Categoria: Economia

  • Acordo Mercosul-UE: primeira carga de uvas do Vale do São Francisco parte para Europa com tarifa zero

    Acordo Mercosul-UE: primeira carga de uvas do Vale do São Francisco parte para Europa com tarifa zero

    Exportação histórica impulsiona fruticultura brasileira

    O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, participou na última sexta-feira (22) de um ato simbólico em Petrolina (PE), que marcou a primeira exportação de uvas do Vale do São Francisco para a União Europeia com tarifa zero. A carga, destinada ao Porto de Suape (PE), simboliza o avanço das oportunidades abertas pelo Acordo Mercosul-União Europeia, que entrou em vigor recentemente.

    Impacto econômico e competitividade no mercado internacional

    Durante a cerimônia no packing house da Fazenda Argofruta, o ministro destacou que a medida representa um marco histórico para a fruticultura brasileira. “Esta carreta segue para o Porto de Suape levando a primeira carga de contêineres de uvas do Vale do São Francisco com tarifa zero. Isso representa mais competitividade para o nosso produto e, consequentemente, um retorno ainda maior para os nossos produtores”, afirmou André de Paula.

    Vale do São Francisco: polo de exportação em expansão

    A região do Vale do São Francisco, conhecida por sua vocação agrícola, ganha destaque com o acordo comercial. A tarifa zero para as uvas brasileiras no mercado europeu deve ampliar as exportações e fortalecer a presença dos produtos nacionais no exterior, especialmente em um momento de crescente demanda por alimentos de qualidade.

  • Chapecó: o gigante invisível do agro brasileiro que alimenta o mundo

    Chapecó: o gigante invisível do agro brasileiro que alimenta o mundo

    No extremo oeste de Santa Catarina, a 550 km de Florianópolis, Chapecó opera como uma engrenagem silenciosa da economia brasileira. Enquanto metrópoles discutem inflação ou crises setoriais, a cidade — com seus 220 mil habitantes — é o epicentro de um modelo agroindustrial que transformou o Brasil em uma potência global na produção de proteína animal. E o protagonista desse cenário é o Frigorífico Aurora Chapecó 1 (FACH 1), unidade da Aurora Coop, reconhecido como o maior parque industrial de processamento de suínos do país.

    O motor econômico que alimenta o Brasil e o mundo

    Desde a última segunda-feira, 25 de maio de 2026, Chapecó segue sua rotina de exportar milhares de toneladas diárias de carne suína e de aves, destinadas a mais de 50 países. O município não apenas sustenta o mercado interno — responsável por cerca de 90% da demanda nacional por suínos — como também se consolidou como um dos maiores polos agroindustriais do planeta. A expansão da Aurora Coop, com investimentos bilionários em tecnologia e capacidade produtiva, foi o divisor de águas: o FACH 1 não é apenas uma fábrica, mas um ecossistema que emprega diretamente 15 mil pessoas e indiretamente sustenta centenas de outras atividades, desde transporte até insumos agrícolas.

    A invisibilidade estratégica de um gigante

    Apesar de sua relevância, Chapecó permanece desconhecida para a maioria dos brasileiros de grandes centros urbanos. Enquanto São Paulo ou Rio de Janeiro discutem preços no supermercado, poucos associam a carne suína ou o frango que compram aos complexos industriais do Sul do país. Essa desconexão é, paradoxalmente, um dos pilares do sucesso de Chapecó: a eficiência logística e a integração vertical do agro catarinense permitem entregas rápidas e competitivas, tanto para o mercado interno quanto para exportações. Em 2026, o estado respondeu por 27% do PIB agropecuário brasileiro, com Chapecó como seu principal cartão-postal industrial.

    Os desafios de um modelo em transformação

    O sucesso de Chapecó não esconde os desafios que o setor enfrenta. A escalada dos custos de produção — com insumos como milho e soja pressionados pela demanda global — e as exigências crescentes de sustentabilidade (redução de emissões, bem-estar animal) colocam o modelo agroindustrial sob escrutínio. Além disso, a concorrência internacional, especialmente da China e da União Europeia, exige inovação constante. A Aurora Coop, por exemplo, investiu R$ 1,2 bilhão em 2025 para modernizar suas plantas e atender às normas ambientais mais rigorosas. Mas o que está em jogo não é apenas a competitividade: é a manutenção da segurança alimentar de milhões de pessoas.

    O que o futuro reserva para Chapecó?

    Para os próximos anos, a cidade deve continuar como peça-chave no tabuleiro do agro brasileiro. Projeções indicam que, até 2030, o Brasil poderá se tornar o maior exportador mundial de carne suína, com Chapecó liderando o crescimento. No entanto, o caminho não será fácil. A pressão por transparência na cadeia produtiva, a transição energética e a adaptação às mudanças climáticas exigirão mais do que investimentos: demandarão uma reinvenção do modelo atual. Enquanto isso, milhões de brasileiros seguirão consumindo proteínas sem saber que, em um canto remoto do país, uma cidade de porte médio mantém o Brasil — e o mundo — alimentado.

  • Governo bloqueia R$ 22,1 bi do Orçamento de 2026 para cumprir arcabouço fiscal: o que isso significa para você?

    Governo bloqueia R$ 22,1 bi do Orçamento de 2026 para cumprir arcabouço fiscal: o que isso significa para você?

    O governo federal anunciou nesta semana um bloqueio adicional de R$ 22,1 bilhões em despesas não obrigatórias do Orçamento de 2026, elevando o total de recursos contingenciados para R$ 23,7 bilhões. A decisão, formalizada no Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas — documento encaminhado ao Congresso a cada dois meses —, busca garantir o cumprimento do arcabouço fiscal, que limita o crescimento dos gastos públicos a 2,5% acima da inflação para este ano.

    Por que o bloqueio foi necessário?

    A medida se tornou inevitável diante do aumento das despesas obrigatórias, que consomem cada vez mais recursos do Orçamento. Segundo os Ministérios da Fazenda e do Planejamento, o governo precisou abrir crédito extra para acomodar o crescimento de gastos fixos, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que teve sua previsão majorada em R$ 14,1 bilhões, e as benefícios previdenciários, com alta de R$ 11,5 bilhões. Outros R$ 300 milhões foram adicionados a despesas diversas, enquanto os gastos com funcionalismo público foram reduzidos em R$ 3,8 bilhões.

    Superávit primário: avanço ou maquiagem contábil?

    Pela segunda vez consecutiva, o relatório não previu contingenciamento para a meta de superávit primário — resultado das contas do governo antes do pagamento da dívida pública. A projeção para este ano subiu de R$ 3,5 bilhões para R$ 4,1 bilhões, graças ao bloqueio dos R$ 22,1 bilhões e à dedução de R$ 1 bilhão em gastos com saúde, educação e defesa que não serão computados na meta.

    No entanto, a conta ignora os precatórios — dívidas judiciais definitivas da União. Ao incluí-los, a previsão de déficit primário piorou de R$ 59,8 bilhões para R$ 60,3 bilhões. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 estabelece uma meta de superávit de R$ 34,3 bilhões (0,25% do PIB), mas a equipe econômica optou pelo limite inferior de tolerância, que permite déficit zero este ano. Com o superávit previsto de R$ 4,1 bilhões, não será necessário acionar novos contingenciamentos.

    O que muda para os brasileiros?

    O bloqueio de recursos afeta diretamente programas sociais e investimentos públicos. Enquanto o governo tenta equilibrar as contas, a população pode sentir os reflexos na redução de serviços essenciais. Especialistas alertam que, sem um ajuste estrutural nas despesas obrigatórias — que já consomem 90% do Orçamento —, a sustentabilidade fiscal fica cada vez mais ameaçada. A pressão sobre a previdência e o BPC, por exemplo, deve persistir nos próximos anos, exigindo reformas profundas para evitar um colapso nas contas públicas.

    Para 2026, a LDO já sinaliza um cenário desafiador: a meta de superávit, embora teoricamente positiva, está muito aquém do necessário para reduzir a dívida pública. Com o déficit primário projetado — mesmo antes de precatórios —, o governo terá que encontrar alternativas para não descumprir as regras fiscais, seja com novas cortes, aumento de receitas ou adiamento de investimentos estratégicos.

  • Déficit primário de R$ 60,3 bilhões em 2026: como precatórios e gastos obrigatórios desequilibram as contas públicas

    Déficit primário de R$ 60,3 bilhões em 2026: como precatórios e gastos obrigatórios desequilibram as contas públicas

    A escalada do déficit primário do governo federal para 2026, agora projetado em R$ 60,3 bilhões, reflete um cenário de crescente pressão sobre as contas públicas. O valor, divulgado no Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas enviado ao Congresso Nacional nesta sexta-feira (22), representa um aumento de R$ 500 milhões em relação à estimativa anterior, de R$ 59,8 bilhões.

    Ajustes fiscais: precatórios e exceções fora do arcabouço

    O crescimento do déficit está diretamente ligado à inclusão de precatórios — dívidas judiciais do governo — e outras despesas obrigatórias que, por lei, estão excluídas da meta fiscal até 2026. Esses gastos, que incluem também áreas como defesa, saúde e educação, somam R$ 60,3 bilhões no total, segundo o relatório.

    No entanto, ao desconsiderar esses fatores excepcionais, a equipe econômica projeta um superávit primário de R$ 4,1 bilhões. Esse cenário positivo permitiu ao governo evitar contingenciamentos adicionais no Orçamento de 2026, embora já tenha bloqueado R$ 22,1 bilhões em verbas para cumprir os limites do arcabouço fiscal — uma medida técnica, mas não relacionada à meta de resultado primário.

    Receitas em alta, mas despesas sobem ainda mais

    A previsão de alta de R$ 4,4 bilhões nas receitas líquidas em relação ao Orçamento de 2026 não foi suficiente para conter o impacto do crescimento de R$ 4,6 bilhões nas despesas totais. A equipe econômica ainda não incorporou o possível aumento dos royalties do petróleo, devido à volatilidade nos preços do combustível no mercado internacional, impulsionada pela guerra no Oriente Médio.

    Os principais vetores desse desequilíbrio são os gastos obrigatórios, que devem saltar R$ 30,1 bilhões, enquanto os gastos discricionários (não obrigatórios) terão uma redução de R$ 25,2 bilhões — sendo R$ 22,1 bilhões provenientes do bloqueio já anunciado. Entre os gastos obrigatórios que mais pressionam as contas estão:

    • Benefício de Prestação Continuada (BPC): +R$ 14,1 bilhões;
    • Benefícios previdenciários: +R$ 11,5 bilhões;
    • Créditos extraordinários: +R$ 3,5 bilhões;
    • Obrigatórias com controle de fluxo (inclui Bolsa Família): valores não detalhados no relatório.

    Implicações para a dívida pública e a credibilidade fiscal

    O déficit primário impacta diretamente o endividamento do governo, uma vez que o resultado negativo reduz a capacidade de pagamento dos juros da dívida pública. Embora a previsão de superávit ao excluir precatórios e exceções possa sinalizar algum controle, a realidade mostra um cenário de maior fragilidade fiscal.

    Para especialistas, a dependência de medidas excepcionais — como o bloqueio de verbas — e a incapacidade de reduzir gastos obrigatórios estruturais (como BPC e previdência) revelam os limites do atual modelo de austeridade. A escalada dos precatórios, por exemplo, decorre de um acordo fechado em 2023 com o Supremo Tribunal Federal (STF), que adiou a inclusão dessas dívidas na meta fiscal até 2026.

    Enquanto a equipe econômica aguarda possíveis ajustes nas receitas — como o aumento dos royalties do petróleo —, a pressão sobre o Orçamento de 2026 permanece alta. A combinação de menor margem para contingenciamentos e crescimento acelerado das despesas obrigatórias coloca em xeque a sustentabilidade das contas públicas nos próximos anos.

  • Farsul impõe 12 condições para securitização de R$ 171 bi da dívida rural: juros abaixo de 9%, 15 anos de prazo e inclusão de todos os credores

    Farsul impõe 12 condições para securitização de R$ 171 bi da dívida rural: juros abaixo de 9%, 15 anos de prazo e inclusão de todos os credores

    A disputa pelo futuro da dívida rural brasileira entrou em uma fase crítica. Nesta quinta-feira (21), a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) levou ao Congresso Nacional um plano detalhado de 12 pontos para viabilizar a securitização de R$ 171 bilhões em créditos estressados no setor agropecuário gaúcho — um volume que, segundo a entidade, pode dobrar em 12 meses se nenhuma medida estrutural for adotada.

    A lista de exigências: juros, prazos e abrangência

    Entre as condições impostas pela Farsul, destacam-se três eixos centrais: um teto de 8,5% nos juros (equivalente à taxa neutra do Banco Central), um prazo mínimo de 15 anos para quitação — com carência real antes da primeira parcela — e a inclusão de dívidas contraídas fora do sistema bancário tradicional. Segundo a entidade, juros acima de 10% tornam qualquer securitização insustentável, enquanto prazos curtos sufocam o fluxo de caixa de produtores já fragilizados.

    Ainda no pacote, a Farsul exige que a medida contemple operadores como cooperativas de grãos, revendas de insumos e cerealistas — credores muitas vezes ignorados em renegociações anteriores. Outro ponto polêmico é a extensão às chamadas operações “mata-mata”, em que produtores contraíram novos empréstimos para pagar dívidas antigas. A data de corte proposta é 30 de abril de 2026, abarcando inclusive as renegociações da MP 1.314, que somam R$ 39 bilhões em recursos livres.

    O funding estrutural e a crítica à gestão de expectativas

    Embora não defenda uma fonte específica de financiamento, a Farsul deixa claro que a solução deve ter “caráter estrutural” — e aponta o Fundo Social do Pré-Sal como opção viável. A entidade foi direta em sua crítica: “Anúncios superlativos com recursos que não se materializam não são política pública — são gestão de expectativas”. A mensagem subliminar é clara: o governo não pode repetir os erros de pacotes anteriores, que muitas vezes se resumiram a promessas vazias.

    Crises climáticas e a raiz do endividamento

    A Farsul, que completará 100 anos em 2027, justifica os 12 pilares como resultado de “décadas de acompanhamento técnico” e afirma que cada medida foi testada em crises anteriores. O texto da entidade aponta as “crises climáticas sem precedentes” como o principal gatilho do atual endividamento: sucessivos episódios de estiagem e enchentes nos últimos anos deixaram o Rio Grande do Sul em uma situação de calamidade econômica prolongada. “O campo não pede privilégio; pede condição”, declarou a federação em tom de apelo aos parlamentares e à sociedade.

    Um apelo à ação parlamentar: “Estamos às vésperas de uma solução definitiva”

    A carta da Farsul não esconde o tom de urgência. Em trecho dirigido diretamente aos congressistas, a entidade afirma: “Estamos às vésperas de uma solução definitiva; contamos e precisamos de vocês”. A mensagem reflete a pressão do setor, que teme que o tema se perca em meio a outras prioridades legislativas. A securitização da dívida rural não é apenas uma questão econômica — é um teste para a capacidade do Estado de responder a crises sistêmicas com políticas públicas duradouras.

  • Shiro Nishimura revela como vendeu 13 mil cabeças de gado e fazendas para salvar a Jacto da falência após o Plano Collor

    Shiro Nishimura revela como vendeu 13 mil cabeças de gado e fazendas para salvar a Jacto da falência após o Plano Collor

    A herança de uma geração à beira do colapso

    O que começou como mais um dia na Fazenda Araponga, em São Paulo, se transformou no pesadelo que abalou a trajetória de Shiro Nishimura e de sua família. Filho de imigrantes japoneses e herdeiro de um legado construído a duras penas no agronegócio, ele viu seu patrimônio — simbolizado por mais de 13 mil cabeças de gado Nelore e inúmeras propriedades — evaporar em questão de horas. A causa? Um dos episódios mais traumáticos da economia brasileira: o confisco das poupanças pelo Plano Collor, há 36 anos.

    “Você tem 50 dólares na conta”: o momento em que o dinheiro sumiu

    Em depoimento ao episódio #186 do AGRO360 Podcast, apresentado por Rafael Vilella, Nishimura relembrou o choque ao descobrir que todo o capital reservado para manter a Jacto — empresa fundada por seu pai — havia sido bloqueado pelo governo federal. “Cheguei na fazenda e o contador olhou para mim e falou: *‘Você tem 50 dólares na conta’*. Eu disse: *‘Como assim?’* Eu sempre deixava dinheiro para dois meses de despesa: salários, vacinas, manutenção… e esse dinheiro tinha desaparecido da noite para o dia”, contou, com a voz embargada pela emoção.

    A pecuária, à época, operava em ciclos longos: o boi era abatido, mas o pagamento levava até 30 dias para ser efetivado. Sem reservas, a sobrevivência da fazenda dependia de capital imediato — algo impossível após o bloqueio de cerca de US$ 80 bilhões em poupanças e contas correntes.

    Vender para não quebrar: a estratégia desesperada de um pecuarista

    Sem acesso a crédito ou liquidez, Nishimura foi obrigado a agir rápido. A solução? Vender gado, terras e patrimônio a preços aviltados para honrar compromissos urgentes. “Fui no frigorífico e falei: *‘No dia que você matar boi, os primeiros 230 bois são meus’*. Eu precisava pagar conta. O povo estava achando que eu era caloteiro, mas não tinha como honrar os compromissos”, desabafou. A estratégia, embora salvou a empresa da falência imediata, deixou marcas profundas: “Perder aquele patrimônio foi como tirar um pedaço da minha vida”.

    O Plano Collor e o abalo no agronegócio: quando o Estado quebrou o campo

    O confisco das poupanças em março de 1990, durante o governo Collor, não poupou sequer os produtores rurais. Com a inflação beirando os 80% ao mês, o governo tentou conter o avanço dos preços com medidas radicais — mas o resultado foi uma crise sem precedentes. Empresas do setor agropecuário, dependentes de capital de giro, viram suas reservas congeladas. “O sistema da pecuária funcionava em ciclos longos. Se você não tinha reserva, estava morto”, explicou Nishimura.

    O impacto se estendeu além das finanças: salários deixaram de ser pagos, contratos foram rompidos e milhares de negócios rurais fecharam as portas. Para a Jacto, a sobrevivência dependeu de uma decisão amarga: vender o que levou décadas para construir.

    Lições de resiliência: como o agronegócio sobreviveu ao maior golpe econômico do Brasil

    Três décadas depois, o relato de Nishimura serve como um alerta sobre os riscos de políticas econômicas abruptas — e também como prova de que, mesmo nas crises mais profundas, a resiliência do setor agropecuário brasileiro se impôs. “A gente aprendeu que não podemos depender só do governo. Temos que ter reservas, diversificar e, acima de tudo, acreditar no nosso trabalho”, afirmou o pecuarista, que hoje segue à frente da Jacto, agora mais diversificada e preparada para enfrentar novos desafios.

    O caso de Shiro Nishimura é um retrato fiel de como o Plano Collor não apenas mudou a vida de uma família, mas redefiniu a gestão financeira do agronegócio brasileiro — uma lição que, décadas depois, ainda ecoa nas decisões de produtores rurais em todo o país.

  • Brasil sedia a maior fábrica de celulose do mundo: o megaprojeto de US$ 25 bilhões que transforma Inocência (MS) em polo global

    Brasil sedia a maior fábrica de celulose do mundo: o megaprojeto de US$ 25 bilhões que transforma Inocência (MS) em polo global

    A pequena Inocência, no Mato Grosso do Sul, está prestes a entrar para a história como o endereço da maior fábrica de celulose do mundo em escala única. O Projeto Sucuriú, da gigante chilena Arauco, é um investimento bilionário — entre US$ 4,6 bilhões e R$ 25 bilhões — que não apenas redefine a capacidade produtiva global, mas também projeta o Brasil como protagonista incontestável no mercado de celulose de eucalipto.

    Um salto de escala: 3,5 milhões de toneladas para conquistar o mundo

    Com capacidade anual de 3,5 milhões de toneladas, a unidade supera projetos recentes como o Projeto Cerrado da Suzano, que produz 2,55 milhões de toneladas por ano. A meta da Arauco é direcionar a produção principalmente para exportação, com destaque para China, Europa e América do Norte. A previsão é que as operações comecem no segundo semestre de 2027, após a conclusão das obras e testes.

    Do canteiro à tecnologia: obras avançam em ritmo acelerado

    O empreendimento já deixou a fase inicial de terraplenagem para entrar na etapa de montagem eletromecânica, considerada crítica para o cronograma. Segundo dados da Valor, as obras civis já atingiram 70% de conclusão, enquanto a montagem eletromecânica — que inclui tubulações, válvulas, automação e sistemas — deve alcançar 61% de avanço até o final de 2026. Para sustentar esse ritmo, a fornecedora Valmet aumentará sua equipe no canteiro de 4 mil para 8 mil profissionais.

    Inocência no radar: oportunidade ou risco para uma cidade de 8 mil habitantes?

    A instalação da fábrica representa um divisor de águas para Inocência, que até então figurava como um município de perfil agrícola modesto. A chegada do projeto deve gerar milhares de empregos diretos e indiretos, mas também impõe desafios estruturais. A demanda por moradia, transporte, serviços públicos e energia deve crescer exponencialmente, enquanto a cidade precisará equilibrar a dependência econômica de um único grande empreendimento industrial.

    O impacto na silvicultura brasileira: o Brasil como novo centro da bioindústria global

    O Projeto Sucuriú não é um caso isolado. Ele reforça o Mato Grosso do Sul como uma das principais fronteiras da celulose no mundo, ao lado do Paraná e São Paulo. A expansão da silvicultura brasileira, impulsionada por espécies como o eucalipto, já coloca o país como o segundo maior produtor global de celulose, atrás apenas dos Estados Unidos. No entanto, especialistas alertam para a necessidade de políticas públicas que garantam a sustentabilidade do setor, incluindo o manejo florestal responsável e a gestão de recursos hídricos — especialmente em uma região onde a água é um insumo crítico.

    O que esperar do futuro: entre o progresso e os desafios estruturais

    Ainda há incertezas sobre como Inocência e o entorno lidarão com a transformação. A prefeitura local já anunciou planos de expansão de infraestrutura, mas a velocidade das mudanças pode superar a capacidade de resposta dos serviços públicos. Além disso, o projeto da Arauco levanta questões sobre a concentração de poder econômico em um único setor e os riscos de uma economia local dependente de ciclos de mercado globalizados. Para a população, a promessa é de desenvolvimento, mas com a ressalva: será que a cidade estará preparada para os impactos de uma revolução industrial em seu território?

  • Ministro reforça parceria com Corteva para destravar inovação no agro e enfrentar burocracia regulatória

    Ministro reforça parceria com Corteva para destravar inovação no agro e enfrentar burocracia regulatória

    O Brasil, líder mundial na produção de commodities agrícolas, enfrenta um paradoxo: enquanto o setor privado corre para desenvolver soluções inovadoras — como insumos biológicos e eventos genéticos para soja e milho —, o marasmo regulatório ameaça engessar esse avanço. Nesta quarta-feira (20), em Brasília, o ministro da Agricultura e Pecuária em exercício, Cleber Soares, trouxe ao centro do debate um tema até então relegado a segundo plano: a urgência de reformar o arcabouço regulatório para não sufocar a inovação no campo.

    O encontro estratégico que pode redefinir o futuro do agro brasileiro

    Na sede do Ministério da Agricultura, em Brasília, Soares recebeu Shona Sabnis, vice-presidente global de Assuntos Externos da Corteva, acompanhada de sua equipe. O objetivo declarado era alinhar estratégias para impulsionar a produção agrícola com tecnologias sustentáveis, mas o pano de fundo revelou uma preocupação mais profunda: como garantir que o Brasil não fique para trás na corrida global pela inovação?

    Durante a reunião, foram discutidos três eixos críticos:

    • Insumos biológicos: Produtos que prometem reduzir o uso de agroquímicos e aumentar a produtividade, mas que esbarram em processos de aprovação lentos e burocráticos.
    • Eventos genéticos em soja e milho: Tecnologias que podem transformar a agricultura brasileira, mas que dependem de avaliações técnicas ágeis para não perder competitividade frente a países como Estados Unidos e Argentina.
    • Comércio internacional de commodities: Como a lentidão regulatória pode afetar as exportações brasileiras, especialmente em um cenário de crescente demanda por alimentos sustentáveis.

    O Brasil como potência de biotecnologia: um sonho à espera de regulamentação

    O ministro em exercício não poupou críticas indiretas ao sistema atual. Em seu discurso, ele destacou que o diálogo entre governo e setor privado é fundamental para destravar inovações, mas deixou claro que a burocracia é um inimigo silencioso do progresso. “Precisamos de um ambiente regulatório que acompanhe a velocidade da ciência, não que a freie”, afirmou Soares.

    A Corteva, uma das maiores empresas do setor de agrotécnologia, tem investido pesado em soluções biológicas e genéticas. Segundo dados internos, a empresa já desenvolveu tecnologias capazes de aumentar a produtividade em até 20% com menor impacto ambiental. No entanto, a demora para aprovar novos produtos no Brasil — muitas vezes superior a dois anos — pode inviabilizar esses ganhos.

    O que está em jogo: competitividade e sustentabilidade

    A burocracia não afeta apenas os lucros das empresas. Ela tem consequências diretas para a segurança alimentar global e para a imagem do Brasil como um player responsável no agronegócio. O país, que já é o segundo maior exportador de alimentos do mundo, corre o risco de perder espaço para concorrentes que oferecem processos mais ágeis.

    Além disso, a lentidão regulatória desestimula investimentos estrangeiros e nacionais em pesquisa e desenvolvimento. “Se o Brasil não agilizar seus processos, outros países vão ocupar nosso lugar na vanguarda da inovação agrícola”, alertou um executivo do setor que participou da reunião, sob condição de anonimato.

    A participação da Corteva não é casual. A empresa, que recentemente inaugurou um centro de inovação em São Paulo, tem pressionado o governo por mudanças. Em 2023, a empresa investiu mais de US$ 1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento na América Latina, mas enfrenta barreiras para comercializar produtos no Brasil.

    O caminho a seguir: diálogo ou estagnação?

    A reunião no Mapa pode ser um primeiro passo, mas o desafio é enorme. O Brasil precisa de uma reforma regulatória que equilibre segurança jurídica e agilidade, sem abrir mão de critérios técnicos rigorosos. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a solução pode passar por:

    • Criação de um comitê conjunto entre governo, empresas e academia para avaliar tecnologias emergentes.
    • Adoção de prazos máximos para aprovação de novos insumos, com penalidades para órgãos que não cumprirem os limites.
    • Harmonização de normas com blocos como a União Europeia e os EUA, para facilitar o comércio de tecnologias.

    Enquanto isso, o setor aguarda. E a inovação, que poderia ser a salvação do agro brasileiro, segue amarrada pela burocracia.

  • GWM acelera expansão no Brasil: 10 mil carros produzidos em SP e segunda fábrica de R$ 10 bilhões prevista para 2032

    GWM acelera expansão no Brasil: 10 mil carros produzidos em SP e segunda fábrica de R$ 10 bilhões prevista para 2032

    A GWM, fabricante chinesa que opera no Brasil desde agosto de 2025, atingiu um marco simbólico ao produzir 10 mil veículos em sua planta de Iracemápolis (SP). A fábrica, adquirida da Mercedes-Benz em 2021, foi adaptada para produção local com kits CKD, contando hoje com 1.400 colaboradores e operação robótica em etapas críticas como soldagem e pintura. O principal modelo fabricado é o SUV Haval H6, posicionado entre R$ 200 mil e R$ 300 mil.

    Da aquisição à produção local: como a GWM se reinventou no mercado brasileiro

    A planta de Iracemápolis, originalmente voltada para a Mercedes, passou por uma completa readequação para operar com kits desmontados (CKD), uma estratégia para atender às exigências de nacionalização progressiva. Hoje, a fábrica já dispõe de 18 robôs na linha de montagem e quatro estações automáticas de pintura, além de 18 fornecedores nacionais estratégicos como Basf, Bosch e Goodyear. A mudança permitiu à GWM enquadrar-se como fabricante local, superando barreiras tarifárias e ampliando sua competitividade no segmento premium.

    A segunda fábrica no Espírito Santo: um salto de escala e diversificação

    Em fevereiro de 2025, a GWM anunciou a construção de sua segunda unidade no Brasil, em Aracruz (ES), com capacidade estimada de 200 mil veículos por ano — quatro vezes superior à planta paulista. O investimento de R$ 10 bilhões até 2032 já tem R$ 4 bilhões comprometidos na primeira fase, com previsão de geração de 3 mil empregos diretos e até 10 mil indiretos quando operar em plena capacidade. A nova fábrica será estruturada como unidade completa, com estamparia, soldagem, pintura e montagem final, além de áreas dedicadas à produção de componentes estratégicos.

    Ora 5: a aposta multienergia da GWM para conquistar o mercado brasileiro

    Diferentemente da estratégia puramente elétrica de concorrentes, a GWM planeja lançar no Brasil o SUV Ora 5, versão superior do modelo 03, com versões a combustão (turbo flex) e híbrida, além da versão elétrica existente. A decisão reflete uma adaptação ao perfil heterogêneo do consumidor brasileiro, marcado por desigualdades regionais de infraestrutura e renda. Segundo apuração da Motor1 Brasil, executivos da marca confirmam que o Ora 5 será produzido no país, com maior variedade de motorizações que o modelo original chinês, buscando equilibrar custo e performance.

    Impacto econômico e desafios da nacionalização progressiva

    A expansão da GWM não se limita à produção: o novo complexo no Espírito Santo prioriza a nacionalização progressiva, com ampliação da cadeia de suprimentos regional. Isso deve impactar diretamente fornecedores, logística e serviços associados, gerando um efeito multiplicador na economia local. No entanto, a estratégia enfrenta desafios como a necessidade de qualificação da mão de obra e a adaptação às normas brasileiras de segurança e emissões, especialmente para os modelos a combustão. A empresa ainda busca consolidar sua imagem no mercado, tradicionalmente dominado por marcas europeias e japonesas no segmento premium.

  • AGBI: a engenharia da Faria Lima no campo que transformou pastos degradados em minas de ouro do agro brasileiro

    AGBI: a engenharia da Faria Lima no campo que transformou pastos degradados em minas de ouro do agro brasileiro

    Luciano Lewandowski conhece o poder dos números como poucos. Durante anos, ele geriu bilhões em fundos de investimento nos escritórios refrigerados da Faria Lima, onde os gráficos de rentabilidade eram projetados em telões de última geração. Mas foi no interior empoeirado, onde o solo cansado de décadas de exploração mal consegue sustentar um pé de soja, que ele enxergou o verdadeiro filão: terras baratas que poderiam ser transformadas em ativos milionários com o toque certo de engenharia financeira e agronômica.

    A AGBI, gestora fundada por Lewandowski, tornou-se a prova viva de que o Brasil agrário pode ser tão rentável quanto as maiores bolsas de valores. Em vez de apostar em terras já consolidadas, a empresa especializou-se em adquirir pastagens degradadas — aquelas onde o gado mal consegue sobreviver e o solo está tão empobrecido que nem adubo tradicional funciona mais. Com um modelo exclusivo de equity, a AGBI compra essas áreas por preços de “pecuária” (muito abaixo do valor de mercado para agricultura moderna) e aplica uma estratégia agressiva de recuperação: correção química agressiva, plantio de culturas de alto retorno e, em seguida, revenda pelo valor de “soja” ou até mesmo de áreas destinadas a projetos de reflorestamento ou bioenergia.

    Do papel à realidade: como uma pastagem vira uma mina de ouro em três anos

    O processo começa com uma análise criteriosa de localização. A AGBI não busca terras aleatórias: prioriza regiões com clima favorável, logística de escoamento eficiente e, principalmente, solo que responda bem à recuperação. “Não adianta comprar uma fazenda degradada no meio do nada, por mais barata que seja”, explica Lewandowski em entrevista exclusiva. “O segredo está em identificar áreas onde, com investimentos relativamente baixos — mas altamente técnicos —, podemos multiplicar o valor da terra em poucos ciclos produtivos.”

    O passo seguinte é o que Lewandowski chama de “engenharia reversa do solo”: aplicação massiva de calcário e gesso para reequilibrar o pH, seguido de plantio de culturas de cobertura que sequestram carbono e melhoram a estrutura do solo. Em seguida, vem a lavoura principal — geralmente soja ou milho, dependendo da região. Em dois ou três anos, a área que antes produzia menos de 2.000 kg de carne por hectare passa a gerar 4.000 kg de grãos, com potencial de venda pelo dobro ou triplo do preço de compra.

    Os números comprovam a tese. Enquanto os dois primeiros fundos da AGBI (lançados entre 2013 e 2017) levaram quatro anos para captar R$ 60 milhões, o Fundo IV atingiu a mesma marca em apenas duas semanas. “Isso mostra que o mercado finalmente entendeu que o valor real da terra brasileira não está na sua extensão, mas na sua capacidade de transformação”, analisa o executivo. Para 2024, a meta é chegar ao volume de R$ 500 milhões em ativos sob gestão, com previsão de mais três fundos até 2026.

    Oportunidade ou bolha? O risco por trás de um modelo que vende sonhos de lucro rápido

    Críticos do modelo apontam que a estratégia da AGBI depende de condições ideais — clima favorável, preços estáveis das commodities e acesso a crédito barato — para funcionar. “Não é um negócio para amadores”, admite Lewandowski. “Exige capital paciente, gestão técnica impecável e, acima de tudo, timing. Comprar na alta do mercado ou vender na baixa pode transformar o que parece um acerto em um desastre.”

    Outro ponto de atenção é o impacto ambiental. Embora a AGBI se apresente como uma solução para terras degradadas, ambientalistas questionam se a recuperação agressiva de solos não pode, em alguns casos, agravar problemas como a erosão ou a contaminação por agroquímicos. “A degradação não é apenas uma questão de prejuízo econômico, mas também ambiental”, alerta a doutora em agronomia Maria Fernanda Diniz, da Universidade Federal de Viçosa. “Recuperar uma pastagem degradada não pode ser sinônimo de esgotar ainda mais o solo.”

    Lewandowski rebate as críticas com dados: segundo ele, 60% das áreas recuperadas pela AGBI são convertidas em sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta), que aumentam a biodiversidade local. Além disso, a empresa afirma que mais de 70% dos seus investimentos já foram auditados por órgãos ambientais, com selos de sustentabilidade como o CAR (Cadastro Ambiental Rural) e o Protocolo de Sustentabilidade do Agronegócio (PSA).

    O futuro do agro brasileiro passa pela terra que ninguém quer

    Se a AGBI está certa, o Brasil tem nas mãos uma solução para dois problemas simultâneos: a crise de produtividade das pastagens — que já ocupam 25% do território nacional — e a necessidade de atrair capital estrangeiro para o agro, cada vez mais cobiçado por fundos de private equity e investidores institucionais. “O agro não é mais o setor do improviso”, diz Lewandowski. “Hoje, é um laboratório de inovação financeira, onde a terra é tratada como um ativo líquido, negociado em ciclos cada vez mais curtos.”

    Para os cotistas da AGBI, o apelo é claro: trata-se de um investimento tangível, ancorado em ativos reais que, diferentemente das ações ou criptomoedas, não desaparecem em uma crise. Nos últimos cinco anos, os fundos da gestora registraram rentabilidade média de 25% ao ano, com picos de 35% em anos de safra excepcional. “Estamos falando de um modelo que não é especulativo, mas sim de engenharia de valor”, resume Lewandowski. “E nesse jogo, quem coloca a botina no chão e a planilha no bolso sai na frente.”