O Sul lucra com o fenômeno; o Centro-Oeste, nem tanto
Uma análise inédita compilando 25 safras de soja no Brasil (2000-2025) revela um El Niño com dois rostos distintos. No Sul — Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina —, o fenômeno tende a trazer chuvas mais regulares na primavera e início do verão, reduzindo os riscos de seca e impulsionando a produtividade. Segundo dados da Conab e Embrapa, em anos de El Niño forte (como 2009/2010 e 2015/2016), as lavouras sulistas registraram até 12% de aumento na produtividade média em comparação com safras neutras. O clima, nesse caso, é um aliado.
Mato Grosso e Goiás: onde o El Niño vira ameaça
Já no Centro-Oeste, a história é inversa. Em Mato Grosso e Goiás, o fenômeno costuma intensificar a seca no verão, período crítico para a soja, e reduzir a umidade do solo em até 30% durante a floração — fase decisiva para a formação de vagens. Os dados mostram que, nesses estados, as perdas médias em safras de El Niño chegam a 8% na produtividade. Em 2015/2016, por exemplo, Mato Grosso registrou uma quebra de 15% na safra de soja, enquanto o Rio Grande do Sul colheu números recorde. A assimetria não é casual: o El Niño altera os padrões de ventos e umidade de forma regional, favorecendo o Sul e prejudicando o Centro-Oeste.
O mercado já precifica o risco — e o produtor precisa fazer o mesmo
A dependência do Brasil como maior exportador global de soja (37% do mercado em 2025) faz com que os impactos do El Niño transcendam as lavouras. Em anos de fenômeno forte, como 2026, analistas projetam uma queda de até 5% nas exportações brasileiras, pressionando os preços internacionais. Para o produtor, isso significa: 1) hedge financeiro para proteger a margem; 2) diversificação de culturas em áreas de risco; e 3) investimento em tecnologias de irrigação ou sementes tolerantes à seca, especialmente em Goiás e Mato Grosso. A lição dos últimos 25 anos é clara: ignorar o El Niño não é uma opção.
O que esperar da safra 2026?
Até 2 de junho de 2026, os modelos climáticos indicam um El Niño de intensidade moderada a forte, com pico entre outubro de 2026 e janeiro de 2027 — justamente o período da safra. Para o Sul, as perspectivas são positivas: chuvas mais distribuídas e menor risco de geadas tardias. Já para o Centro-Oeste, o alerta é para o manejo do déficit hídrico. A Embrapa recomenda aos produtores da região que antecipem o plantio (evitando a janela de maior risco) e monitorem constantemente os boletins da Climatempo. Afinal, como mostra a história, o El Niño não é um fenômeno abstrato — é um player decisivo na economia brasileira.

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