Inadimplência no campo explode: leilões de propriedades rurais batem recorde com crise de crédito e clima adverso

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Crédito rural em colapso: 20% dos empréstimos já estão inadimplentes

Dados compilados pela Reuters revelam que a inadimplência no crédito rural brasileiro disparou para quase 20% dos empréstimos em circulação até 15 de junho de 2026, um recorde histórico. A escalada da crise tem levado credores a acelerar a execução de garantias — sobretudo propriedades rurais —, que agora são leiloadas em ritmo acelerado em todo o país. Produtores e analistas do setor apontam para um cenário de ‘tempestade perfeita’, onde fatores econômicos, financeiros e climáticos se combinam para asfixiar o agro nacional.

Preços em queda, custos em alta: a armadilha da soja e do milho

O preço dos grãos, principal fonte de receita dos agricultores, não acompanha os custos de produção. Para a safra atual, produtores já desembolsam até R$ 8 mil por hectare antes mesmo da colheita — valor que inclui fertilizantes, defensivos, diesel e mão de obra. Enquanto isso, a cotação da soja e do milho segue em patamares baixos, pressionados pela supersafra global e pela demanda enfraquecida da China. ‘É como vender ouro a preço de ferro velho’, resume um produtor do Mato Grosso ouvido pela reportagem.

Juros estratosféricos e El Niño: o golpe final nos cofres das fazendas

As taxas de financiamento rural, que já beiram os 14% ao ano — patamar próximo ao histórico de 2003 —, somam-se à inflação de insumos agravada pelo conflito no Irã, que elevou o preço dos fertilizantes em mais de 40% desde 2024. Para piorar, meteorologistas alertam para a possibilidade de um ‘super El Niño’ entre agosto e dezembro de 2026, fenômeno que pode reduzir a produtividade das lavouras em até 30% nas regiões Centro-Oeste e Sul, segundo a Embrapa. ‘Se o clima colaborar, ainda há chance de recuperação. Mas, com esse cenário, a sobrevivência das médias e pequenas propriedades está em xeque’, avalia o economista agrícola José Roberto Mendonça de Barros.

Leilões em alta: o que esperar do mercado de terras rurais

O volume de propriedades rurais leiloadas em 2026 já supera em 120% o registrado em 2023, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A maioria dos imóveis à venda pertence a produtores endividados que não conseguiram honrar seus empréstimos. Especialistas do setor imobiliário rural preveem uma queda média de 25% nos preços das terras até o final do ano, especialmente nas regiões de fronteira agrícola, como o Matopiba. ‘Compradores institucionais e fundos de investimento estão aproveitando para acumular ativos a preços de liquidação’, explica a analista de agronegócios Fernanda Lima.

Perspectivas: há saída para o setor?

Apesar do cenário desolador, algumas alternativas emergem. O governo federal estuda a criação de um programa de renegociação de dívidas com prazos estendidos e taxas subsidiadas, semelhante ao que foi feito após a crise de 2008. Paralelamente, cooperativas e produtores apostam em diversificação de culturas — como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) — para reduzir riscos. ‘O agro brasileiro sempre foi resiliente, mas essa crise exige reformas estruturais. Não adianta apenas injetar crédito; é preciso resolver a equação de preços e custos’, alerta o presidente da CNA, João Martins.

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