A aparência impecável de um silo bem compactado, com silagem de milho de alta digestibilidade e ricos em grãos, pode ser um engodo para o produtor rural. Embora seja um volumoso estratégico na engorda de gado, a dependência exclusiva dele na dieta dos animais esconde um risco biológico que afeta diretamente a eficiência do confinamento: o apagão proteico no rúmen.
O mito da autossuficiência da silagem de milho
A silagem de milho avançou tecnologicamente nas últimas décadas, com lavouras cada vez mais produtivas e grãos de alta qualidade. No entanto, o zootecnista e consultor Rogério Coan, ouvido pela reportagem no dia de hoje, adverte: “Acreditar que a silagem sozinha supre todas as necessidades nutricionais de um ruminante de alta performance é uma das armadilhas mais comuns — e caras — da pecuária moderna”. A alta energia do milho mascara a deficiência de proteína bruta, essencial para o desenvolvimento muscular e a saúde ruminal.
Como o desequilíbrio nutricional se transforma em prejuízo
Quando o animal recebe apenas silagem de milho, o rúmen — ambiente responsável pela fermentação dos alimentos — fica sobrecarregado com carboidratos não fibrosos (CNF), mas carente de proteína degradável (PDR). Isso gera dois problemas imediatos: a diminuição na síntese de proteína microbiana, que é a principal fonte de aminoácidos para o bovino, e a redução na eficiência alimentar. O resultado? O gado demora mais para atingir o peso ideal, o tempo de confinamento se alonga e os custos com alimentação disparam.
Dados da Associação Brasileira de Produtores de Gado de Corte (ABGC), atualizados para junho de 2026, indicam que a falta de proteína na dieta pode elevar o custo da arroba em até 30% em sistemas de confinamento. “O produtor vê um silo cheio e acha que está tudo resolvido, mas na prática está alimentando um motor a diesel com álcool: tem energia, mas falta torque”, compara Coan.
A solução técnica para evitar o gargalo
A correção exige a integração de fontes proteicas na dieta, como farelo de soja, uréia ou até mesmo silagem de leguminosas (como a de estilosantes). Segundo o nutricionista animal Dr. Fernando Paim, a proporção ideal deve contemplar: 70% de volumoso (silagem de milho ou sorgo) e 30% de concentrado proteico, ajustados conforme a fase de engorda e o peso dos animais. “Não é questão de substituir o milho, mas de complementá-lo”, destaca Paim.
A prática, embora conhecida, ainda é negligenciada por cerca de 45% dos confinamentos brasileiros, segundo levantamento da Embrapa Gado de Corte referente ao primeiro semestre de 2026. A consequência? Perdas que vão além do financeiro: aumento da emissão de metano por quilo de carne produzida e piora na qualidade da carcaça.
O futuro da engorda: tecnologia e equilíbrio
Para o especialista em nutrição animal, a pecuária de corte precisa migrar de um modelo baseado em “volume a qualquer custo” para um sistema “eficiência por quilo produzido”. Isso inclui o uso de tecnologias como NIRS (Near-Infrared Spectroscopy) para análise rápida da composição da silagem e softwares de gestão que monitorem a relação energia:proteína em tempo real. “O produtor que não ajustar a dieta hoje estará fora do mercado amanhã”, alerta Paim.
Enquanto isso, no campo, a lição é clara: a silagem de milho é uma ferramenta poderosa, mas não uma solução completa. Ignorar suas limitações é como construir um prédio sem fundação — parece sólido por fora, mas pode ruir a qualquer momento.

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