Pecuaristas jogam duro, mas custos apertam a armadilha
Na última quarta-feira (8/7), o mercado físico do boi gordo no estado de São Paulo registrou nova queda na cotação da arroba, após um breve respiro no início do mês. A resistência dos pecuaristas em ceder às pressões dos frigoríficos — que tentam alongar escalas de abate e reduzir estoques — mantém o ambiente pressionado, mas com um agravante: a escalada dos custos de produção.
Segundo a Safras & Mercado, o ritmo de negócios segue lento, com pouca disposição dos produtores em vender animais a preços considerados insatisfatórios. “Os pecuaristas estão relutantes em entregar, mas a margem de manobra começa a se esgotar”, analisa Fernando Henrique Iglesias, especialista da consultoria. A seca que castiga as pastagens neste período do ano e a necessidade de girar lotes em confinamentos — onde os custos operacionais explodem — tornam a estratégia de segurar a boiada cada vez mais onerosa.
Frigoríficos apostam no controle de estoques, mas a China acende o sinal amarelo
Do lado da demanda, os frigoríficos enfrentam um duplo desafio. Internamente, o consumo doméstico segue enfraquecido, com consumidores mais cautelosos em um cenário de inflação persistentemente alta. Externamente, as exportações para a China — principal destino da carne brasileira — mostram sinais de arrefecimento, segundo dados recentes do Ministério da Agricultura.
A combinação de fatores levou muitas indústrias a reduzir escalas de abate, na tentativa de evitar sobrecarregar os estoques. “Os frigoríficos estão trabalhando com margens mais apertadas e não têm como sustentar preços altos para os produtores”, explica um executivo do setor, que pediu anonimato. A estratégia, contudo, esbarra na resistência dos pecuaristas, que veem na atual conjuntura uma oportunidade de barganhar melhores valores — ainda que a janela para isso possa se fechar rapidamente.
O que esperar nos próximos dias?
A expectativa é de que a disputa persista até pelo menos o final do mês, quando tradicionalmente o mercado ganha fôlego com o início da entressafra. Até lá, pecuaristas e frigoríficos seguirão em uma queda de braço, enquanto os custos — especialmente os de alimentação animal — seguem pressionando as margens de ambos os lados.
Para os consumidores, a notícia pode ser positiva a médio prazo: uma eventual acomodação dos preços da arroba poderia aliviar a pressão sobre os valores da carne no varejo. Já para os produtores, o cenário exige cautela. “Segurar boiada em um momento de custos altos é como apostar contra o relógio”, alerta Iglesias. “A qualquer momento, a conta pode vir à tona.”

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