a comunidade sertaneja.

    Legado de José Rico: mais do que um castelo, um símbolo

    José Rico, cuja voz inconfundível marcou gerações, deixou um legado que vai muito além das canções. O castelo, construído com paixão e excentricidade, é um testemunho de seu amor pela cultura sertaneja e por sua terra natal. Agora, com a possibilidade de se tornar um patrimônio público, o local pode finalmente cumprir seu propósito original: ser um farol da música sertaneja brasileira, inspirando novas gerações e honrando aqueles que fizeram história no gênero.

  • Chapecó: O gigantesco coração agroindustrial que alimenta o Brasil e o mundo

    Chapecó: O gigantesco coração agroindustrial que alimenta o Brasil e o mundo

    Há 550 km de Florianópolis, no extremo oeste catarinense, Chapecó se impõe como um dos pilares da proteína animal brasileira. Nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, a cidade se consolidou como a engrenagem central de um ecossistema agroindustrial que, diariamente, movimenta bilhões e abastece milhões de pessoas — do mercado interno às exportações para dezenas de países.

    O motor que move o agro brasileiro

    A Aurora Coop, por meio do Frigorífico Aurora Chapecó 1 (FACH 1), não apenas domina o cenário nacional como o maior parque industrial de processamento de suínos do país, mas também exemplifica o modelo de sucesso do agro brasileiro. Com um projeto de expansão industrial recente, a unidade reforçou Chapecó como um polo estratégico, capaz de suprir demandas tanto locais quanto internacionais.

    De cidade desconhecida a gigante do setor

    Apesar de sua relevância econômica, Chapecó ainda é pouco conhecida nos grandes centros urbanos. No entanto, é dela que saem milhares de toneladas de carne suína e de aves todos os dias, consolidando o Brasil como um dos maiores produtores e exportadores globais de proteína animal. A integração vertical da Aurora Coop — que abrange desde a produção de ração até a distribuição — garante eficiência e competitividade, mesmo em um mercado cada vez mais exigente.

    Impacto além das fronteiras

    O modelo de Chapecó transcende o âmbito local. A cidade não apenas abastece o mercado interno com produtos de qualidade, mas também atende a países como China, Japão e diversos nações da América Latina. A capacidade de produção do FACH 1, combinada com a logística eficiente do estado, coloca Santa Catarina — e Chapecó — no centro do comércio global de proteínas animais, um setor que movimenta mais de R$ 100 bilhões anualmente no Brasil.

  • Máquinas agrícolas afundam 22% em abril: juros altos e crédito escasso sufocam o agro em 2026

    Máquinas agrícolas afundam 22% em abril: juros altos e crédito escasso sufocam o agro em 2026

    Abimaq acende alerta vermelho no agro nacional

    Os números do setor de máquinas agrícolas não deixam margem para dúvidas: abril de 2026 foi o pior mês desde o início da crise de confiança no campo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a receita líquida do segmento despencou 22,2% em comparação ao mesmo período de 2025, alcançando R$ 4,2 bilhões — uma queda que selou o tombo de 17,9% no acumulado do ano, com faturamento total de R$ 17 bilhões. A entidade, que até recentemente mantinha expectativas otimistas para 2026, agora projeta retração de 2,3% no faturamento anual, revertendo estimativas anteriores de crescimento.

    Juros e crédito: os vilões do financiamento rural

    A combinação de taxas de juros persistentemente altas, crédito restrito e margens de lucro cada vez mais apertadas está sufocando a capacidade de investimento dos produtores. Segundo especialistas ouvidos pela Abimaq, o custo do financiamento para aquisição de máquinas — que já beirava 12% ao ano em contratos de longo prazo — inviabilizou a renovação de frota para muitos agricultores, especialmente aqueles com menor poder de barganha em negociações com bancos e cooperativas. A situação é agravada pela queda na rentabilidade do setor primário, com preços de commodities estagnados ou em declínio desde o início de 2026.

    Consequências para o agronegócio brasileiro

    A retração no mercado interno de máquinas agrícolas não apenas afeta fabricantes e distribuidores — como John Deere, Case IH e AGCO —, mas também reverbera em toda a cadeia produtiva do agro. A redução na demanda por equipamentos pesados, como tratores e colheitadeiras, pode limitar a expansão de áreas plantadas em 2026, especialmente em estados como Mato Grosso e Goiás, onde o setor é vital para a economia. Além disso, a diminuição no ritmo de modernização das lavouras pode comprometer a produtividade em um momento em que o Brasil busca manter sua liderança no mercado global de grãos, enfrentando concorrência acirrada da Ucrânia e dos Estados Unidos.

  • Arrendamento rural: erros jurídicos e ambientais podem custar propriedade e milhões em prejuízos

    Arrendamento rural: erros jurídicos e ambientais podem custar propriedade e milhões em prejuízos

    No dia 28 de maio de 2026, o advogado Roberto Bastos Ghigino, da HBS Advogados, reforçou o alerta que tem ganhado força no agronegócio brasileiro: a ausência de uma análise jurídica e ambiental criteriosa antes da assinatura de contratos de arrendamento ou parceria rural pode desencadear uma série de problemas irreversíveis para os proprietários de terras. Decisões judiciais recentes, envolvendo desde embargos ambientais até rescisões contratuais, têm colocado em xeque a segurança jurídica de transações que, muitas vezes, são tratadas como meras formalidades.

    Arrendamento vs. Parceria: diferenças que definem riscos

    Ghigino esclarece que, enquanto o arrendamento rural funciona como um aluguel da terra — com o produtor pagando pelo uso do imóvel sem compartilhar lucros ou prejuízos —, a parceria rural se assemelha a uma sociedade, onde os riscos e resultados são divididos entre as partes. “Em ambos os casos, há a transferência da posse do imóvel rural ao produtor que irá explorá-lo economicamente”, explica. No entanto, são justamente essas nuances que exigem atenção redobrada na elaboração dos contratos.

    Riscos ocultos: do embargo ambiental à perda do imóvel

    O especialista destaca que falhas na análise prévia — como a ausência de regularização ambiental ou pendências judiciais no registro do imóvel — podem resultar em embargos por órgãos como o Ibama, multas milionárias e até ações de reintegração de posse movidas por terceiros. “Muitos proprietários só descobrem problemas depois que o contrato já está assinado, quando o prejuízo já está feito”, alerta. Além disso, disputas judiciais por terras são cada vez mais comuns, especialmente em regiões com alta concentração fundiária.

    Como mitigar os danos antes de assinar

    Para evitar prejuízos, Ghigino recomenda uma due diligence minuciosa, que inclua:

    • Verificação de matrícula do imóvel e possíveis ônus (penhoras, ações judiciais);
    • Análise de licenças ambientais (CAR, licenciamento rural, regularidade no Sisnama);
    • Consulta a processos judiciais envolvendo o imóvel ou seus vizinhos;
    • Definição clara de cláusulas contratuais, incluindo penalidades por descumprimento ambiental.

    A ausência dessas medidas não só expõe o proprietário a riscos financeiros, mas também pode inviabilizar o próprio negócio rural, dado o crescente rigor da fiscalização ambiental no Brasil. “O agronegócio não pode mais se dar ao luxo de tratar contratos como burocracia. Cada detalhe importa”, conclui o advogado.