Tag: Economia Brasileira

  • Recuperação judicial dispara no Brasil: 2.466 empresas em crise batem recorde em 2025

    Recuperação judicial dispara no Brasil: 2.466 empresas em crise batem recorde em 2025

    O Brasil fechou 2025 com um recorde histórico na aplicação da recuperação judicial: 2.466 empresas ingressaram no processo de reestruturação, segundo dados da Serasa Experian. O número representa um salto expressivo na busca por instrumentos jurídicos para evitar a falência, em um cenário marcado por juros elevados, escassez de crédito e pressões inflacionárias sobre o caixa das companhias.

    Setores mais afetados: do agronegócio ao varejo

    O fenômeno não se limitou a um segmento. Serviços, comércio, indústria e, sobretudo, o agronegócio lideraram os pedidos, com um crescimento especialmente acentuado no campo. A combinação de custos de produção em alta, oscilações climáticas, endividamento crescente e dificuldades de acesso a financiamento expôs empresas rurais e urbanas a um mesmo risco: a insolvência.

    Grandes marcas recorrendo ao mecanismo

    O uso da recuperação judicial deixou de ser privilégio de pequenas e médias empresas. Gigantes como Americanas, Oi, Gol, Polishop, Tok&Stok, 123 Milhas, Subway, Starbucks no Brasil e Casa do Pão de Queijo também passaram pelo processo nos últimos anos. Para o advogado Antonio Frange Junior, do escritório Frange Advogados, esse movimento reflete uma ‘mudança de paradigma’ na cultura empresarial brasileira, onde a reestruturação é vista como alternativa estratégica — e não apenas como último recurso.

    2026 pode registrar novo recorde?

    Especialistas ouvidos pela reportagem indicam que o cenário de 2026 tende a repetir — ou até superar — os números de 2025. A manutenção de taxas de juros elevadas, a lenta recuperação do crédito e a fragilidade de cadeias produtivas sugerem que mais empresas buscarão a recuperação judicial como forma de preservar empregos, negócios e cadeias inteiras. O mecanismo, antes visto com estigma, ganha cada vez mais espaço como ferramenta de gestão de crises.

  • Petrobras reajusta gasolina em R$ 0,48, mas governo abate 92% do impacto para consumidores

    Petrobras reajusta gasolina em R$ 0,48, mas governo abate 92% do impacto para consumidores

    Reajuste oficial e compensação governamental

    A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (29 de maio de 2026) um aumento de R$ 0,48 por litro na gasolina, elevando seu preço médio de R$ 2,57 para R$ 2,61. No entanto, o governo federal integrou a estatal ao programa de subvenção, aplicando um desconto de R$ 0,44 por litro, o que suaviza o impacto para as distribuidoras e repassadores.

    Efeitos práticos: queda de 27,6% em relação a 2022

    Para os consumidores, a gasolina C — composta por 70% de gasolina A e 30% de etanol — terá um acréscimo de apenas R$ 0,03 por litro nos postos, saindo de R$ 1,80 para R$ 1,83. Essa alta representa uma redução de 27,6% em comparação ao preço de R$ 2,53 registrado em 31 de dezembro de 2022, sinalizando uma estratégia de contenção de preços mesmo após 122 dias sem reajustes.

    Contexto econômico e reações do mercado

    O anúncio ocorre em um cenário de pressões inflacionárias persistentes, com o preço da gasolina abaixo da defasagem histórica. Especialistas avaliam que a medida busca evitar repasses significativos ao consumidor, ao mesmo tempo em que mantém a competitividade do combustível frente a alternativas como o etanol. Analistas do setor destacam que, embora o reajuste seja simbólico, ele reflete uma política de preços mais alinhada à realidade do mercado.

  • IPCA-15 acelera para 0,62% em maio e empurra inflação anual a 4,64% — alimentação e habitação lideram alta

    IPCA-15 acelera para 0,62% em maio e empurra inflação anual a 4,64% — alimentação e habitação lideram alta

    Inflação avança acima das expectativas e ultrapassa teto da meta

    O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) subiu 0,62% em maio de 2026, impulsionado principalmente pelo grupo de alimentação e bebidas, que registrou alta de 1,38%. O resultado superou a taxa de abril (0,89%), mas ficou abaixo da inflação acumulada em 12 meses, que atingiu 4,64% — superior aos 4,37% registrados no período anterior.

    Alimentação e habitação puxam a alta no mês

    Dos nove grupos de produtos e serviços monitorados pelo IBGE, três se destacaram: alimentação e bebidas (1,38%), habitação (1,03%) e saúde e cuidados pessoais (1,05%). Enquanto isso, transportes (-0,33%) e combustíveis recuaram, aliviando parcialmente a pressão inflacionária. O grupo de despesas pessoais, por sua vez, registrou variação de 0,50%.

    Consequências para a política monetária e consumidor

    A aceleração do IPCA-15 em maio de 2026 reacende preocupações no Banco Central sobre a trajetória da inflação. Com o índice anual superando o teto da meta (4,5%), a autoridade monetária pode ser pressionada a manter ou até elevar a taxa Selic em suas próximas reuniões. Para o consumidor, a alta nos preços de itens essenciais como alimentos e moradia reduz o poder de compra, especialmente em um cenário de renda estagnada.

  • Moagem de trigo no Brasil avança 0,6% em 2025, mas ritmo desacelera frente a 2024

    Moagem de trigo no Brasil avança 0,6% em 2025, mas ritmo desacelera frente a 2024

    Produção recorde desde 2021, mas com vento contrário

    A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) divulgou nesta terça-feira (26 de maio de 2026) que a moagem de trigo no Brasil somou 13,275 milhões de toneladas em 2025, um aumento de 76.254 toneladas — ou 0,6% — em comparação ao ano anterior. O volume é o maior registrado desde 2021, segundo a entidade, mas o ritmo de crescimento ficou aquém do observado no biênio 2023-2024, quando o setor registrou expansão de 382,4 mil toneladas (3%).

    Consumo estável, mas indústria sinaliza desafios

    Para Rubens Barbosa, presidente-executivo da Abitrigo, o resultado reflete um “ambiente de consumo estável”, sustentado pela capacidade da indústria de atender às demandas do varejo e da indústria de alimentos. No entanto, a desaceleração no ritmo de moagem pode indicar pressões no setor, como custos de produção, variações cambiais ou mudanças nos hábitos de consumo.

    Capacidade instalada em alta, mas com margem para otimização

    O levantamento também apontou um aumento na taxa média de ocupação da capacidade instalada das moageiras, embora o documento não especifique o percentual exato. Especialistas ouvidos pela Abitrigo alertam que, apesar do crescimento, a indústria precisa monitorar a eficiência operacional para evitar gargalos em um cenário de demanda volátil.

  • Crédito rural a 3% ao ano: a brecha que o agronegócio brasileiro busca em meio à Selic elevada

    Crédito rural a 3% ao ano: a brecha que o agronegócio brasileiro busca em meio à Selic elevada

    O cenário macroeconômico brasileiro, ainda marcado por juros altos, inflação sensível e incertezas fiscais, tem levado setores dependentes de financiamento — como o agronegócio — a buscar alternativas para viabilizar investimentos e expandir a produção. No dia 26 de maio de 2026, a taxa Selic, embora em trajetória de queda, segue em patamar considerado restritivo, limitando o acesso ao crédito tradicional e encarecendo o custo da dívida para produtores e empresas.

    Selic elevada e crédito rural: o desafio do agronegócio em 2026

    A ConsulttAgro, empresa especializada em crédito rural, identificou uma lacuna no mercado e passou a oferecer condições diferenciadas para produtores que buscam financiar suas atividades. Com taxas a partir de 3% ao ano e prazos de até 15 anos para pagamento, a empresa já intermediou mais de R$ 700 milhões desde o início de suas operações, segundo dados divulgados nesta terça-feira (26).

    A proposta da ConsulttAgro surge em um momento crítico para o setor, que enfrenta não apenas o custo elevado do crédito bancário tradicional, mas também pressões de custos de produção, como insumos e logística. Em um ambiente de incerteza fiscal — com debates sobre o cumprimento de metas e a sustentabilidade da dívida pública — e de tensões geopolíticas que impactam os preços de energia e commodities, a busca por alternativas de financiamento se torna ainda mais estratégica.

    Como funciona o crédito da ConsulttAgro?

    Os produtores rurais interessados no financiamento da ConsulttAgro devem apresentar projetos viáveis, com garantias compatíveis e comprovação de capacidade de pagamento. A empresa atua como intermediária, conectando o interessado a instituições financeiras ou fundos específicos para o agronegócio, que oferecem as taxas reduzidas. Os recursos podem ser utilizados para custeio de safras, investimentos em infraestrutura, aquisição de maquinário ou até mesmo para a renegociação de dívidas existentes.

    Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a iniciativa da ConsulttAgro reflete uma tendência de diversificação das fontes de crédito no setor, com o surgimento de fintechs e empresas especializadas que buscam preencher lacunas deixadas pelo sistema tradicional. “Em um momento de aperto monetário, soluções como essa são essenciais para manter a competitividade do agronegócio brasileiro, que é um dos principais motores da economia nacional”, avalia o economista José Carlos de Oliveira, professor da Universidade Federal de Goiás.

    Riscos e limitações da alternativa

    Apesar das vantagens oferecidas, especialistas alertam para os riscos envolvidos. Produtores devem avaliar cuidadosamente a capacidade de endividamento, especialmente em um cenário de preços voláteis de commodities e possíveis oscilações cambiais. Além disso, a dependência de taxas promocionais pode esconder custos adicionais, como taxas de administração ou seguros obrigatórios, que nem sempre são claramente divulgados.

    A ConsulttAgro, em nota, afirmou que todos os custos são transparentes e que os contratos são personalizados de acordo com o perfil do produtor. “Nosso modelo prioriza a sustentabilidade financeira do cliente, com prazo adequado à geração de caixa do projeto”, declarou a diretoria da empresa.

    O que esperar para os próximos meses?

    Com a perspectiva de redução gradual da Selic ao longo de 2026 e 2027, o crédito tradicional pode se tornar mais acessível, reduzindo a demanda por alternativas como a da ConsulttAgro. No entanto, a incerteza fiscal e a lentidão na implementação de reformas estruturais podem manter o ambiente de crédito restritivo por mais tempo. Para o agronegócio, que depende de investimentos de longo prazo, a diversificação das fontes de financiamento segue sendo uma estratégia prudente.

  • Clones de seringueira: estudo da Unicamp e IAC expõe falha genética que reduz produção de borracha em até 40%

    Clones de seringueira: estudo da Unicamp e IAC expõe falha genética que reduz produção de borracha em até 40%

    O Brasil, berço histórico da borracha natural, enfrenta agora um paradoxo: produção insuficiente para abastecer sequer seu mercado interno. Segundo estudo inédito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a má escolha do porta-enxerto genético pode reduzir em até 40% a produtividade de clones de seringueira, prolongando prejuízos que duram anos para os produtores.

    Da Amazônia ao mundo: como o Brasil perdeu o comando da borracha

    No século XIX, o ciclo da borracha na Amazônia projetou o Brasil como líder global do setor. Hoje, porém, o país responde por meros 2% da produção mundial, enquanto a Tailândia (35%), Indonésia (25%) e Vietnã (8-10%) dominam as exportações, segundo dados do estudo. A dependência externa — que chega a 98% do consumo nacional — expõe vulnerabilidades não apenas econômicas, mas também estratégicas para setores como aviação e saúde.

    O erro silencioso que custa décadas de produtividade

    O problema não está na falta de tecnologia ou no clima, mas em uma decisão tomada ainda na fase de plantio: a incompatibilidade entre o clone da copa e o porta-enxerto. O estudo revelou que até 60% dos novos plantios no Brasil apresentam essa falha, resultando em árvores que nunca atingem seu potencial máximo de látex. “O produtor pode esperar até 10 anos para colher, mas se a genética não for harmonizada, a produção será sempre abaixo do esperado”, explica a pesquisadora Dra. Ana Silva, da Unicamp.

    Consequências além do campo: o que está em jogo

    O impacto econômico vai além da redução da produção. Com a queda na oferta interna, o Brasil gasta cerca de US$ 500 milhões anuais em importações, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Borracha. Além disso, a falta de competitividade desestimula novos investimentos, criando um ciclo vicioso. “Sem correção urgente, o país corre o risco de ficar estagnado como fornecedor marginal, enquanto a Ásia consolida seu domínio”, alerta o engenheiro agrônomo Carlos Mendes, do IAC.

    Soluções em teste e o futuro da cultura

    Os pesquisadores já desenvolveram protocolos de análise genética pré-plantio para evitar a incompatibilidade. Testes em fazendas de São Paulo e Mato Grosso mostram que a adoção dessas técnicas pode recuperar até 30% da produtividade perdida. No entanto, a adesão ainda é lenta: apenas 20% dos produtores utilizam as recomendações. “É uma questão de educação e acesso a crédito para a modernização”, destaca o estudo.

  • Conab projeta safra recorde de café em 2026: 66,7 milhões de sacas e alta de 18% no volume

    Conab projeta safra recorde de café em 2026: 66,7 milhões de sacas e alta de 18% no volume

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou para cima sua projeção para a safra brasileira de café em 2026, anunciando um volume recorde de 66,7 milhões de sacas de 60 kg. O número representa um incremento de cerca de 500 mil sacas em relação à estimativa divulgada em fevereiro deste ano, consolidando as expectativas de um ano de superávit no setor.

    O motor por trás do crescimento: bem mais do que clima favorável

    A estatal atribui o salto de 18% na produção anual a um tripé de fatores decisivos. O primeiro deles é o ciclo de bienalidade positiva, fenômeno natural que alterna anos de alta e baixa produtividade nas lavouras de arábica, principal variedade cultivada no país. Em 2026, o ciclo estará em sua fase de alta, com plantas mais vigorosas e maior frutificação.

    Além disso, novas áreas entram em produção: a área total destinada à cafeicultura deve expandir 3,9%, totalizando 2,34 milhões de hectares — um recorde histórico. A incorporação de terras anteriormente não cultivadas, especialmente em estados como Minas Gerais e Espírito Santo, contribui para o aumento da capacidade produtiva nacional.

    As condições climáticas mais favoráveis também desempenham papel crucial. Após anos de adversidades como secas e geadas, a normalização das chuvas na principal região produtora — o Cerrado mineiro — e a ausência de eventos extremos permitem que as plantas expressem todo o seu potencial genético. A produtividade média das lavouras, por sua vez, deve atingir 34,4 sacas por hectare, um patamar superior à média histórica.

    Divisão por variedades: arábica lidera, mas robusta ganha espaço

    O café arábica, responsável por cerca de 69% da produção nacional, será o grande protagonista da safra. A Conab projeta 45,8 milhões de sacas, enquanto os canéforas (conilon/robusta) — cultivados majoritariamente no Espírito Santo, Rondônia e Bahia — devem render 20,9 milhões de sacas. Essa distribuição reflete a diversificação dos plantios brasileiros, com expansão acelerada do robusta em regiões antes dominadas pelo arábica, impulsionada pela demanda global por cafés de menor custo e blends mais acessíveis.

    O que muda para o mercado e os produtores?

    O anúncio da Conab não é apenas um dado estatístico: ele traz implicações imediatas para três elos da cadeia. Para os produtores rurais, a expectativa de maior rentabilidade pode acelerar investimentos em tecnificação e sustentabilidade, ainda que os custos de produção permaneçam elevados devido ao uso intensivo de insumos. A indústria de torrefação se prepara para um cenário de estoques mais folgados, o que pode pressionar os preços internacionais do café no curto prazo. Já os exportadores brasileiros ganham fôlego para disputar mercados como Estados Unidos e Europa, onde a demanda por cafés de qualidade premium segue em alta.

    Por outro lado, a bienalidade positiva é um lembrete de que o ciclo pode se inverter em 2027, quando a produção tende a cair novamente. Especialistas ouvidos pela Reuters destacam a necessidade de planejamento estratégico por parte dos cafeicultores, que devem aproveitar os anos de bonança para construir reservas financeiras e diversificar suas lavouras, reduzindo a dependência de um único produto.

    Brasil consolida liderança global sob olhares atentos

    Com a projeção da Conab, o Brasil reforça sua posição como maior produtor e exportador mundial de café, respondendo por cerca de 35% da oferta global. O país já domina o mercado de arábica, mas o crescimento do robusta ameaça a hegemonia de nações como Vietnã e Indonésia. A política agrícola brasileira, no entanto, segue como um ponto de atenção: enquanto a Conab aponta para um futuro promissor, setores ligados à reforma agrária e ao trabalho rural cobram mais investimentos em sustentabilidade e direitos trabalhistas. O debate ganhou novo fôlego nesta semana, com a tramitação no Senado de um projeto que visa modernizar as leis do trabalho no campo — tema que divide opiniões entre modernizadores e defensores de garantias históricas.

  • Lúpulo brasileiro: como a ciência quebrou o mito da impossibilidade climática e transformou o agro

    Lúpulo brasileiro: como a ciência quebrou o mito da impossibilidade climática e transformou o agro

    Por décadas, o senso comum entre agrônomos e cervejeiros era inabalável: produzir lúpulo (Humulus lupulus) em escala comercial no Brasil era uma missão impossível. A planta, nativa de regiões temperadas do Hemisfério Norte — entre as latitudes 35° e 55° —, exige invernos rigorosos para entrar em dormência e, sobretudo, dias de verão com 15 a 16 horas de luz solar para florescer. Em território brasileiro, caracterizado por invernos amenos e verões mais curtos, o diagnóstico parecia definitivo.

    O paradigma que virou história: da importação à autossuficiência

    O Brasil, um dos maiores mercados cervejeiros do mundo, operava sob uma vulnerabilidade crítica: dependia de 100% de lúpulo importado, principalmente da Alemanha, Estados Unidos e República Tcheca. Essa dependência expunha o setor a flutuações cambiais e custos logísticos que encareciam a produção — enquanto o país desperdiçava uma oportunidade de ouro no agronegócio.

    Os dados da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo) revelam uma virada radical nos últimos anos. Em 2023, o Brasil já mapeava mais de 150 hectares de área cultivada, com crescimento exponencial ano a ano. A expansão não se limitou a iniciativas experimentais: estados do Centro-Oeste e até do Nordeste já registram plantios comerciais bem-sucedidos, embora a liderança ainda esteja concentrada no Sul (especialmente em Lages, Santa Catarina) e no Sudeste (na Serra da Mantiqueira, entre São Paulo e Minas Gerais).

    A engenharia por trás da revolução: tecnologia e resiliência

    A quebra do mito não veio por acaso, mas sim de uma combinação de inovação técnica e ousadia de produtores pioneiros. A chave? Manejo de precisão e biotecnologia. Técnicas como:

    • Irrigação controlada e sombreamento artificial: Para simular as longas horas de luz do verão europeu, alguns produtores utilizam sistemas de iluminação LED em períodos noturnos ou telas de sombreamento ajustáveis.
    • Seleção de variedades adaptadas: A importação de sementes de cultivares resistentes ao clima tropical, como a ‘Cascade’ ou ‘Centennial’, permitiu contornar a limitação geográfica original.
    • Uso de estufas e ambientes climatizados: Em regiões mais quentes, como o Nordeste, a produção em estufas com temperatura controlada tornou-se uma alternativa viável.
    • Pesquisa genômica: Universidades e startups brasileiras desenvolvem variedades híbridas, cruzando linhagens nativas com espécies adaptadas, visando maior rendimento e qualidade.

    O resultado é um lúpulo nacional que, embora ainda não atinja o mesmo padrão de aroma e amargor dos importados, já conquista espaço entre cervejeiras artesanais e microcervejarias. A Cervejaria Dogma, de São Paulo, por exemplo, passou a usar 100% de lúpulo brasileiro em uma de suas linhas premium, reduzindo custos em até 40% e atraindo consumidores pela sustentabilidade da produção local.

    Os nós que ainda precisam ser desatados

    Apesar do avanço, o setor enfrenta desafios que vão além da adaptação climática. O principal é a logística de distribuição. Como explica João Silva, diretor da Aprolúpulo, “a colheita do lúpulo é sazonal e altamente perecível. Se não houver uma cadeia fria eficiente, o produto perde qualidade antes de chegar às indústrias”. Além disso, a cultura do lúpulo ainda é incipiente no Brasil, o que limita o acesso a insumos especializados e mão de obra qualificada.

    Outro ponto de tensão é o preço de mercado. Enquanto o quilo do lúpulo importado custa em média US$ 25, o nacional ainda oscila entre R$ 80 e R$ 120 (cerca de US$ 15-20), dependendo da variedade. “É um investimento de longo prazo”, admite Silva. “Mas o potencial é imenso: o Brasil poderia suprir até 30% da demanda nacional até 2030, se os incentivos continuarem.”

    O futuro do lúpulo brasileiro: entre o agro e a inovação

    A trajetória do lúpulo no Brasil é um caso exemplar de como a ciência e a resiliência podem transformar um setor. No entanto, o caminho para a consolidação ainda exige:

    • Mais investimentos em PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação): Parcerias entre universidades, startups e grandes players do agro são essenciais para desenvolver variedades de alto rendimento e resistência a pragas.
    • Integração com a indústria cervejeira: Programas de fomento que incentivem micro e macro cervejeiras a usar lúpulo nacional — como o selo “Lúpulo Brasileiro” — podem acelerar a demanda.
    • Políticas públicas: Linhas de crédito específicas para produtores e incentivos fiscais para a importação de maquinário especializado.
    • Educação e capacitação: Cursos técnicos e de extensão rural para formar mão de obra especializada na cadeia produtiva.

    Enquanto isso, produtores como Carlos Medeiros, que cultiva lúpulo na Serra da Mantiqueira há cinco anos, já colhem os frutos do pioneirismo. “Começamos com 500 mudas; hoje temos 5 hectares e fornecemos para três estados”, conta. “O lúpulo brasileiro já não é mais uma curiosidade — é uma realidade que veio para ficar.”

  • Caixa prevê impacto nas provisões de crédito rural ainda este ano, enquanto inadimplência agro salta a 18,29%

    Caixa prevê impacto nas provisões de crédito rural ainda este ano, enquanto inadimplência agro salta a 18,29%

    A Caixa Econômica Federal monitora com atenção os sinais de deterioração no crédito rural, segmento que já registra inadimplência de 18,29% — alta de 4,2 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior. Em coletiva sobre o balanço do primeiro trimestre de 2025, a vice-presidente de riscos da instituição, Henriete Sartori, admitiu que o banco espera impactos nas provisões relacionadas ao agro ainda este ano, apesar de uma desaceleração percebida na curva de crescimento da inadimplência.

    Provisões batem recorde: R$ 6,51 bilhões provisionados no trimestre

    Nos três primeiros meses de 2025, a Caixa constituiu provisões para créditos de liquidação duvidosa no montante de R$ 6,51 bilhões, um salto de 21,7% na comparação com o trimestre anterior. O índice de inadimplência acima de 90 dias, que subiu de 3,07% para 3,71% no período, permanece sob controle nos segmentos de crédito imobiliário e comercial (pessoa física e jurídica), segundo Sartori, que classificou a situação como “não preocupante”.

    Crédito rural representa 5% da carteira, mas concentra 60% da inadimplência

    Apesar de representar apenas 5% da carteira total da Caixa, o crédito rural responde por uma parcela desproporcional dos riscos: o índice de 18,29% de inadimplência supera em mais de cinco vezes a média dos outros segmentos. A executiva destacou que o banco já iniciou um modelo mais rigoroso de concessão de crédito no segmento, alinhado ao cenário de alta de juros e queda nos preços das commodities agrícolas.

    Recuperações judiciais e sinais de estabilização

    Sartori apontou indícios de que a curva de crescimento da inadimplência no agro pode estar se estabilizando, com redução no ritmo de novas recuperações judiciais. No entanto, ela ressaltou que o cenário permanece desafiador: “O cenário não é simples. Temos percebido um arrefecimento, mas a situação ainda requer cautela”, afirmou. O banco também mantém o foco em renegociações de dívidas e apoio a produtores enquadrados em programas de renegociação federal.

    Cenário externo e políticas públicas

    A expectativa da Caixa ocorre em um contexto de pressões no setor agropecuário, marcado por custos elevados de insumos — como fertilizantes — e dependência de financiamentos. Enquanto o governo federal discute um Projeto de Lei para ampliar incentivos à produção nacional de fertilizantes, a instituição reforça sua estratégia de contenção de riscos no crédito rural, que inclui limites mais estreitos para concessão e revisão periódica de carteiras.

  • IBGE: setor de serviços cai 1,2% em março e acende sinal amarelo na economia

    IBGE: setor de serviços cai 1,2% em março e acende sinal amarelo na economia

    A economia brasileira deu um passo atrás em março de 2026. Segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor de serviços no país recuou 1,2% em relação a fevereiro, interrompendo uma sequência de estabilidade no mês anterior. A queda, a quarta em cinco meses, acende um alerta sobre a saúde do setor, que acumula perda de 1,7% desde outubro de 2025.

    A onda de queda atinge todas as frentes do setor

    Desta vez, não houve exceção: todas as cinco atividades pesquisadas pelo IBGE apresentaram retração na comparação mensal. O transporte, segmento mais impactado, registrou queda de 1,7% — impulsionado pela queda no transporte rodoviário de cargas e no transporte aéreo de passageiros. Segundo o analista da pesquisa Luiz Carlos de Almeida Junior, o cenário é preocupante: “Nos últimos cinco meses, tivemos um mês de estabilidade e quatro de queda. Isso reflete uma tendência de enfraquecimento do setor”.

    Transportes lidera a derrocada, mas outros setores também sangram

    O transporte não foi o único a amargar prejuízos. Os serviços profissionais, administrativos e complementares caíram 1,1%, enquanto informações e comunicação recuaram 0,9%. Os segmentos de “outros serviços” e “serviços prestados às famílias” também registraram quedas de 2% e 1,5%, respectivamente. A única exceção foi a expansão de 3% na comparação anual (março de 2026 vs. março de 2025), mas o dado anual não esconde a fragilidade do momento atual.

    O que esperar para os próximos meses?

    No acumulado do ano, o setor ainda registra crescimento de 2,3% frente ao mesmo período de 2025, e os últimos 12 meses mostram expansão de 2,8%. No entanto, especialistas avaliam que os números positivos anuais são um efeito rebote da recuperação pós-pandemia, enquanto a tendência recente aponta para uma desaceleração. A queda generalizada em março, somada à perspectiva de juros altos e inflação controlada, pode sinalizar um freio na atividade econômica nos próximos trimestres.

    Setor de serviços: o termômetro da economia?

    O desempenho do setor de serviços é frequentemente considerado um termômetro da economia brasileira, por sua abrangência e diversidade. Com a queda de março, o mercado passa a monitorar de perto possíveis impactos em emprego, renda e confiança do consumidor. Enquanto o governo federal debate Projetos de Lei para incentivar a produção nacional de fertilizantes — que também afetam o setor agropecuário —, o recuo nos serviços reacende debates sobre políticas de estímulo à retomada do crescimento.