Categoria: Economia

  • Fiat no Brasil: como uma aposta em Minas Gerais mudou a indústria automotiva há 50 anos

    Fiat no Brasil: como uma aposta em Minas Gerais mudou a indústria automotiva há 50 anos

    Uma decisão que quebrou paradigmas em 1976

    Em uma época em que o eixo automotivo brasileiro ainda se concentrava em São Paulo, a Fiat ousou ao escolher Betim, Minas Gerais, para instalar sua primeira fábrica no país. A decisão, anunciada em março de 1973 no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, foi estratégica: longe do polo tradicional, mas com incentivos estaduais e uma mão de obra disposta a apostar no novo. Contra a resistência da indústria local e os desafios logísticos de uma cadeia de suprimentos ainda incipiente, a empresa italiana sabia que teria de enfrentar gigantes como Volkswagen, Ford e General Motors — marcas há décadas enraizadas no mercado brasileiro e com investimentos já amortizados.

    Do Fiat 127 europeu ao 147 brasileiro: engenharia adaptada às nossas estradas

    A transformação do Fiat 127, modelo europeu lançado em 1971, no robusto 147 brasileiro foi um marco de engenharia. As adaptações não foram meras: as suspensões foram reforçadas para suportar estradas de terra e buracos, os motores ajustados para lidar com combustíveis de qualidade inferior, e a carroceria ampliada para caber mais passageiros — uma demanda típica do mercado nacional da época. A Fiat não apenas importou um carro; reinventou-o para o Brasil, um processo que exigiu meses de testes e ajustes.

    Aposta em marketing e esportes: quando Emerson Fittipaldi virou garoto-propaganda

    O lançamento do 147, em setembro de 1976, não foi apenas um evento industrial, mas um fenômeno de marketing. A Fiat apostou alto em campanhas publicitárias que destacavam a robustez do carro, associando-o à força e à inovação. A contratação do então bicampeão mundial de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, como garoto-propaganda, foi um golpe de mestre: o piloto, que já era um ídolo nacional, emprestou credibilidade à marca e ao produto, atraindo consumidores que buscavam confiabilidade. As propagandas televisionadas e em revistas mostravam o 147 enfrentando terrenos adversos, um discurso que ressoou em um país onde a infraestrutura ainda deixava a desejar.

    De cidade rural a polo automotivo: o legado invisível da Fiat em Betim

    Antes da Fiat, Betim era uma cidade tipicamente mineira, com uma economia baseada na agricultura e no comércio local. A chegada da montadora, entretanto, mudou o jogo: a cidade se transformou em um polo industrial, atraindo fornecedores, mão de obra especializada e investimentos. A fábrica não apenas gerou empregos diretos, mas também impulsionou o desenvolvimento de uma cadeia de autopeças e serviços logísticos na região. Hoje, meio século depois, Betim é sinônimo de indústria automotiva, e a Fiat segue como um dos pilares desse crescimento — um legado que transcende o 147 e se estende por gerações.

    Lições de uma trajetória: o que a história do 147 ensina hoje

    A história da Fiat no Brasil é um estudo de resiliência e adaptação. A empresa errou, acertou, teve momentos de sorte e dúvida, mas conseguiu se firmar em um mercado dominado por concorrentes experientes. A lição principal? A inovação não precisa vir de onde todos esperam. Às vezes, é preciso olhar para além do óbvio — como Betim, longe do eixo tradicional — para encontrar oportunidades. Hoje, enquanto o Brasil discute a transição para a mobilidade elétrica e a retomada da indústria nacional, a trajetória da Fiat serve como um lembrete: o futuro pode ser construído em qualquer lugar, desde que haja ousadia e capacidade de reinventar.

  • Plano Safra 2026/27: governo lança R$ 525 bilhões, mas crédito rural ainda trava produtores

    Plano Safra 2026/27: governo lança R$ 525 bilhões, mas crédito rural ainda trava produtores

    Plano Safra 2026/27: volume recorde, mas com lacunas

    O governo federal lançou oficialmente, na última quarta-feira (09/07/2026), o Plano Safra 2026/27 com um volume recorde de R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial. Os recursos, direcionados para custeio, comercialização e investimentos, incluem redução de taxas de juros em algumas linhas e ampliação dos valores para investimento. No entanto, o programa já nasce sob críticas: o aumento da concorrência por financiamento, o endividamento crescente dos produtores e a adoção de critérios mais rígidos por parte das instituições financeiras ameaçam deixar parte do setor sem acesso ao crédito necessário.

    Crédito rural a 3% ganha espaço, mas não resolve a demanda

    O Plano Safra 2026/27 trouxe como destaque a expansão de linhas com taxas de juros a partir de 3%, como o Programa de Modernização da Agricultura e Conservação de Solos (Moderagro). Ainda assim, especialistas ouvidos pela imprensa destacam que o volume de recursos não é suficiente para atender toda a demanda, especialmente em um cenário de restrição creditícia. Segundo dados de uma consultoria especializada, mais de R$ 700 milhões em operações de crédito rural foram intermediadas em 2025, reflexo da busca por alternativas diante das dificuldades impostas pelos bancos.

    Setor divide-se entre otimismo e ceticismo

    Enquanto o governo destaca a ampliação dos recursos para investimento — 29% maior que na safra anterior —, entidades representativas do agronegócio, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), alertam que a redução dos valores para custeio e comercialização pode prejudicar a manutenção das atividades no campo. “O problema não é apenas a falta de recursos, mas a burocracia e os prazos de liberação, que muitas vezes inviabilizam o planejamento do produtor”, afirmou um representante da CNA.

    O que esperar nos próximos meses?

    Ainda que o Plano Safra 2026/27 represente um alento para grandes e médios produtores, a realidade dos pequenos agricultores continua preocupante. A expectativa é de que a pressão sobre o crédito rural se intensifique nos próximos meses, com possíveis ajustes no programa para ampliar o acesso. Enquanto isso, a consultoria que intermediou R$ 700 milhões em crédito rural aponta que a solução pode estar em modelos alternativos, como fundos privados e parcerias com cooperativas, para mitigar o gargalo no financiamento do campo.

  • Açúcar dispara nas bolsas globais: oferta restrita e safra brasileira em xeque

    Açúcar dispara nas bolsas globais: oferta restrita e safra brasileira em xeque

    O mercado internacional de commodities registrou mais uma rodada de alta nos preços do açúcar nesta quinta-feira (9 de julho de 2026), com os contratos futuros negociados nas bolsas de Nova York e Londres registrando fortes valorizações. A escalada reflete um cenário de oferta restrita, alimentado por dois fatores-chave: a evolução da safra brasileira — maior exportador global — e a redução das projeções para a produção em outros gigantes como Índia e Tailândia.

    A safra brasileira em foco: cana-de-açúcar sob pressão climática

    Segundo a DATAGRO, a moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil, principal polo produtor do país, segue sendo monitorada de perto pelos agentes do mercado. Embora o Brasil mantenha volumes elevados de produção, as condições climáticas adversas — incluindo secas prolongadas em algumas regiões e excesso de chuvas em outras — têm impactado a produtividade e a qualidade da matéria-prima, o que pode limitar a oferta de açúcar nos próximos trimestres.

    India e Tailândia: dois elos críticos na cadeia global

    A Índia, segundo maior produtor mundial, enfrenta desafios semelhantes, com a safra 2026/2027 projetada para ser menor devido a problemas logísticos e climáticos. Já a Tailândia, terceiro maior exportador, também vê suas perspectivas de colheita diminuírem, o que reduz a pressão sobre os estoques globais. Com menos países capazes de compensar eventuais deficits, o mercado fica mais suscetível a choques de preço.

    O que esperar nos próximos meses?

    Analistas ouvidos pela DATAGRO indicam que, caso as condições climáticas não se revertam rapidamente, os preços do açúcar podem manter a trajetória ascendente até o final do segundo semestre de 2026. Além disso, a demanda por etanol — que compete diretamente com o açúcar pela cana-de-açúcar — também influencia a dinâmica do mercado, especialmente no Brasil, onde a proporção de cana destinada a cada produto é ajustada conforme os preços relativos.

    Para os consumidores, a alta pode se traduzir em preços mais elevados nos supermercados e indústrias, enquanto países importadores, como os da África e Oriente Médio, devem buscar alternativas ou renegociar contratos. Em um cenário de oferta apertada, até mesmo pequenas variações na produção podem gerar grandes impactos nos mercados internacionais.

  • Carne brasileira vetada na Europa a partir de setembro: Mapa impõe desafio aos produtores

    Carne brasileira vetada na Europa a partir de setembro: Mapa impõe desafio aos produtores

    Em 3 de setembro de 2026, a União Europeia imporá um veto à carne brasileira, fechando suas portas para exportações de bovinos, frangos, equinos, pescados, mel e tripas produzidos no Brasil. A decisão decorre de novas regras do bloco sobre o uso de antimicrobianos na pecuária, que o país não atende integralmente.

    A exclusão do Brasil da lista de exportadores aprovados pela UE

    Em junho de 2026, a UE atualizou sua lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal. O Brasil, que até então fazia parte do seleto grupo, foi retirado após auditorias que identificaram falhas nos controles sanitários e no uso de medicamentos veterinários. A suspensão afeta diretamente um dos principais mercados para a carne brasileira, que em 2025 exportou mais de US$ 12 bilhões em produtos agropecuários para o bloco.

    Responsabilidade do setor privado: o que os produtores precisam fazer

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) deixou claro que a adaptação às normas europeias é uma tarefa prioritária do setor privado. A pasta afirmou que cabe aos frigoríficos e pecuaristas implementar sistemas privados de controle sanitário para rastrear e reduzir o uso de antimicrobianos, além de garantir a conformidade com os limites máximos de resíduos estabelecidos pela UE.

    Consequências para o agronegócio brasileiro

    O veto europeu representa um golpe duro para o agronegócio nacional, que já enfrenta pressões em outros mercados devido a questões ambientais e trabalhistas. Analistas do setor estimam que a perda do acesso à UE pode reduzir as exportações de carne bovina em até 15% nos próximos meses, além de impactar a cadeia de frangos e pescados. A adequação às normas europeias, embora onerosa, é vista como um passo necessário para manter a competitividade global do Brasil.

  • Colheita de café segue abaixo da média em julho de 2026: atrasos e El Niño ameaçam safra

    Colheita de café segue abaixo da média em julho de 2026: atrasos e El Niño ameaçam safra

    A colheita de café no Brasil, embora tenha ganhado impulso nas últimas semanas com a melhora do clima seco, ainda patina abaixo das médias históricas para esta época do ano. Segundo dados do Cepea, as atividades seguem atrasadas em comparação a 2025, quando muitas regiões já haviam superado a marca de 50% da safra colhida em julho.

    Chuvas em junho frearam o ritmo, e El Niño pode piorar

    Os atrasos acumulados em junho, quando chuvas atípicas atingiram áreas produtoras como Minas Gerais e Espírito Santo, ainda refletem nos números atuais. Pesquisadores do Cepea alertam que o fenômeno El Niño, que tende a elevar as temperaturas nas regiões cafeeiras, pode agravar a situação, comprometendo tanto a quantidade quanto a qualidade dos grãos nos próximos meses.

    Qualidade dos cafés colhidos é a nova preocupação

    Além da lentidão na colheita, o setor enfrenta incertezas quanto à qualidade dos cafés já colhidos. A combinação de umidade residual e calor antecipado pode favorecer a proliferação de doenças fúngicas, reduzindo o valor comercial dos grãos. Produtores consultados pelo Cepea relatam que várias praças sequer alcançaram metade da colheita, um cenário que contrasta com o ritmo acelerado do ano passado.

  • Mato Grosso bate recorde histórico: abate de 3,5 milhões de bovinos no primeiro semestre de 2026

    Mato Grosso bate recorde histórico: abate de 3,5 milhões de bovinos no primeiro semestre de 2026

    O estado de Mato Grosso consolidou-se como protagonista no setor agropecuário brasileiro ao registrar, no primeiro semestre de 2026, o maior volume de abates bovinos já contabilizado para o período. Segundo dados oficiais do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), divulgados na última terça-feira, 7 de julho de 2026, foram abatidas 3,5 milhões de cabeças de gado entre janeiro e junho — um aumento de 3,58% em comparação aos 3,38 milhões registrados no mesmo intervalo de 2025.

    Exportações em alta: China lidera a demanda por carne brasileira

    A escalada nos abates foi diretamente influenciada pelo boom das exportações de carne bovina, especialmente para a China, principal destino dos embarques brasileiros. A busca por animais terminados — ou seja, aqueles prontos para abate — manteve-se em patamares elevados ao longo dos primeiros seis meses do ano, segundo a analista de bovinocultura de corte do Imea, Ana Eufrázio.

    “O crescimento do abate de machos, em particular, foi o grande responsável por esse recorde”, afirmou Eufrázio. “A combinação de preços atrativos no mercado internacional e a recuperação da cadeia produtiva após os desafios climáticos de anos anteriores permitiu que o estado atingisse um volume inédito.”

    Impacto econômico e perspectivas para o segundo semestre

    O desempenho supera as expectativas de analistas do setor, que projetavam um crescimento moderado para 2026. A alta de 3,58% no comparativo semestral não apenas reflete a resiliência do agronegócio mato-grossense como também sinaliza potencial para novos recordes no segundo semestre. Especialistas avaliam que, caso a demanda chinesa se mantenha aquecida e as condições climáticas favoreçam a safra de pastagens, Mato Grosso pode fechar 2026 com números ainda mais expressivos.

    O recorde também reforça o papel estratégico do estado na balança comercial brasileira. Em 2025, Mato Grosso já respondia por cerca de 18% do abate nacional, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Com a projeção de crescimento, a expectativa é que o estado amplie ainda mais sua participação no mercado global.

    Qualidade e sustentabilidade: desafios do setor

    Apesar do otimismo, o setor enfrenta pressões por práticas sustentáveis. Em maio de 2026, o governo federal anunciou novas diretrizes para a pecuária bovina, visando reduzir o desmatamento associado à atividade. Produtores mato-grossenses já vêm adotando sistemas de rastreabilidade e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), mas a adaptação às normas exige investimentos significativos.

    Ainda assim, o recorde de abates demonstra que a cadeia produtiva do estado tem capacidade de se reinventar diante de crises — um sinal positivo para o futuro da pecuária brasileira.

  • Etanol derrete: preços caem 13,1% no 1º trimestre da safra 2026/27 com alta oferta e chuvas atrapalhando usinas

    Etanol derrete: preços caem 13,1% no 1º trimestre da safra 2026/27 com alta oferta e chuvas atrapalhando usinas

    A safra 2026/27 começou com um baque nos preços do etanol no mercado paulista. Segundo dados do Cepea, as cotações do hidratado e do anidro recuaram de forma significativa no primeiro trimestre (abril a junho/26), refletindo um cenário de alta oferta de matéria-prima e pressões sazonais.

    Hidratado despenca 13,1% em termos reais

    A média do etanol hidratado nos três primeiros meses da safra atingiu R$ 2,3510 por litro, uma queda de 13,1% em termos reais (ajustada pelo IGP-M de junho/26) em comparação ao mesmo período da safra anterior. O recuo é puxado pela safra mais volumosa de cana-de-açúcar e milho, que aumentou a disponibilidade do biocombustível no mercado.

    Anidro também recua, mas com menor intensidade

    No caso do etanol anidro, a retração foi de 12,4% em termos reais, com média de R$ 2,6868 por litro no mercado spot. A diferença em relação ao hidratado reflete a demanda específica do anidro, usado como aditivo na gasolina, que manteve certa estabilidade mesmo com a pressão da oferta.

    Chuvas em junho atrapalharam produção e criaram picos de alta

    Em junho, o setor enfrentou um paradoxo: enquanto a safra avançava e aumentava a oferta, as chuvas reduziram a atividade industrial em algumas usinas. Segundo o Cepea, os preços chegaram a subir em momentos pontuais devido a essas paralisações, mas a tendência de queda prevaleceu no acumulado do trimestre. Algumas unidades produtoras, por sua vez, registraram dificuldades de liquidez, agravando a volatilidade do mercado.

    Perspectivas: queda pode se estender?

    Analistas do setor indicam que a tendência de preços baixos deve continuar enquanto a safra 2026/27 não mostrar sinais de redução na oferta. A combinação de safra farta, estoques elevados e demanda incerta — especialmente com o comportamento do mercado de combustíveis — mantém o setor em alerta. No entanto, eventos climáticos ou mudanças na política de preços da gasolina poderiam reverter esse quadro rapidamente.

  • Exportações de carne bovina do Brasil batem recorde: US$ 9,85 bi no 1º semestre de 2026

    Exportações de carne bovina do Brasil batem recorde: US$ 9,85 bi no 1º semestre de 2026

    O Brasil consolidou sua liderança global no setor de carne bovina em 2026. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC), compilados pela ABIEC, as exportações brasileiras atingiram 1,705 milhão de toneladas entre janeiro e junho — volume 15,5% superior ao mesmo período de 2025, quando foram embarcadas 1,476 milhão de toneladas.

    Faturamento recorde e demanda em alta

    O faturamento no primeiro semestre de 2026 chegou a US$ 9,85 bilhões, um crescimento de 36,2% em relação aos US$ 7,24 bilhões registrados nos primeiros seis meses de 2025. A alta nos preços internacionais e a expansão da China como principal comprador, além da abertura de novos mercados, foram os principais vetores desse desempenho histórico.

    China e diversificação de mercados impulsionam resultados

    A China manteve-se como o maior destino das exportações brasileiras, absorvendo cerca de 60% do volume total embarcado. No entanto, o crescimento também refletiu uma estratégia bem-sucedida de diversificação, com destaque para países do Oriente Médio, África e Europa, que ampliaram suas compras em função da estabilidade da oferta brasileira e da qualidade do produto.

    Impacto na balança comercial e perspectivas

    Esse recorde no primeiro semestre reforça a importância do setor agropecuário para a economia brasileira. Com uma média mensal de 284 mil toneladas embarcadas, o Brasil não apenas manteve — como ampliou — sua posição como maior exportador global de carne bovina. Para o segundo semestre, analistas projetam manutenção dos preços elevados, embora a dinâmica da demanda chinesa e possíveis restrições sanitárias em outros países possam influenciar o ritmo das exportações.

  • Grupo Prime entra em recuperação judicial com dívida de R$ 790 milhões e busca renegociar com credores

    Grupo Prime entra em recuperação judicial com dívida de R$ 790 milhões e busca renegociar com credores

    Na última sexta-feira (4 de julho de 2026), a Justiça do Paraná deferiu o processamento da recuperação judicial do Grupo Prime, empresa especializada em soluções para o agronegócio, com um passivo total de aproximadamente R$ 790,2 milhões. A decisão, publicada nesta segunda-feira (6 de julho de 2026), autoriza o grupo a manter suas operações enquanto conduz negociações com credores e elabora o plano de recuperação.

    O que levou à recuperação judicial?

    O deferimento do processamento da recuperação judicial foi fundamentado no cumprimento dos requisitos da Lei nº 11.101/2005, que rege os processos de reestruturação empresarial no Brasil. Segundo o Judiciário paranaense, a documentação apresentada pela empresa — incluindo dados contábeis, fiscais, patrimoniais e operacionais — foi considerada suficiente para prosseguir com o processo. O passivo de R$ 790,2 milhões inclui tanto créditos concursais quanto extraconcursais, refletindo os desafios enfrentados pelo setor nos últimos anos.

    Atuação do Grupo Prime e impactos do setor

    Fundado no Paraná, o Grupo Prime atua em segmentos essenciais do agronegócio, como nutrição vegetal, manejo biológico e integração lavoura-pecuária. A empresa presta serviços a produtores rurais em diversas regiões do país, mas enfrenta um cenário adverso marcado por juros elevados, restrição ao crédito, aumento da inadimplência e dificuldades financeiras. Esses fatores pressionaram a saúde financeira da companhia, levando à decisão de buscar proteção judicial para reorganizar suas dívidas.

    Próximos passos: negociação e reestruturação

    A recuperação judicial permite que o Grupo Prime mantenha suas atividades enquanto negocia com credores para reestruturar sua dívida. O plano de recuperação, que deve ser apresentado em até 60 dias, será submetido à aprovação judicial e dos credores. A expectativa é que a medida possibilite a continuidade das operações e a manutenção dos empregos, além de evitar a falência da empresa. O desfecho do processo dependerá, no entanto, da capacidade da companhia de apresentar um plano viável e obter o apoio dos credores.

  • Crédito rural: 92,8% dos recursos vão para compra de terras, revela estudo inédito

    Crédito rural: 92,8% dos recursos vão para compra de terras, revela estudo inédito

    O crédito rural brasileiro está sendo redirecionado de forma estratégica. Dados exclusivos obtidos pela Friggi & Secco, com base em operações junto a 29 pecuaristas e 75 agricultores, revelam que 92,8% dos financiamentos contratados foram destinados à aquisição ou expansão de terras rurais até 6 de julho de 2026. A constatação rompe com o tradicional uso desses recursos voltado apenas para custeio de safras, insumos ou manutenção de maquinário.

    Da subsistência à acumulação patrimonial: a virada do produtor rural

    A mudança sinaliza uma virada na mentalidade do produtor brasileiro. Em vez de enxergar o crédito como ferramenta temporária de sobrevivência sazonal, os agricultores e pecuaristas passam a tratá-lo como alavanca de crescimento de longo prazo. A terra, nesse contexto, ganha status de ativo estratégico, capaz de garantir não apenas produção, mas também valorização do patrimônio em um setor cada vez mais pressionado pela expansão de fronteiras agrícolas.

    O agro em alta: por que as terras estão no radar?

    O cenário é favorável. No primeiro semestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio registrou crescimento de 4,2%, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), consolidando o Brasil como um dos principais players globais na produção de alimentos. Nesse ambiente, a compra de terras surge como uma opção segura em um mercado onde a demanda por commodities — como soja, milho e carne bovina — segue em ascensão, impulsionada pela China e pela África.

    Além disso, a valorização das terras agrícolas tem se mostrado acima da inflação nos últimos anos. Segundo a Terra Magna Consultoria, o preço médio de uma hectare de terra no Centro-Oeste brasileiro subiu 18% em 2025, enquanto a inflação oficial (IPCA) fechou o ano em 4,5%. A combinação de alta demanda, juros controlados e perspectiva de longo prazo torna o investimento em terras ainda mais atrativo do que aplicações financeiras tradicionais.

    Riscos e consequências: quem ganha e quem pode perder?

    Apesar dos benefícios óbvios para os produtores que conseguem acessar o crédito, a concentração de recursos na compra de terras pode acentuar desigualdades no campo. Pequenos e médios produtores, que dependem de financiamentos para custeio e inovação, podem ficar em desvantagem frente a grandes grupos capazes de alavancar operações de expansão. A bancarização do agro — que já é um desafio histórico — pode se tornar ainda mais seletiva.

    Outra preocupação é a pressão sobre o meio ambiente. A expansão de fronteiras agrícolas, especialmente no Cerrado e na Amazônia Legal, está diretamente ligada ao desmatamento. Segundo o MapBiomas, entre 2020 e 2025, mais de 12 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em áreas de pastagem ou lavoura — um ritmo que pode se acelerar com a migração de recursos para a compra de terras.

    Para especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, o fenômeno não é necessariamente negativo. “O produtor que expande sua área com planejamento está contribuindo para a segurança alimentar do país“, afirma a economista Márcia Sakamoto, da FGV Agro. “O desafio é garantir que essa expansão seja feita de forma sustentável e com acesso igualitário aos recursos“.

    O que esperar do futuro do crédito rural?

    A tendência deve se manter enquanto o agro brasileiro mantiver seu ritmo de crescimento. A Bancada Ruralista no Congresso já sinaliza a intenção de ampliar linhas de crédito específicas para a compra de terras, especialmente para médios produtores. No entanto, a pressão por regulações ambientais e sociais pode impor limites ao ritmo dessa expansão.

    Uma coisa é certa: o crédito rural não é mais sinônimo apenas de sobrevivência, mas sim de estratégia de negócios. Para o produtor, a terra deixou de ser um mero insumo e se tornou o principal ativo de um portfólio que precisa, cada vez mais, pensar em escala, inovação e sustentabilidade.