Na última semana, um dos maiores prejuízos já registrados na pecuária brasileira de corte chocou o setor: mais de mil bovinos Nelore morreram em um confinamento do Centro-Oeste, segundo relatos de técnicos e produtores ouvidos pela Cenário & Fatos. A causa? Uma doença pouco discutida fora do meio especializado, mas devastadora para sistemas intensivos: a enterotoxemia, provocada pela bactéria Clostridium perfringens tipo A.
Doença silenciosa que mata em horas
A enterotoxemia é uma das enfermidades mais temidas pelos veterinários de confinamento. Em questão de horas, o animal pode apresentar sintomas como diarreia sanguinolenta, cólicas e prostração — ou, em muitos casos, simplesmente é encontrado morto no curral, sem qualquer sinal prévio. “É uma doença que não avisa”, afirmou à Cenário & Fatos o zootecnista Ricardo Mendes, especialista em nutrição animal. “Os confinamentos modernos, com dietas ricas em carboidratos fermentáveis, criam um ambiente ideal para a proliferação dessa bactéria.”
A pecuária intensiva cobra seu preço?
O surto no Centro-Oeste reacendeu um debate latente entre produtores e técnicos: os protocolos sanitários e nutricionais estão acompanhando a evolução acelerada dos confinamentos brasileiros? Segundo dados da Associação Brasileira de Confinamento (ASSOCON), o Brasil fechou 2025 com mais de 5 milhões de animais confinados — um recorde histórico. No entanto, especialistas alertam que a pressão por ganhos de peso cada vez mais rápidos pode estar expondo os rebanhos a riscos antes subestimados.
“A enterotoxemia não é novidade, mas os surtos estão se tornando mais frequentes”, destaca a veterinária Fernanda Oliveira, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “O problema não é só o manejo nutricional, mas também a falta de vacinação adequada e a subestimação do risco em animais de alto desempenho — justamente aqueles mais valiosos para o produtor.”
O que especialistas recomendam para evitar novas tragédias
Diante do ocorrido, veterinários e nutricionistas listam três medidas urgentes para prevenir novos casos:
- Revisão imediata dos protocolos vacinais: A vacinação contra clostridioses deve ser reforçada, especialmente em animais recém-chegados ao confinamento ou submetidos a dietas de alto concentrado.
- Monitoramento nutricional rigoroso: Dietas com excesso de grãos ou carboidratos fermentáveis devem ser ajustadas, com inclusão de fibras e controle da taxa de passagem dos alimentos.
- Adoção de protocolos de biossegurança: Isolamento de animais doentes, limpeza constante dos currais e controle de moscas — vetores comuns da bactéria — são essenciais.
Para o presidente da ASSOCON, Marcelo Furtado, o caso deve servir como alerta para todo o setor. “Não podemos mais tratar a enterotoxemia como uma doença secundária. Em um cenário de preços voláteis e margens apertadas, cada animal perdido representa um golpe duro na rentabilidade”, afirmou. “Os confinamentos precisam investir em prevenção, não apenas em correção.”
Consequências além do prejuízo econômico
As perdas vão além do valor dos animais abatidos. Em um mercado cada vez mais exigente, surtos como esse podem abalar a credibilidade do Brasil como fornecedor global de carne bovina. “Países importadores já começam a questionar nossos protocolos sanitários. Um surto de enterotoxemia mal controlado pode ter reflexos não só na exportação, mas também no preço da arroba no mercado interno”, alertou um consultor de cadeia produtiva que preferiu não se identificar.
Enquanto a investigação do ocorrido no Centro-Oeste segue em sigilo, uma coisa é certa: a pecuária intensiva brasileira precisa urgentemente repensar seus métodos. A morte de mais de mil bovinos em menos de 72 horas não foi apenas uma tragédia — foi um sintoma de um sistema que, em nome do lucro rápido, pode estar negligenciando a saúde animal.

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