Casu Marzu: o queijo ‘vivo’ da Sardenha que divide a Europa entre proibição e paixão gastronômica

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Da Sardenha para o mundo: a origem de um queijo ‘proibido’

Produzido há séculos na ilha da Sardenha, o Casu Marzu é um queijo de leite de ovelha (Pecorino) que ganha sua fama — ou infâmia — quando moscas da espécie Piophila casei depositam seus ovos na massa ainda fresca. Após eclodirem, as larvas se alimentam do queijo, amolecendo-o e criando um produto de textura pastosa e sabor intenso, descrito por entusiastas como ‘explosivo’ e ‘adictivo’.

Por que a Europa o proíbe? O lado B da iguaria

A União Europeia classifica o Casu Marzu como ‘perigoso’ desde 2013, quando a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) emitiu alertas sobre os riscos de contaminação por bactérias como E. coli e Listeria, além de casos de alergias graves. O perigo não está apenas nas larvas, mas na possibilidade de partes do inseto sobreviverem ao processo digestivo, causando perfurações intestinais. Até hoje, não há registros oficiais de mortes, mas hospitais italianos relatam casos de pacientes com dores abdominais severas após consumi-lo.

Um mercado clandestino milionário: quem arrisca e por quê?

Apesar da proibição, o Casu Marzu movimenta um comércio ilegal estimado em milhões de euros anuais. Nas feiras subterrâneas de Cagliari, a capital sarda, o produto é vendido por até €50/kg — preço de ouro para um queijo que, segundo especialistas, não passa por mais de 24 horas de maturação antes do consumo. Os principais compradores são turistas aventureiros, colecionadores de experiências extremas e, surpreendentemente, chefs de restaurantes estrelados que o utilizam como ingrediente secreto em pratos ‘exclusivos’.

O dilema cultural: tradição versus saúde pública

A defesa do Casu Marzu vem de grupos como a Associazione Casu Marzu, que argumenta tratar-se de um patrimônio gastronômico da Sardenha, comparando sua situação à do foie gras ou do haggis escocês — ambos produtos de origem animal que enfrentaram resistência inicial. Em 2024, um projeto de lei na Itália tentou regulamentar seu consumo com rótulos de advertência e controle sanitário, mas a proposta foi arquivada sob pressão da comunidade europeia. Enquanto isso, o queijo ‘vivo’ segue como um símbolo da tensão entre globalização e identidade local.

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